DANIEL FARIA|1971-1999

POEMAS

DO LIVRO DO ÊXODO

O deserto alongava-se até à idade

De uma geração

Nós éramos a única planta das areias

A partida contínua e adiada. Quantos

E quantos passos não estivemos descalços

Procurando nos pés gretados a nesga

Para o regresso

As crianças perguntavam o que era a nata e o leite

Perguntavam se as mães eram semelhantes aos favos

As mulheres calculavam em pensamento

A altura que teriam os filhos entre as árvores

Quando chegassem à terra distante do mel



Daniel Faria, Poesia, Quasi edições

 
2.


Quero dizer-te que esta magnólia não é a magnólia

Do poema de Luiza Neto Jorge que nunca veio

A minha casa - ela própria dava flor

Ela riscava nas folhas

Ela era grande mesmo quando a magnólia não crescia



Esta magnólia não é como a dela uma magnólia pronunciada

É uma magnólia de verdade a todo o redor - maior

E mais bonita do que a palavra.



Daniel Faria, Poesia, Quasi edições
 
Tornei-me peso

Rochedo respirando para dentro nos líquenes interiores

Peso da ceguez nos meus olhos contaminados

Das pupilas inquinadas pelas pedras interiores



Tornei os olhos muito impuros por milhares de imagens

Pedras internas golpeando-me

Tornei-os incapazes das visões

Das visões interiores e por fora

Da aparência

Afoguei os olhos no meio das águas

Um peixe cheio de canais mudando as suas cores

Doendo-me muito nos olhos cobertos

Por escamas



Quis abrir os olhos no meio das águas no meio das imagens

E estava cego, estava coberto de fantasmas

Quis respirar com as mãos na garganta, guelras acesas

Porque as imagens não tinham rostos nas janelas



Elas fecharam-se sobre os meus olhos, em cardume,

Elas apontaram-me aos olhos as antenas interiores

Elas propagaram-me um modo cerrado de não ver



Dinamitei depois tudo o que em mim tinha forma de aquário

Um aquário sem nada dentro dele, dinamitei de vazio

Aquilo que na transparência tinha material explosivo

Uma força concreta, a capacidade de um cenário

Devastado



E dinamitei o vazio e encontrei um peso

Humano que não se afundava:

Era um milagre como Lázaro vindo para fora!

Era um homem que nos levava por um caminho desconhecido para casa

E que partia o pão. E eu vi que era ele

Que partia

O pão.



Daniel Faria, Poesia, Quasi edições
 
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,

As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados

Ao peso dos pássaros que se abrigam.



É à janela dos filhos que as mulheres respiram

Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas

Transformam-se em escadas



Muitas mulheres transformam-se em paisagens

Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram

Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem

Cheias de rebentos



As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente. Transformam-se em pomares.

Elas arrumam a casa

Elas põem a mesa

Ao redor do coração.



Daniel Faria, Poesia, Quasi edições
 
1


Acordei com as narinas a sangrar perfume

Como um santo quando acaba de morrer

E debrucei-me para dentro

Para encontrar o golpe no sono.

Encontrei uma mulher sentada entre os pássaros

Que quebrava vasilhas de barro.

Disse-lhe: bebe do meu sangue.

Ela rasgou-me as veias com cacos

E deu de beber aos pássaros.
 
2


Acordei também com os pássaros

E estudei a posição em que os bordava

Nos seus vestidos

E disse: para que lhes espetas a agulhas no coração

Ela respondeu: para que aprendam a direcção do voo.
 
3


Ela pôs-me o dedal sobre os olhos

Um vaso pequenino com que me ministrou o sono

Apagou em mim os instintos da caça.

Estou ferido nas narinas e nos pulmões,

Digo-lhe: sufoco.

Ela ordenou que os pássaros batessem as asas

E fez circular o ar.
 
4


Acordei dentro do poço

Do ar

E soube que podia respirar dentro da água

Porque a mulher estava cercada de peixes.

Disse-lhe: porque quebras aquários contra os joelhos?

Ela mastigava e não me respondeu,

Estendeu a mão e deu-me um vidro a provar
 
5


Trinquei o vidro e ouvi o coração da mulher estalar:

A mulher era uma ilha de todos os lados

Na sua força de um redemoinho parado
 
6


Ela sorveu-me o sangue, curou-me a boca,

Espetou-me um anzol na língua e puxou-me

As palavras

Foi então que pensei que ia morrer

Afogado.
 
7


Acordei dentro desse pensamento como um homem salvo

Com a boca cheia de búzios em forma de palavras.

Soube que era possível respirar dentro das palavras

Porque vi a mulher pôr as mãos sobre os ouvidos.

Ela estava no meu pensamento e tinha um pequeno tear.
 
8


E eu disse à mulher: destece-me

Até que alguma coisa me pense para dentro

Como se alguém me chamasse

Como se badalasse um sino ao redor

Dentro de mim.

A mulher pôs-se à escuta: perdi o fio — disse —

Dos teus novelos.
 
9


Assemelhei-me a um xilofone de silêncio

A um estrondo muito forte que só se ouvia bem em silêncio.

Gritei: então canta!

Ela pegou a minha tristeza e começou a dobar.
 
10


Debrucei-me sobre a meada estreita, o estreito poço

E disse: é agora que vou descer.

Acordei no meio da descida e pensei:

Ah, quem dera a mulher lançasse a sua trança

A prumo.
 
11


A mulher lançou a sua mão

Eu estava na palma da mão

Eu era uma linha que se apagava

Uma linha que ninguém sabia ler.

Eu disse à mulher: Ah, fecha a mão

Para me guardares
 
12


A mulher guardou-me no útero

E eu vi quanta morte existe ao redor de quem nasce.

Perguntei à mulher: porque estás de luto?

Ela abriu o regaço e vi como nas fotografias do holocausto

Exatamente como nas manhãs depois dos terremotos

Cadáveres e cadáveres de peixes e pássaros
 

13


Acordei com os olhos comidos como um corpo depois de sepultado

E gritei para fora do poço: existe alguém desse lado?

Eu estava no fundo, eu estava morto e vi

Que os peixes e os pássaros

Ressuscitavam.



Daniel Faria, Poesia, Quasi Edições

 
Homens que são como lugares mal situados

Homens que são como casas saqueadas

Que são como sítios fora dos mapas

Como pedras fora do chão

Como crianças órfãs

Homens sem fuso horário

Homens agitados sem bússola onde repousem



Homens que são como fronteiras invadidas

Que são como caminhos barricados

Homens que querem passar pelos atalhos sufocados

Homens sulfatados por todos os destinos

Desempregados das suas vidas



Homens que são como a negação das estratégias

Que são como os esconderijos dos contrabandistas

Homens encarcerados abrindo-se com facas



Homens que são como danos irreparáveis

Homens que são sobreviventes vivos

Homens que são como sítios desviados

Do lugar



Daniel Faria, Poesia, Quasi Edições

Daniel Faria nasceu em Baltar, Paredes, em 1971. Frequentou o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa – Porto, tendo defendido a tese de licenciatura em 1996. No Seminário e na Faculdade de Teologia criou gosto por entender a poesia e dialogar com a expressão contemporânea. Licenciou-se em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Durante esse período (1994 - 1998) a opção monástica criava solidez. A partir de 1990, e durante vários anos, esteve ligado à paróquia de Santa Marinha de Fornos, Marco de Canaveses. Aí demonstrou o seu enorme potencial de sensibilidade criativa encenando, com poucos recursos, As Artimanhas de Scapan e o Auto da Barca do Inferno. Faleceu a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga.

 

 

 

 




 



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