Daniel Franção Stanchi

Seis poemas

Homem: olha para baixo e vai que lá

                   É o teu destino, onde a terra dorme.

Homem: olha para trás que lá

                   É onde você deixou o traço e o olhar do teu Rosto.

Homem: olha para frente que de lá

                   O Incerto se prepara para visitar o teu Destino.

Homem: olha para o alto, pois lá vive

                   O espelho da tua pequenez mais fundamental.

Homem: abre o teu coração e vê e sente

                   Que és uma pororoca visitada!

 

Coragem

É preciso ter coragem para conviver

            e tolerar o Medo!

 

É preciso coragem para enfrentar

            a face do encontro com o outro,

  a conversa com suas virgulas de silêncio!

 

É preciso ter coragem para abraçar a solidão,

            janela do mundo: a  incomunicável solidão

  que mora no coração de todo Homem.

 

É preciso ter coragem para pular da cama, abrir as janelas,

             pisar ao chão e abrir a porta!

 

É preciso coragem de se equilibrar

             sobre esta canoa bamba

             que a gente -  por falta de nome -

             chama de vida!

 

É preciso coragem para

  caminhar, ver a Beleza

            e a Tragédia desta incerta travessia!

  

No entre fendas

Eu sou o céu estrelado de Caieiras

e o dia que vem do Oriente

na vaga do ventre noturno.

Eu sou a intuição do cacique

e seus batuques de deuses

evocando pensamentos.

 

Eu sou a ciência e seu método

de fabricar libélulas em fogo. Eu sou

o estado febril das peles

e o cobertor de vento gelado

na madrugada. Eu sou o vazio

dentro do nada e o preenchimento dos campos

de rubras vinhas.

 

Eu sou a psicanálise e sua técnica

de fazer transpirar os desejos na terra do corpo,

eu sou a terra e suas placas tectônicas revirando

os tempos.                            Eu sou o vão entre o trem e a plataforma

Eu sou estas casas fruto do imaginário

humano de habitar orbitas

Eu sou o viajante e o morador, sou quem escreve

e sou a escrita talhada em pedra

sabão. Eu sou o trapezista

no arco de um salto e a insegurança

na queda.

 

Eu sou a morte de cada instante e a noite

parindo uma aurora.

Eu sou o céu e as estrelas e os espaços no entre, sou

o cansaço e a esperança do dia que vem sem volta, sou

a friagem noturna e a quentura sob os lençóis. Sou amado

e sou amante, sou a luz e seu duplo, sou a busca do Livro

e o livro não-lido e todos os livros que li. Sou a vontade de partir,

a vontade do regresso e a vontade de ficar.

Sou rio          

            baldo e sou

dia     

dorim, o cio e a estiagem,

grande sertão e as veredas, a queda e a poça

d’água, a flecha e o alvo e o movimento, sou fantoche dos deuses e

deus encarnado em cada órgão, sou a primavera a espreguiçar

no inconsciente do inverno. Eu sou o jejum e a fome, o engano

e a certeza.

 

 A Psicanálise por vir

O homem de duas dimensões está preso na casa-mundo, nascido por uma chaminé-vagina que lhe institui um pseudo-nome e uma pseudo-insistência de continuar sendo. É um homem esquecido da Noite de onde ele veio e pra onde ele vai. Suas palavras não são reveladoras, pois já não lhe atravessa um arrepio nem um rosto humano lhe perturba de Beleza. Está anestesiado e só (cor)responde a fim de manter-se esquecido. Nunca o ser bidimensional, ‘’o-homem-caseiro’’, abraça o exílio como o faz com a tradição que lho domestica e lhe dá o ‘’dom’’ de viver à base de idéias.  Quando os homens de duas dimensões forem acordados pelo Mistério já será tempo de chorar pela precariedade inerente; quando enfim houver o despertar nestas terras de vida morna, não haverá tempo de anistia nem de confortáveis divãs giratórios. E dizer será sempre a derradeira e profética palavra.

 

De uma das conversas que tive com Heidegger

Quando vi a cronologia daquelas lápides achei abstrata demais para uma vida entre mistérios aquela natalidade numérica e sucinta aquela morte superficialmente datada. Daí, dei-me conta, na própria pele inefável, que os nascimentos são muitos e morrer é deixar de ser amado.

 

Confissão

Morro de medo dos mestres

e doutores que querem desmontar

a poesia

com seus cacos afiados de

vidro abstrato. Simone Weil me dá sua mão,

me ajuda a ser pobre! Me esvazia de mim

me ajuda a mandar esses caras

assistir ao drama de Carlitos

no cinema, o nosso drama

mais diário.

 

Daniel Franção Stanchi, 1987, Brasil

É brasileiro e mora na cidade de São Paulo. É poeta, professor de Inglês e tradutor. Cursa o último ano do curso de Psicologia pela Universidade São Marcos. Fez oficinas de criação poética com o poeta e ensaísta Claudio Willer. É agitador cultural e organizador de saraus na Casa das Rosas em São Paulo.

E-mail: danielfrancaostanchi@hotmail.com

 

 

 

 




 



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