CLAUDIA SAMPAIO....
«A culpa é minha» e outros poemas

a culpa é minha  

os lábios tremelicantes de Wagner

a gata acomodada na minha almofada

e assim estamos, neste dia em

que Lisboa pára para ver o Benfica.

 

estou isolada numa ilha de pó e livros abertos nas

mesmas páginas desde Domingo.

só eu é que não quero saber da liga Europeia

só eu é que não quero saber se os astros

se uniram para me isolar em cima da manta-zebra

com dois ou três buracos de nicotina

 

a gata que está à janela ri-se de mim

e pisca o olho à vizinha que vai com

o tuperware buscar o jantar à Alice

toda ela feita de benfiquismo, hoje quarta-feira

dia de sol, vento moderado de sudoeste

uns milhões de mortes aqui e ali, menos

nascimentos e menos fodas

hoje ela nem cozinha e aposto que tem uns

camarõezinhos no frigorífico, resultantes

da poupança reforma.

 

o sol já teve três erupções esta semana

mas penso que nada têm a ver com o jogo

nada tem a ver com o jogo, só os adeptos

é que não percebem. Nem eles têm nada a ver

com o jogo. Aliás, nós não temos a ver

com nada de nada de nada.

Nós não somos feitos para pertencermos a

alguma coisa. Nós não somos feitos da

matéria resultante de investigações científicas.

Nós somos feitos de uma explosão, de conjunções,

de equações complicadas, de amor desconhecido.

Nós somos zero infinito, zero ao quadrado, zero perdido

no universo trocista que vai parindo novos

planetas para nos distrair.

 

também eu já pari novos planetas

tenho-os escondidos no ventre

que ninguém vê, nem eu. Aliás, eu não

vejo nada de nada de nada.

Só às vezes.

Mas quando mergulho no mar deixo

sempre os olhos abertos e por vezes

vejo alforrecas cintilantes que me

 mostram a lingua, libidinosas

 

só a mim é que a libido vem em alforreca

e o prazer é um choco que me enche de

tinta quando espasma.

 

a gata à janela ri-se mais uma vez.

E eu não.

Só me rio de vez em  quando e nem sequer

tem piada. É a tal cara de

cuspir em tudo, a minha,

a tal que dizem que é snob.

Deixem-na ser.

A minha cara é que sabe, eu não mando NADA DE NADA.

 

A cara é à parte do corpo. A cara tem um manifesto

em que explica as expressões a usar em cada

ocasião.

Não liguem se me rir num funeral,  ou se vier a

chorar com o benfiquismo. A cara é que sabe.

A cara às vezes comunica com o resto do corpo

Por exemplo, hoje comunica com o meu pé que

está verde e roxo e chora pelas sapatilhas

de ballet. Nunca fui uma grande bailarina.

Nunca fui... nada de nada de nada.

Se fui, não me lembro. Talvez tenha sido mais

nas tardes em que me sentava à mesa da

cozinha com a minha avó, a comer pão

com marmelada e a mexer-lhe nos cabelos

brancos.

Agora sou apenas este corpo na

 manta zebra a teclar umas letras com

o cheiro a laranja que não me sai dos dedos.

 

Tu também não me sais dos dedos.

Agarras-te à laranja e formas um pomar

um pormar feito de ti, quem diria...

pensava que só servias para me

lembrares da pequenez das minhas

palavras.

Pequenas, pequenas, pequeninas...

Nunca poderão sair grandes depois

das monstruosidades que já nos

dissemos. Nós não somos feitos de

acções, somos cobardes, escondidos

atrás de frases, aparecemos ao pôr-do-sol.

 

Um pomar... TU.

 

deiletemo-nos então em volta dos vários

pomares de TUS que por aí existem

 

e eu que nem laranja sou. Só tenho dedos.

se fosse algo, era apenas um figo seco em

embalagem fora de prazo, a contemplar

o ventre cheio de planetas e a sonhar com

o dia de aterragem.

Mas os figos nãoi aterram, deixam-se estar

a ser figos, eternamente. Vivem a secar.

 

VIVAM OS FIGOS SECOS

VIVA EU SENTADA NA MANTA ZEBRA

 

e cheiro os dedos mais uma vez,

cinco pomares estrelados, édens feitos de

TUS, feitos de eus, feitos de nós, feitos de

zeros mais zeros, mais zeros, mais zeros

infinitos zeros que me arrancam as sílabas

que me arrancam as horas a que tinha de

fechar a janela por causa do benfiquismo, as

horas a que tinha de fechar os livros, vão continuar abertos,

sempre as mesmas páginas amareladas

com cheiro a vida ( a vida é nos livros)

cá fora há nada elevado ao extremo, apesar

de não sabermos, mas desconfiamos

a ânsia expande-se de boca em boca disfarçada

de rotina.

Cuspo em todos os que se

dizem felizes.

Cuspo em TODOS ao infinito, infinito,

Infinitamente elevado ao cubo

não tenho vergonha, a cara de hoje é snob.

 

VIVAM OS SNOBS!

 

Tu tus, tus, e já somos tambores

Rufemo-nos em melodias compassadas

Aí vem a claque

Aí vem o rebanho disfarçado de gente

Aí vem o mundo em todo o seu esplendor

clamoroso, ardente de sugar tus,

de nos mandar para o Espaço, de onde

viemos todos.

 Irei.

 

Agora

vou arrancar tecla a tecla e engoli-las

para um dia as poder parir em

forma de pomar.  

 

o amor

Não sei há quanto tempo não pinto as unhas.
Deixo-as com as pontas pretas para me
lembrar que as mergulho na terra para
fazer crescer vidas.
Tenho um romance para acabar de escrever e
um amor suspenso, preso por andaimes um
pouco inclinados e também eles de pontas
pretas.

O meu amor já foi saltitante de nenúfar em nenúfar,
digo-vos eu que gosto de metáforas e esta parece-me
bem. Um amor como uma rã, aos saltos pelas
nenúfares de belas cores, de coachar cantante,
plena de vida, problemas inócuos, a lembrar os dias felizes.
Agora não há dias felizes, há dias semi tristes,
também um pouco inclinados,
suspensos não se sabe onde.
As flores vão morrendo a cada dia que passa,
e eu tenho semi-deuses também eles inclinados
entre os olhos, que me sentam nos andaimes
a balouçar, a ver-te na outra ponta da cidade
todo tu por inteiro, a continuar a tua vida, não
tão inclininada, mas também tão pouco direita,

Sou capaz de te dizer adeus, sou capaz de te
soprar uma nenúfar, de relembrar que os meus
dias sem ti são tão semi-tristes,
sou capaz de me lançar dos andaimes, de
deixar as unhas pretas para todos verem,
mas porra,
o amor não é uma rã.  

 

a margem


Ando feita de crisântemos
luz, banhos de ouro
e perfumes franceses.
Nota-se assim que falo
que um outro eu me substituiu.
Sou agora quase feita de
anúncio de tv,
cara de porcelana e alma
de fermento.

Sonhei.

Os demónios da boca seca
fizeram-me levantar da cama e
suspensa por um fio de vida
redimi-me à margem solta
de um suspiro que ainda
falta.

Desfez-se-me o fermento e
a alma, encolhida,
coube-me perfeitamente na
fronha da almofada.  

 

valsa

Tenho o corpo preso ao mundo.

A alma, se existir, prova de

todos os mecanismos do corpo,

está a esta hora pousada

no colo da minha mãe que

nunca mais me embalou.

 

Deixei a sopa mortificada

na mesa, não sou capaz

de lhe dar casa. Os braços

ramificaram-se, ásperos

de realidade, uma moradia

incompleta.

 

Em fundo, uma valsa do Strauss.

Aqui, o vazio a cuspir-me em cima

e eu sem lhe tapar a boca.

 

Cláudia R. Sampaio nasceu em Lisboa em 1981. Dedicou-se ao ballet, ao teatro, à pintura, ao cinema e à escrita de ficção para TV, sendo a poesia a sua forma preferida de comunicação. 

Blog: http://genocidiopoetico.blogspot.pt/2013/05/a-culpa-e-minha.html

 

 
 

 

 




 



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