ANTÓNIO CARLOS CORTEZ - A SOMBRA NO LIMITE

A António Ramos Rosa

1.

um desejo mais fundo que o desejo
como um desejo surgido da sombra
para ser um resto de sombra em sua sombra
- poema que condensa em seu desejo
a palavra só de média luz
um desejo claro e absoluto de naufrágio
num corpo de espelhos já desfeito
é a própria sombra do poema
essa que se mistura num calor suave
- a que circunda sua sombra branca
- a que se projecta num olhar de águas
- a que se constrói em sua lava de pedra
- sombra no limite da tua mão
- sombra só da humanidade inteira

2.

aquática se move assim a própria sombra
num passar de corpo sobre um corpo
ignora que nas próprias águas s'insinuam
as palavras que são do mesmo fogo
e num ritmo de espadas permanece
e numa incandescência leve em estrela se mistura
para ser cristal ou revolver na mesma sílaba
o seu silêncio e novamente a sua sombra transparente
- que nome te hei-de dar senão deserto?
- que nome
.....o que se evola no espaço animal
- o que traz a serpente de todas as serpentes
- o nome que da sombra percorre o teu rumor
- sombra do poema num olhar de reflectido corpo
- memória que guardamos da sombra do seu jogo

3.

- nada te condensa num limiar de morte quando a vida
- nada tens a dar que não seja teu
- vens só com bússula clara de toda a incerteza
- com tua segurança de crisálida em chamas
- vens só com tua face de estranha arquitectura
- com teu vestido claro a noite inteira de pertence em tua forma
sombra no limite de distância extrema
sua presença é só de música pelo próprio respirar
seu som de sombra é um silêncio em cujos ramos ardem
o que não se descobre no seu sexo de lugares incendiados
e por onde escapar aos seus nervos de ferro e de lonjura
e por onde iniciar o seu corpo verbal
(eis a própria sombra no seu olhar de tigre em solidão)
- a sombra no limite que repete o seu silêncio
.....seu cristal