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ANTÓNIO CARDOSO PINTO
Diário de Natal

Estes dias encontraram-me disponível para as coisas da alma.

Quis isso, a que chamamos 'acaso', que passassem por mim, breves poemas de Fernando Guimarães, o livro da catalã (que já nos disse adeus) Monserrat Roig - com o belo título: "A Voz Melodiosa", o filme de Peter Weir: "O Clube dos Poetas Mortos" e a primeira das grandes obras de Hermann Hesse: "Demian" - História da Juventude de Emil Sinclair.

Entre as mãos repousa, meio lido, "A Balada do Café Triste", da escritora Carson McCullers, nascida num 19 de Fevereiro, (morreu aos 50), e que Graham Greene preferiu, pela sua sensibilidade poética e clareza de escrita, a Faulkner e a D.H. Lawrence, e a quem o nosso José Rodrigues Miguéis considerou o caso mais espantoso da ficção norte-americana.
 
Coisas importantes estas que o 'acaso' do Natal juntou assim, de repente, numa só mão para mim estendida e bem aberta...
 
E foi lindo ver desenhar-se a árvore e as raízes do poema livre do Fernando Guimarães, ouvindo o mar em adagio reflectido numa lua de metro e meio, que agitou paisagens interiores. Como foi uma experiência inesquecível subir, com Alpargata, a colina, para iniciar a aventura do poço. Ouvi-lo dizer que "um amor absoluto é sempre equivocado", ou pensar que "um homem não pode viver sem irmãos" ou, ainda, murmurar que "pelas palavras podemos enternecer as estrelas".
 

Alguma vez na vida e, no momento oportuno, é necessário acreditar no impossível.

Tenho pena que nenhum professor de português me tenha mandado arrancar páginas dum manual, em nome da liberdade de imaginação - desse poema que é árvore e tem raízes, mas é livre. Oh! Captain, my Captain! eis que subo agora, para cima da mesa, para ver o mundo de outra maneira. É preciso romper, rasgar, furar todos os esquemas que impedem o voo, o sorriso, a alegria... "O Clube dos Poetas Mortos" revive-se com um brilhozinho nos olhos e o coração à beira-boca. "Carpe Diem!", em nome da Vida.

Em nome da vida, fala-nos Hermann Hesse. É ele que atravessa a história do jovem Emil Sinclair que, um dia, escutou uma melodia antiquíssima e magnífica de Buxtehude, interpretada pelo enigmático Pistorius, breve guia espiritual, antes do encontro total com Max Demian, alma-gémea, companheiro, destino, oração, marcado como ele, com um sinal na testa.
 
'Nascer', é sofrer um impulso... é uma partitura à espera de ser tocada para se manifestar... um som ao qual encosto a minha voz, para ficar entre gente que sabe escutar.
 
carpe diem!
 
António Cardoso Pinto
 
   
   

 

 

 


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