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LUIZ VAZ DE CAMÕES
Elegia
À morte de D. Miguel de Meneses,
filho de D. Henrique de Meneses,
governador da casa do Cível, que morreu na Índia

 

 

Que novas tristes são, que novo dano,

que mal inopinado incerto dano,

tingindo de temor o vulto humano?

Que vejo as praias húmidas de Goa

ferver de gente atónita e torvada

do rumor que de boca em boca soa.

É morto D. Miguel (ah! crua espada!)

e parte da lustrosa companhia

que se embarcou na alegre e triste armada;

de espingarda ardente e lança fria

passado pelo torpe e inico braço

que nossas altas famas injuria.

Não lhe valeu rodela ou peito de aço,

nem animo de Avós altos herdado,

com que se defendeu tamanho espaço;

não ter-se em derredor todo cercado

de corpos de inimigos, que exalavam

a negra alma do corpo traspassado;

não com palavras fortes, que voavam

a animar os incertos companheiros,

que fortes caem e tímidos viravam.

Mas já postos nos termos derradeiros,

passados por mil partes e cortados

os membros, só do nobre esforço inteiros,

os olhos, de furor acompanhados,

que inda na morte as vidas amedrontam

dos fracos inimigos espantados,

postos no Céu, parece que apresentam

a pura alma à suprema Eternidade,

por quem os Céus e Terra se sustentam.

E, pedindo dos erros que na idade

verde e quase inocente já fazia,

perdão à pia e justa Majestade,

as rosas apartou da nove fria;

e, como flama fraca, a quem falece

seu húmido licor, de que vivia,

nas mãos do Coro Angélico, que dece,

se entrega; e vai gozar da vida eterna

que com tão justa morte se merece.

Vai-te, alma, em paz à glória sempiterna!

Vai, que quem pela Lei santa e divina

morre, a dá a Deus, que os Céus governa.

Quando pela razão devida e dina

do Rei, da Pátria, e honra dos passados

sacrificar a vida nos ensina,

nos assentos de estrelas esmaltados

lhe dá lugar a altíssima Clemência

entre os heróis à glória destinados.

Mas, ah! quem sofrerá perpétua ausência

e tão caro Senhor, tão fido amigo!

Quem porá contra mágoas resistência?

Aquele animo grande, que do antigo

de seus maiores era alto retrato,

desprezador de todo o vil perigo;

misturado com doce e brando trato

cos iguais Juntamente' e cos menores

a todos amoroso, a todos grato;

aquele esprito nobre, onde maiores

esperanças cresciam, se o tão duro

caso, as não cortara em novas flores;

em verde idade, siso já maduro,

alegre riso, ledo e aberto peito, e

m repousado espírito seguro;

não soberbo e por arte contrafeito,

mas todo puro e, enfim, da natureza

mais para o Céu que para a terra feito;

também do corpo a humana gentileza

o bem talhado gesto, que mostrava

forças iguais e manhas com destreza;

a cor, que o fresco rosto matizava,

as rosas, flores novas de alegria,

com que o Verão as faces adornava;

tudo os fios da Morte, que desvia

dos propósitos nossos e salteia,

cortaram cruamente, quando abria.

Deixa pois tu, fermosa Citereia,

do gentil filho e neto de Ciniras

o pranto pela morte horrenda e feia.

E tu, dourado Apolo, que suspiras

pelo crespo Hiacinto, moço caro,

por quem a clara luz ao mundo tiras;

vinde e chorai um moço ao mundo raro,

não de ferino dente vulnerado,

nem de animal algum que haja reparo,

mas só do fero imigo traspassado;

que, sem dúvida incerta ou pio medo,

a vida pôs nas mãos de Marte irado.

Está tu também, moço Idálio, quedo,

deixa de dar o venenoso mel a beber

pelos olhos triste e ledo,

que já os fermosos olhos de Miguel

cobertos são do negro e escuro manto

da lei geral, a todos mais cruel.

E vós, filhas de Téspis, que do canto

podeis bem mitigar a lei imensa

dos irmãos generosos e alto pranto,

não consintais que façam larga ofensa

à grande integridade, que, se devem,

não são águas do dano recompensa.

Que já, diante, os olhos me descrevem,

quando as bocas da fama voadora

ao pátrio e claro Tejo as novas levem,

a profunda tristeza, que em üa hora

tal posse tomará dos altos peitos,

que a razão quase quase deite fora.

Ali, de dor, os corações sujeitos

pesadas lhe serão consolações

e pesados exemplos e respeitos.

Pequena é certo a dor, que com razões

se pôde refrear, nem com memória

de outros antigos e integros varões.

Mas porém se igualais a vida à glória,

meu grande Dom Filipe, e pretendeis d

eixar de vossas obras larga história,

eu não vos admoesto, que estreiteis

o coração na estóica disciplina,

onde livre de efeitos vos mostreis,

que mal natura nossa determina

medo, esperanças, dores e alegria,

como o Cínico velho nos ensina.

lmanidade estúpida (diria

o sulmonense canto) e vil rudeza

é não sentir afeitos, que a alma cria.

Porém, se não sentir nada é bruteza,

e se paixão de vida se consente,

também o sentir muito é já fraqueza.

Se dói a opinião do mal presente,

e medo e opinião do mal futuro,

são, enfim, tudo opiniões da gente.

O verdadeiro sábio está seguro

de leves alegrias e de espanto de dor,

que turba da alma o licor puro.

Inda antes que aconteça o riso e o pranto

os tem já no sentido meditados,

livre está de alvoroço e de quebranto.

E como de alta torre vê cuidados

humanos vãos, e aquela indiferença

de ambições e cobiças e Recados;

todo caso acha nele só presença,

que, como as febres são da carne humana,

assi os afeitos d'alma são doença.

Se esta doutrina credes, que é profana,

ponde os olhos na nossa, que é divina,

e sobre todas santa e soberana.

Vereis Arão, que não se contamina

sobre os montes seus, que defendida

a dor lhe foi da santa disciplina.

Não chega a ver parentes, que da vida

partidos são, que n'alma a Deus agrada

que nenhüa aflição do mundo impida.

Nós somos geração a Deus dicada

sacerdotal, que em tempo nenhum deve

do gentílico culto ser tocada.

Se dos antigos Padres já se escreve,

que, chorando, aos mortos enterraram

com dor e pranto público, e não leve,

era porque ainda as portas não quebraram

do Céu sereno aquelas mãos cravadas

que os antigos contágios alimparam.

E também por ornar as sempre usadas

pompas do funeral enterramento

com públicas exéquias costumadas.

Esta alta fortaleza e sofrimento

como a forte Varão vos é devido,

e como lei do santo documento.

Bem conheço que o corpo assi perdido,

que do sepulcro nobre aqui carece

será de aves ou feras consumido.

Mortos os Espartanos valerosos,

da fera multidão fazendo estremos

tais epitáfios tinham gloriosos:

Dirás, hóspede, tu, que aqui jazemos

passado do inimigo fero, enqnanto

às santas leis da Pátria obedecemos.

Fugindo os Persas vão com frio espanto,

mas acham as mulheres no caminho

amostrando-lhe o ventre sem ter manto:

—Pois fugis do perigo, que é vizinho,

fracos! vinde esconder-vos (lhe diziam)

outra vez no materno, escuro ninho.

Vedes quais com mais glória ficariam

se aqueles que enfim morreram pelo Estado,

se os outros, que as mulheres injuriam.

Mas tu, claro Miguel! que já acordado

deste sonho tão breve, estás naquela

torre do Céu, seguro e repousado,

onde, com Deus unida a forte e bela

alma, com teus maiores reluzindo,

por cada chaga tens üa clara estrela;

os pés o cristalino Céu medindo,

pisando essas lucíferas Esferas,

já da terrena os olhos encobrindo;

agora um curso e outro consideras,

agora a vaidade dos mortais,

que tu tam bem passaras, se viveras.

Mais a pena cantara, a poder mais.
 
 
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>LUIZ VAZ DE CAMÕES