ANTÓNIO CARDOSO PINTO
O "Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor" é comemorado, desde 1996, por decisão da UNESCO,
a 23 de Abril - dia de São Jorge.

"DIA MUNDIAL DO LIVRO"

No princípio, Deus criou o homem.

E o homem abriu os caminhos...

Juntou o norte e o sul, o leste e o oeste.

Com dúvidas, receios e medos, o homem atravessou paixões e ambições, poderes e glórias, amores e ódios, delírios e intrigas, prazeres e dores, leis, razões, conceitos e lógicas.

No jogo do Tempo, o homem alimentou os seus sonhos e ergueu o seu Canto. Escreveu a sua História. Publicou o seu Livro.

... Podemos, assim, hoje, andar à solta pelo tempo e pelo mundo. O livro acompanha-nos, conduzindo os nossos passos à vertigem.

... seduzem-me os livros abertos

e os olhos ardendo de palavras e sinais ...

Por eles, livros, vemos e aprendemos o mundo.

O mundo da sabedoria do mundo.

Nas suas linhas abre-se a vida e, quantas vezes, nas entrelinhas o coração, as lágrimas ou o sorriso.

Companheiro do lazer e, também, da solidão.

Saímos de casa juntos, dedos e páginas entrelaçados, atravessando ruas, calcorreando passeios até ao banco do jardim ou à mesa do café. E, ali, ficamos: acariciando, sublinhando, anotando, virando páginas e páginas de sentidos sentires. Outros olhares, outras filosofias, outros cantos e paisagens. Outros caminhos deste mundo tão repleto de emoções que, muitas vezes, em nós, permanecem na releitura do nosso olhar interior, agitando águas, em nós, paradas.

Basta, tão só um pensamento, um simples pensamento reflectido numa frase ou, num poema. Bastam, por vezes, meia dúzia de linhas apenas, entre vírgulas, pontos, interrogações ou exclamações, para tocarem a nossa alma. E há livros que afectuosamente nos tocam, para sempre!


... Que farei com este livro?

Na estante, bem perto, repousará entre os melhores.

Entre aqueles que apelidei de "bíblias da minha vida".

É lá que mora, também, o grande poeta chileno Pablo Neruda que, um dia, escreveu duas magníficas 'Odes ao Livro'...

Livro
belo,
livro,
mínimo bosque,
folha
sobre folha
cheira
o teu papel
a elemento,
és
matutino e nocturno
cereal,
oceânico...

(...)

Nós
os poetas caminheiros
explorámos o mundo,
a cada porta
recebeu-nos a vida,
participámos
na luta terrestre.

A nossa vitória qual foi?
Um livro,
um livro cheio
de contactos humanos,
de camisas,
um livro
sem solidão, com homens
e ferramentas,
um livro
é a vitória.

Vive e cai
como todos os frutos,
não só tem luz,
não só tem sombra,
apaga-se,
desfolha-se,
perde-se de rua em rua,
despenha-se na terra.

Livro de versos
de amanhã,
volta
outra vez
a ter neve ou musgo
nas tuas páginas
para que os pés
ou os olhos
vão gravando sinais:

descreve-nos
de novo o mundo,
as fontes
entre a espessura,
os altos arvoredos,
os planetas polares,
e o homem
nos caminhos,
nos novos caminhos,
avançando
na selva, na água, no céu,
na mais nua solidão marinha,

o homem
descobrindo os últimos segredos,
o homem
regressando com um livro,
o caçador
tornando a casa com um livro,
o camponês
lavrando com um livro.

Como me disse, um dia, um grande amigo dos livros, o editor Manuel Hermínio Monteiro, que 'subiu para o céu', depois de publicar esse monumental livro: "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro":

"Pela leitura apaixonada, libertamos a alma dos livros e nada há de mais sublime do que constatar como pequenos desenhos repetidos, impressos numa forma que rapidamente se esquece ao ler, seguram as pontas ínfimas da alma. É a partir dessas letras que a alma do livro se ergue, se organiza discreta e subtilmente para depois se altear mais e mais, chegando a estabelecer uma espécie de cúpula ou de telhado. Sob esse tecto levantado pela leitura, conduz-se cada um à sua maneira.

As indicações são as palavras escritas que rapidamente se tornam invisíveis e mesmo imperceptíveis, levando-nos às formas, aos cheiros, a compartimentos e gavetas, deixando-nos a sós com as personagens, até que... como cegos, tacteamos já o seu rosto, percorremos as suas feições, mexemos a cor do seu cabelo, alma contra alma, respiramos finalmente o mesmo ar de uma realidade inventada."

As palavras dos livros podem ser tão escuras como a noite. Mas acendem o mundo na direcção do nosso olhar. Por isso, escrevi:

... seduzem-me os livros abertos
e os olhos ardendo de palavras e sinais ...

porque:

Um dia
incendiaram a biblioteca de Alexandria
e o mundo ficou mais pobre.

Um dia
alguém gritou: "morra a inteligência!"
Unamuno e a Espanha sofreram por isso.

Um dia
mandaram matar o escritor e queimar o seu livro
o mundo leu o livro e protegeu o escritor.

Todos os dias há livros
à distância dum gesto.

Felizmente!

António Cardoso Pinto