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JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

O Zé-Povinho na minha pequena memória catarinense

A casa onde nasci (13-2-1951 – Santa Catarina) já não existe pois está reduzida a um monte de entulho entre telhas podres, barrotes com bicho, tábuas velhas e caliça tão antiga que já ninguém se lembra das casas feitas com cal, pedras da Serra e areia.

Mas, num canto do armário da casa de fora, se ninguém o retirou a tempo para o colocar a bom recato, ainda deve estar um Zé-Povinho que o meu avô José Almeida Penas trouxe das Caldas da Rainha há muitos anos de um, mais um, 15 de Agosto.

Na minha terra, pelos idos anos 50, sempre me lembro de ver nas inúmeras tabernas os bonecos de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) a ilustrarem uma frase e um gesto: «Queres fiado? Toma!»

Como sou o mais velho da minha geração, também me lembro de as pessoas amigas dizerem às crianças da minha família, quando estavam ao colo de alguém: «Faz-lhe um toma, palerma!». E a reacção era sempre oposta: se uns diziam «Coitadinho do cachopo, não lhe ensinem isso!» já outros diziam «Já está em boa altura de aprender!»  

Quando eu nasci já o Zé-Povinho era uma figura popular há 76 anos e estava, por assim dizer, consolidada. Tal como a imagem com o «milagre de Dom Fuas Roupinho» praticamente todos os lares catarinenses do meu tempo tinham um Zé-Povinho.

Só mais tarde soube que ele, o espantoso boneco-símbolo do Povo Português, tinha nascido na revista A Lanterna Mágica.

Só mais tarde soube que foram seus progenitores, além de Rafael Bordalo Pinheiro, o primeiro-ministro Fontes Pereira de Melo, o rei D. Luís e o ministro Serpa Pimentel. Todos pediam ao Zé-Povinho um tostão para o Santo António. E ele não deu.

Só mais tarde soube que na sua família foram muitos os artistas: seu pai Manuel, sua irmã Maria Augusta, seu irmão Columbano e seu filho Manuel Gustavo.

Mas isso já é Cultura, uma coisa que se aprende porque se pode ler e ir buscar a quem sabe mais do que nós. Mas na base, bem na base da memória, está a figura do Zé-Povinho que, em momentos de tristeza ou de desânimo, me habituei a ver as pessoas da casa a olharem para ele como quem invoca a sua atitude. Quando uma coisa corria mal, quando um desaire se anunciava, quando um desabafo subia de tom para o inevitável «Ah fado dum ladrão!», nesses momentos difíceis a figura do Zé-Povinho ajudava a resistir. Assim como se o armário fosse um altar e o boneco um santo.

Aqui há tempos, estava em Londres e lembrei-me do Zé-Povinho. Fui sujeito a uma bateria de perguntas até finalmente receber o cartão de leitor da British Library. Quase me trataram como um delinquente e a minha sorte foi ter um cartão de crédito «gold» pois caso contrário ainda agora lá estava à espera de ordens. Estava tão-somente a querer ajudar o meu filho na sua (ao tempo) tese de mestrado que é hoje um livro nos escaparates das livrarias - «O primeiro Marquês de Alorna – restaurador do Estado Português da Índia (1744-1750)». Pois o nosso querido Zé-Povinho fez muita falta na British Library. Talvez seja isso mesmo – para muitos de nós o Zé-Povinho é mais um familiar, um parente próximo, uma amigo desde sempre e para sempre. Mudam os tempos, mudam as circunstâncias mas o Zé-Povinho continua no seu posto.

José do Carmo Francisco 

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO (Santa Catarina, Caldas da Rainha,1951).

Prêmio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Colaborou no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses do Instituto Português do Livro. Poeta. Possui uma antologia da sua poesia publicada no Brasil. Jornalista, colaborou entre outros em "A Bola", "Jornal do Sporting", "Remate", "Atlantico Expresso"...

Autor de "Universário", "Jogos Olímpicos", "Iniciais", "Os guarda-redes morrem ao domingo", etc., bem como de antologias como "O trabalho", "O desporto na poesia portuguesa e "As palavras em jogo", entre outras.

É secretário da Associação Portuguesa de Críticos Literários. Vive em Lisboa.
 Contacto: jcfrancisco@mail.pt

 
 
 

 

 

 


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