ANTÓNIO CARDOSO PINTO
adeus,  ano velho
adeus,  ano velho
adeus, 'cais das colunas'...
 
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Velho homem, beirão, antigo professor que Lisboa marcou com rugas e brancas. Conheci-o há um par de anos, na última noite do ano. Mergulhava ele o olhar nas águas do Tejo, sentado, em silêncio, num dos degraus do Cais das Colunas. Faltava meia hora para o ano mudar e passavam carros 'lá por cima', buzinando, a caminho das grandes pândegas. Aproximei-me dele, olhei também o Tejo e sentei-me ao seu lado.  De repente, fiquei tocado por aquele ambiente.  Fui atraído, pela solidão do velho, pela sua figura mística, pela quietude do lugar mansamente embalado pelo marulhar das águas, enquanto lá em cima a cidade ardia em luz e som - o maior ruído possível para celebrar a chegada de um novo ano.  "Um bom ano para si, companheiro" - disse-me o velho, de repente, em voz pausada, quente, olhos claros que reflectiam o brilho das águas e do fogo de artifício que já ardia nos céus da outra margem. Falámos pouco. O suficiente para não quebrar a magia do local e do momento.
 
Disse-me que era só, havia muito. Que todos os anos era este o seu 'reveillon', sorriu. Ao princípio, ainda trazia um banco debaixo do braço, uns mimos cristalizados e uma garrafa de vinho da terra.  Agora chegava-lhe a almofada e a garrafa.
 
Estendeu-me o vinho, falou-me das gentes e da sua incompreensão, do seu espalhafato de ocasião, do dia-a-dia e, subitamente, calou-se. Reflecti uns instantes, levantei-me, despedi-me do homem e entrei no bulício da cidade.
 
No ano seguinte, voltei lá. Ali estava ele, saudando mais um ano. Pouco falámos. Limitámo-nos a estar. A olhar o Tejo correr... estas águas são o tempo e somos nós...
 
Hoje, sem o Cais das Colunas, onde estará ele ?  Já na outra margem, talvez ...
 
Bom Ano para si, companheiro ! 
 
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António
 
   
   

 

 

 


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