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MARIA JOÃO CANTINHO
Imagem e Tempo na obra de
Maria Gabriela Llansol
(1)
 
Dedicado ao Augusto Joaquim
 

"Ana de Peñalosa não amava os livros: amava a fonte de energia visível que eles constituem quando descobria imagens e imagens na sucessão das descrições e dos conceitos"
Maria Gabriela Llansol, O Livro das Comunidades, p. 75

"Écrire, c'est rentrer dans l'affirmation de la solitude où menace la fascination. C'est se livrer au risque de l'absence de temps, où règne le recommencement éternel.(...) Écrire, c'est disposer le langage sous la fascination et,
par lui, demeurer en contact avec le milieu
absolu, là où la chose redevient image(...)."
Blanchot, L'Espace Littéraire, p. 31

"(.)Exercitaremos os pés por entre as imagens e as mãos sobre a escrita."Maria Gabriela Llansol, O Senhor de Herbais, p. 37

 

É trivial, ao falar-se da obra de Maria Gabriela Llansol, aludir a uma certa estranheza (1) e a uma complexidade que recobre toda a sua obra, contribuindo para uma resistência, por parte dos leitores. De uma forma aparente e muito superficial, podem tomar-se os seus textos como um exemplo de aleatório e, mesmo, de um absurdo. Mas, à medida que se penetra a estranha e complexa mundivisão llansoliana, é fácil, ainda, incorrer no risco de a tomar como um 'estilo' ou um 'modelo' aplicável em todas as circunstâncias. Por essa razão, só a concentração e a atenção ao desenvolvimento da sua obra e da transversalidade dos temas e figuras, conceitos que a percorrem, permitem levar a cabo uma circunscrição dos pontos que configuram a sua escrita como a apresentação, em si, não apenas do mundo, como de um método, cujas directrizes são esquivas, mas passíveis de serem vislumbradas.

O que coloca a grande dificuldade da interpretação do seu universo literário é, com efeito, a sua ilegibilidade, como o nota Rui Magalhães (2), ao relembrar essa desintegração do equilíbrio a que o texto narrativo e convencional nos habituou. Sem querer radicalizar a noção de leitura e de texto, o certo é que o texto llansoliano possui esse dom (o dom poético), que resulta do abandono da literatura para mergulhar no abismo - já não da literatura - mas da própria escrita, no que ela contém de perigosa implosão. E é nesse limiar de perigo, entre o exprimível e o inexprimível, que se sustenta o texto llansoliano. É precisamente nesse umbral da literatura, confinando com o segredo, que leva Silvina Rodrigues Lopes (3) a definir a literatura llansoliana de «literatura mística» (4), por se encontrar numa relação indissociável da epifania. Não se trata apenas de os seus livros serem habitados por figuras (e não personagens, como se verá adiante) de místicos, mas de um trabalho de escrita que opera sobre a palavra, no sentido de as tornar "opacas". Elas são arrancadas ao seu contexto habitual, para entrarem no círculo de uma nova significação, o que as torna estranhas. São, dizendo de outro modo, consumidas e transformadas numa outra matéria, adquirindo uma nova significação.

Circunscrever o campo em que se move a escrita llansoliana, leva-nos a referir determinados critérios que parecem aplicar-se-lhe, descobrindo-lhe uma natureza e uma energia peculiares, que movem e impulsionam o texto. Esses critérios, ou melhor, palavras que caracterizam a sua escrita, não são mais claros e evidentes pelo facto de serem nomeados, mas permitem encontrar focos de luz irradiantes e vestígios que esboçam uma estética llansoliana. São essas palavras a visão, a possessão, o vazio, a errância, a pobreza, a rebeldia, a comunidade, entre outras. Mas essas mesmas palavras encerram desde logo e em si um segredo. Quando é pensável a leitura crítica sobre a obra, imediatamente vem à memória o noli me legere de Blanchot (5). Ressalte-se o precário do texto, a zona obscura em que ele se encerra, guardando em si o sentido. A resistência abre-se nessa incandescência da imagem; se, por um lado, ela (imagem-escrita) apela ao jogo das faculdades, para usar o termo kantiano; por outro, essa imagem fecha-se sobre si própria, transformando-se num interdito.

Deste modo, o paradoxo suscitado não é um impeditivo da leitura, mas confirma, antes, uma exaltação dessa tarefa da participação na compreensão e decifração (caso seja possível falar nestes termos). Acresce, ainda, o facto de vislumbrar, pela crítica e pelo trânsito entre a leitura e a escrita, o reconhecimento de uma "escrita laboratório" que M.G.L. reconhece no seu diário, Um Falcão no Punho, p. 60: "Musil e eu interessamo-nos pelo pensamento que se desenvolve e suspende na escrita; a literatura como comércio, abandonámo-la neste cruzar de prados onde nos encontrámos por uma circunstância fortuita (...) Liga-nos a aquiescência de que almejar com a escrita não é o mesmo que esbanjar no vazio a palavra." (6). Não, a palavra não é, de modo algum, esbanjada, ou objecto de um jogo fortuito, mas é, se é que se pode defini-la assim, "reconvertida" pela sua incorporação numa nova ordem de significação. E o perigo da escrita está nessa tarefa de lutar contra a ordem de significação convencional (e meramente comunicacional da narrativa), integrando-a numa nova constelação ou ordem. O efeito que daí resulta é, justamente, essa estranheza e ilegibilidade a que já se aludiu anteriormente. A escrita não se inscreve num horizonte pré-determinado de sentido, mas abre o espaço fundante, o Lugar . É exemplo particular desta escrita laboratorial O Livro das Comunidades, todo ele dividido, não em capítulos, como seria de esperar, mas em Lugares e em que cada Lugar abre, a partir de si próprio, um espaço de epifania, criador e novo, onde a imagem se dá como cena fulgor.

Este aspecto laboratorial reveste-se de um método que se apoia em determinados conceitos, de importante apresentação e sem os quais o leitor permanece num estatuto de indecibilidade relativamente ao texto da autora. Porquê, em primeiro lugar, falar de um método, já que essa palavra traz ressonâncias indossoluvelmente ligadas a determinados "modos de fazer", que podem incorrer no risco de uma receita 'pré-fabricada' ou um modelo a priori , aplicável a todas as suas obras? Antes de mais, seria de ressalvar a extrema originalidade com que Llansol percorre o seu caminho, tacteando obviamente as suas obsessões, mas sem nunca abandonar esse efeito de subversão em que se tropeça, a cada passo.

É preciso frisar que, para M.G.L., só a escrita interessa. A escrita como experiência, busca e mergulho em si mesma e isso implica romper com os cânones literários e os géneros impostos convencionalmente. No seu universo não é possível falar-se de unidade ou de narratividade, ainda que a coerência do texto seja a sua linha decisiva. Desengane-se o leitor, mesmo o mais atento, se experimentar na leitura llansoliana a desconcertante "experiência" do fragmento desconexo ou de um labiríntico universo. Recorde-se Maurice Blanchot, ao afirmar que "a essência da literatura é escapar a toda a determinação essencial, a toda a afirmação que a estabilize ou a realize: nunca já lá está" (7). Deste ponto de vista, Llansol, não se encontra preocupada com a literatura - e jamais perfilharia a ideia mallarmiana do Livro (8) - e tão pouco com o acto da escrita em si, despojado, teórico ou reflexivo, se ele não não se encontra indissociavelmente ligado à vida e à própria morte. Poder-se-ia dizer que a escrita de Llansol não é do passado - mesmo que constituída por figuras míticas e históricas - nem do presente, mas inscreve-se na ordem do devir, em que a sua lei é apenas a da pura metamorfose. Por opção, a escrita de M.G.L. não é capaz de fixar-se numa unidade ou num ponto determinado, mas exerce-se pela via de da errância, desenhando-se caprichosamente como um pensamento nómada e anárquico, que faz do entrosamento dos saberes, das conexões e desconexões, das passagens entre as figuras, que se delineam transversalmente na sua obra, o espaço transcendente da comunicação e expressão da linguagem.

Eis o modo como a própria autora afirma essa energia criadora que impulsiona a sua escrita: "Detenho-me no modo de separar tantas razões, num único lamento, no modo de separar uma parte do todo, como se fosse a resolução desta operação a determinar o aparecimento do dom, em toda a sua claridade e nobreza, e, por si só, arrastasse o prosseguimento do texto" (9). A irradiação do sentido nasce, pois, desta desintegração do todo e a construção - já não à maneira de um tecido homogéneo e unitário - do texto processa-se mediante a lei desse "encontro inesperado do diverso", unicamente (podemos arriscar dizê-lo) resultante da lei da metamorfose. Por isso, a autora acrescenta imediatamente que "São estruturas materiais que permitem a transformação da matéria em matérias mais leves, até que eu veja como todo o lugar tem várias formas de evoluir no nosso rosto sem o murchar". Aqui surge o que parece, justamente, a "pedra de toque" do método llansoliano: "Nunca compreendi o que era estar no tempo, o que era mudar, o que é agir. Sinto-me bem a moldar a metamorfose." (10). Por outras palavras, a autora segue o seu caminho, não em relação ao incognoscível, mas ao imperceptível e é, justamente neste ponto que concordo com as afirmações de Rui Magalhães, ao definir essa subtil diferença que faz toda a distância entre a literatura mística e a escrita metódica de Llansol.

Avessa aos conceitos de escrita narrativa e ao próprio conceito de representação, no sentido de mimesis realista - que lhe parece pueril e inexperiente, como a autora o afirma em Um Beijo dado mais tarde - ela deve ser entendida como "experiência", naquilo que de mais radical contém. É, aliás, de acordo com essa radicalidade que se encontram conceitos como os dedos que escrevem e tocam a labareda, como em S. João da Cruz, ou o lápis sonhante, aquele que não representa, mas faz nascer o sonho, desenhando-o pela escrita.

Arriscaria, nesta concepção de uma escrita-limite, fundadora e fundante do real, afirmar a presença de uma imanência da escrita ao corpo, imanência que faz deflagrar a distinção entre sujeito e objecto, numa operação designada por "mutação libidinal e afectiva" (11). O objectivo que esta mutação procura levar a cabo é a reunião, mediante a travessia da escrita, "entre o que tem andado dividido: a liberdade de consciência e o dom poético." (12). Esse dom poético jorra do "encontro inesperado do diverso", resultante de um processo de fulgurização, no sentido em que "a matéria prima do texto é o confronto/adequação dos afectos e da língua, sobre um solo de um lugar que é sempre um corpo e uma paisagem falando-se" (13). O confronto ou combate, entre os afectos e a língua, concentra em si a possibilidade do enfraquecimento da linguagem e da descoberta da sua falha, no sentido de Agamben (14), permitindo a desagregação das regras convencionais, dissolvendo a unidade da linguagem isto é, pondo em causa os cânones da representação e da narratividade. Desliza-se, assim, de um tempo/espaço de sucessão narrativa para um espaço fulgurizado, onde o tempo histórico e cronológico, sucessivo, é anulado, fundando o lugar, criando uma epifania, a que MGL chama cena fulgor .

Desde logo, a fulgurização ou o processo de irradiação que Maria Gabriela Llansol confere à escrita, dissolvendo a unidade do texto, remete para o seu carácter fragmentário, que atinge todos os aspectos do que seria uma suposta unidade do texto-narrativa. As partes (que supostamente seriam as partes de um todo) transformam-se em fragmentos e adquirem uma autonomia que lhes permite funcionar por si, transformando-se em elementos que, após sofrerem uma descontextualização de uma ordem de sentido anterior, adquirem uma nova ordem de significação. Cada fragmento adquire, nessa nova ordem, um novo sentido que nasce, precisamente, dessa constelação a que se chama "o encontro inesperado do diverso". (v. subtítulo de Lisboaleipzig 1).

O processo de desfiguração da ordem comum é também o momento da recusa do contínuo narrativo (mas não do romance, como há de ver-se), de estilhaçamento e que se dá pela produção de imagens que apresentam a realidade de uma outra forma, descontínua e fragmentária. Assim, se à narratividade corresponde o processo metafórico (que supõe a analogia entre universos que se encontram, ou epistemológica ou rectoricamente ligados), na escrita de Maria Gabriela Llansol, o procedimento do "encontro inesperado do diverso", possibilita a abertura para uma ordem não antecipável, não previsível, portanto. A escrita llansoliana, deste ponto de vista, cumpre-se nesse apontar rilkeano para o "Aberto", de que o poeta fala, na sua oitava elegia, nas Elegias de Duíno.

A metáfora, ao invés do movimento de abertura, aproxima aquilo que há de comum, enquanto a imagem rompe com o comum, o "esperado", instaurando o efeito, tanto da estranheza, quanto da ilegibilidade dos textos llansolianos. O afastamento do procedimento metafórico é visível em Maria Gabriela Llansol, no texto Um Beijo dado mais Tarde: "Mas a metáfora é uma pequena fuga ao sentido, uma pequena chama que só permite a compreensão passageira do que está a ler." (v. p. 24). Como o nota com acutilância Silvina Rodrigues Lopes (15), equacionar o campo da metáfora e circunscrever-lhe o método, são actos que não podem fazer-se senão no campo da dualidade e, para compreender a escrita llansoliana, "temos de sair da dualidade. Temos de admitir que participamos de vários mundos que funcionam diferentemente". Mundos, acrescente-se, "para os quais a verdade é diferente", pois o campo de sentido de cada um desses fragmentos circunscreve, em torno de si, um campo de fulgor ou imagético, com as suas próprias regras e sentido, funcionando autonomamente. De outro modo dizendo, a metáfora possui um poder de estabelecer analogias, permitindo movimentos de deslocação e de derivação das forças significativas, mas é incapaz de quebrar as "linhas de significação dominantes, nunca ela pode conduzir ao outro." (16). Embora no caso da metáfora se possa claramente identificar a rejeição do seu procedimento, por um desvio, no caso do símbolo, é preciso confirmar a sua operacionalidade na escrita llansoliana, delimitando-lhe, no entanto, a sua função. Todo o texto de Maria Gabriela Llansol é inequivocamente simbólico e essa carga simbólica, uma vez que se renuncia às categorias de personagem, de narrativa, liga-se essencialmente ao Lugar e à Figura.

 
 
Notas

(1) Remeto, desde logo, o leitor para o notável estudo de Silvina Rodrigues Lopes, Teoria da Des-possessão, Lisboa, Black Sun Editores, 1988, p. 7, onde a autora aponta este carácter de estranheza, de um "mal estranho".

(2) Cf. texto inédito, O dom do Método, em que o autor afirma: "O texto de Llansol não é legível. Não se trata, nele, de narrar uma história, da exploração da imaginação ou da memória(...).Trata-se, evidentemente, de evocar/convocar o imperceptível para o mundo vivido que, assim, se desloca do seu espaço habitual, desmontando, nesse movimento, a diferença entre o real e o ideal."

(3) Cf., Teoria da Des-possessão, pp. 33, 34.

(4) É curioso lembrar aqui o modo como Rui Magalhães discorda do facto de Silvina considerar a literatura llansoliana de mística. Na sua óptica, existe um paradoxo entre o que se almeja na literatura mística e o que se "pratica" na escrita metódica. Certeiramente, Rui Magalhães observa que o "místico implica um processo centrado, implicando a transcendência absoluta" e a unidade. Ora, em Llansol e segundo o seu ponto de vista trata-se sobretudo de conhecer o imperceptível, algo que existe, sob a forma de fragmentos. Voltarei a este ponto posteriormente.

(5) Cf. L'Espace Littéraire, folio Essais, editions Gallimard, Paris , 1995, p. 17.

(6) Citado por Silvina, na p.11, in Teoria da Des-possessão.

(7) Cf. O Livro por Vir, trad. portuguesa, Relógio d'água, Lisboa, s/d.,pp. 210, 211.

(8) Na sua entrevista ao jornal Público de 28/01/95, citada por José Augusto Mourão, M.G.L. afirma: "Não sei se é o mesmo livro, direi antes que é o mesmo espaço evoluindo e abrindo-se e fechando-se e abrindo-se e fechando-se porque só isso me parece verdadeiramente real."

(9) Cf. Lisboaleipzig1, o encontro inesperado do Diverso, editora Rolim, Lisboa, 1994, p. 25.

(10) Ibidem, p. 25.

(11) Friso que o conceito não é usado por mim, mas sim por José Augusto Mourão, in Colóquio Letras, 143,144, "Figuras da Metamorfose na Obra de Maria Gabriela Llansol", p. 82.

(12) Ibidem.

(13) Cf. Maria Gabriela Llansol, LisboaLeipzig 2, O Ensaio da Música, editora Rolim, Lisboa, 1994, p. 6.

(14) Cf. Walter Benjamin et Paris, "Langue et Histoire", editions du Cerf, Paris, 1986, p. 796: "La cohesion entre langue et histoire n'est pas totale: elle coincide plutot avec une fracture du plan du langage, c'est à dire avec une chute du mot (Wort )(.)tombe dans la sphere du sens (Bedeutung) (.)la nature se voit trahie par le langage, et cette immense inhibition du sentiment devient tristesse."

(15) Cf. Exercícios de Aproximação, edições Vendaval, Lisboa, 2003, p. 214.

(16) Cf. texto de Rui Magalhães, O Dom do Método (inédito).

 
   
   

 

 

 


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