JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

Um novo livro de poemas de José do Carmo Francisco, saído na Apenas, com baladas e outros poemas de Lisboa, com toada popular, ao gosto do Borda de Água.
 
Poemas de Lisboa
 

Alexei Bueno nas Escadinhas do Duque 

Tinha que ser escritor este bandeirante

Nome herói de romance em homenagem

Assim a Rússia já não fica tão distante

Numa vida que é também uma viagem

 

Nas Escadinhas do Duque é rei à mesa

Dá lições de poesia em breve seminário

Entre cerveja e amendoim nasce a beleza

Da Poesia que o Mundo vê ao contrário

 

Somos poucos aqui um grupo acantonado

Na mesa posta por D. Rosa na sexta-feira

Viajamos num bacalhau bem temperado

Pelo azeite tão puro e leve duma oliveira

 

No Camões a mulher feia vende cocada

Desesperam por um visto os brasileiros

Que pena a vida não poder ficar parada

Aqui onde os poemas nascem inteiros

Balada da Fábula Urbis 

Na antiga marcenaria

Numa das sete colinas

Há um lugar de poesia

Numa casa sem esquinas

 

No gaveto de duas ruas

Sobreloja, boas vistas

Uma hora vale por duas

No roteiro dos turistas

 

Um piano e uma guitarra

Personagens num estrado

A música alcança a barra

Do Tejo que passa ao lado

 

Na passagem das figuras

As coisas mais importantes

São as rodas das viaturas

E os livros nestas estantes

 

Para quem já perdeu a fé

Ou apanhou grande susto

Senta-se e bebe um café

Ajuda o comércio justo

 

Nas janelas de Lisboa

Entre vozes de vizinhas

Na roupa a secar à toa

Há gatos e cuequinhas

 

Já passou um amarelo

A caminho dos Prazeres

Na direcção do Castelo

Ouvi risos de mulheres

 

Vozes puras, de cristal

Miradouro da alegria

São sonhos de Portugal

Na porta da Livraria        

O nosso Bairro cercado

(a Fernando Grade)

Hoje a nossa malta já não vai aos jogos

De hóquei em patins no ringue do Lisgás

Nem a Campo de Ourique pelo Passos.

Só a nossa marcha é que não desiste

E continua a ensaiar as suas marcações

Dois meses antes do desfile da Avenida.

Sabias? A nossa marcha ganhou o prémio

E foi o melhor poema dos bairros de Lisboa

Em mil novecentos e noventa e quatro.

Fanan! Hoje o nosso Bairro está cercado

Nas velhas mercearias vendem cerveja

Em garrafas de litro que eles partem.

Depois vão urinar nas portas dos carros

Atiram os caixotes do lixo ao chão

E os pneus acabam furados de manhã.

Sabias? Mataram um rapaz mulato

Aqui no cotovelo da Rua da Atalaia

Mas não era gente do nosso Bairro.     

Hoje em dia há cada vez mais assaltos

A Polícia regista logo esta ocorrência 

No dia seguinte chegam os da científica.

Mas as impressões digitais dos ladrões

De nada servem e de nada os acusam

Porque os do telhado passaram a palavra.

Os ladrões levaram ouro, prata e casquinha

O computador e as máquinas fotográficas

Além dos relógios que eram para os netos.

Hoje, meu caro Fanan, digo-te:  Não voltes!

Tudo mudou para pior, a rua cheira a urina

E o trânsito no Bairro é também um inferno.

Morreu Dinis Machado e com ele os livros

Que se alugavam na Barateira à semana

Para falar nos cafés do Bairro hoje cercado.

Não voltes! Mas se voltares, meu caro Fanan

Vamos os dois de novo ao ringue do Lisgás

Saber quem nos escondeu as bandeiras.

As três janelas do fotógrafo Manuel Neto

Aconteceu uma vida anterior

Quando alguém se despediu

Nas três janelas desta casa.

Houve um primo na Índia

Um tio esteve nos Açores

 E o pai foi para Cabo Verde.

O outro tio não foi para Macau

Mas até essa dúvida militar

Teve nas janelas testemunhas.

A avó rezou o terço todos os dias

E desmaiou no sol da missa campal

Quando o padre falou nos soldados.

Mas tudo isso foi muito antes do fim

Quando nesta casa se começou

A saber qual a gramática da ruína.

Depois todas as rendas se rasgaram

Como as redes da praia apodrecem

No canto das areias e do silêncio.

Aos poucos todos partiram de casa

Levando a vida fechada em malas

E sem tempo para dizer adeus.

A chuva fez o resto com o vento

E ninguém percebe a vida antiga

O frémito das vozes e dos dias.

Nesta casa só as janelas dizem

O inventário do tempo passado

E o balanço dos dias do presente.

A parede perdeu a sua pele antiga

Do tempo em que a casa respirou

E a vida era dizer adeus nas janelas.

Balada da Calçada do Combro  

A Rua de todos os dias

Onde eu ia quatro vezes

E as noites mais sombrias

Demoravam como meses

 

Polícia à porta da Escola

A proteger as meninas

O amor era uma esmola

Pedida noutras esquinas

 

Poço dos Negros abaixo

Em cima era o Calhariz

Na memória que eu acho

Tudo é escuro e infeliz

 

Havia a guerra e o medo

Estava perto a inspecção

Um poema era segredo

Na Escola Veiga Beirão

 

Ao sábado até à uma

O trabalho continua

A bica de alta espuma

Espera por mim na rua

 

Manhã de segunda-feira

Vinte e oito na pendura

Uma vida verdadeira

Não se vive em ditadura

 

Nos cafés ao fim do dia

Os boatos são notícias

Falar é uma teimosia

À paisana são polícias

 

«Suplemento literário»

Quinta-feira nos jornais

Via o tempo ao contrário

Onde os sonhos eram reais

 

Passam já quarenta anos

Sobre mim sobre a calçada

Fora estes mitos urbanos

Parece que não houve nada

 

Excepto talvez a ternura

Que se gastou em excesso

A calçada é uma gravura

Mas virada do avesso

 

Onde até eu sou presente

Na multidão disfarçado

Estou no lugar da frente

Assim vou a todo o lado

 

Numa porta de Livraria

Vi Bocage em imagem

Na paragem da alegria

Acabou esta viagem

 
POEMAS DE LISBOA E BORDA DE ÁGUA
José do Carmo Francisco
Lisboa, 2014, Apenas Livros Editora
 
 
 
 

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO (Santa Catarina, Caldas da Rainha,1951).

Prêmio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Colaborou no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses do Instituto Português do Livro. Poeta. Possui uma antologia da sua poesia publicada no Brasil. Jornalista, colaborou entre outros em "A Bola", "Jornal do Sporting", "Remate", "Atlantico Expresso"...

Autor de "Universário", "Jogos Olímpicos", "Iniciais", "Os guarda-redes morrem ao domingo", etc., bem como de antologias como "O trabalho", "O desporto na poesia portuguesa e "As palavras em jogo", entre outras.

É secretário da Associação Portuguesa de Críticos Literários. Vive em Lisboa.
 Contacto: jcfrancisco@mail.pt

 
 
 
 

 

 

 


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