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JOSÉ DO CARMO
FRANCISCO
«Chovem cabelos na fotografia»
de Antonieta Preto

Se existe um livro ao qual estas18 histórias fazem um contraponto, esse livro é a «Musa Alentejana» do Conde de Monsaraz (1852-1913).

O livro do poeta amigo de Cesário Verde é, todo ele, uma terra de harmonia: as colheitas sucedem-se às sementeiras, as mondadeiras cantam no trabalho, tal como cantam as ceifeiras, os semeadores, os malteses, os ganhões e até os cavadores quando regressam à noite.

Na paisagem povoada da «Musa Alentejana» apenas os ciganos podem ser uma ameaça de fogo nas searas se não forem bem tratados. De resto o monte, a aldeia ou a vila respiram uma feliz harmonia entre a Terra e o Homem apenas ameaçada pela sombra da Morte. Já em «Chovem cabelos na fotografia» o espaço narrativo é um lugar de conflitos, violência e sofrimento silenciado. Desde logo a pequenez das casas («Na aldeia as casas são rasteirinhas. São térreas e quietas.») e da vida que não muda: «as mesmas caras e os mesmos corpos. Que vão, regressam e tornam a voltar.»

Depois a repetição quotidiana das tarefas: «acartar lenha, fazer o lume, assar a carne quando a há, mondar, debulhar, arranjar as bestas para a eira do compadre lá muito, muito em baixo e descer a serra – uma vez talvez por mês, se calhar é um ano, mas o que é um ano?» E, num mundo de gestos de piedade («A velha rodava a minúscula chave, abria a portinhola de vidro de par em par e, junto da Sagrada Família, havia uma lamparina a tremular no azeite») ressalta a falta de piedade de um padre: «A senhora não sabe que está a perturbar a eucaristia? Ponha-se na rua!».

Mais explícita é a violência do pai sobre o filho («Quando terminas as chicotadas o corpo do meu irmão está em chagas e a mãe põe-lhe água oxigenada com lágrimas») e sobre o bebé que vai nascer. «No dia seguinte nasci. Tens o céu escuro nos olhos, seguras a tristeza junto à letras.»

Algum humor está presente por exemplo na costureira que demora anos a costurar («mandou fazer um fato; há dois anos que lá está»), no merceeiro que faz as contas por feijões, tem um baloiço na loja e faz natação no chão ou ainda no casal que poupa dinheiro: «farinha branca de neve de 1981, farinha 33 de 1979, massas de 1989 e sobretudo toneladas de pacotes de açúcar branco, duros que nem pedras.» Mas o humor é um intervalo curto e o mais forte no balanço destas 18 histórias é o peso da morte: «A chuva é feita de luto. Há um céu viúvo incomensurável em pano de fundo a escurecer o quintal. Os cabelos são sombras nas fotografias. Sombras a precipitar a morte.» O peso da morte a cair sobre a terra, as casas e os homens: «Todos sabiam o silêncio pactuado, herdando os segredos eternos na vida e na morte».

A leitura deste livro é uma poderosa revelação: uma escrita minuciosa que entra pelo lado de dentro das pessoas e das coisas, pela respiração da alma da paisagem e de quem a povoa, ontem como hoje, amanhã como sempre. Notável estreia em ficção.

 
Editora – Temas e Debates
Capa – Henrique Pousão
   
   

 

 

 


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