António
CÂNDIDO FRANCO
POÉTICA

Chamo poesia à imaginação; fora da imaginação não sei o que seja poesia. A imaginação é tanto mais forte quanto se aproxima do inimaginável. Só essa aproximação, assim impossível, traz consigo a percepção de um outro mundo, virgem, original, desconhecido.

Os momentos poéticos significativos de uma língua aparecem em torno da construção verbal desta percepção do invisível. O poeta é um viajante, que está sempre de partida. Alguém lhe pergunta: partir sim, mas para onde? Ao que ele, como Baudelaire, responde: Anywhere out of the world. Quer dizer, não importa para onde, contanto que seja para fora deste mundo. O outro mundo não existe? Então é necessário criá-Io. Nas descidas aos Infernos dos poetas gregos arcaicos, nas descrições da Ilha do Amor em Camões, nas experiências de montanhas em Pascoaes, temos alguns dos momentos superiores dessa criação viagem. A descrição do Hades em Homero, a geografia e o povoamento da Ilha em Camões, o Marão em Pascoaes, participam plenamente da construção de uma realidade viva e alterada, que pode ser percebida pelos sentidos.

A Ilha do Amor em Camões pode ser cheirada, como o Inferno em Dante, nos seus gemidos, pode ser ouvido, e ouvido até ao terror do tormento. Por sua vez, o Marão em Pascoaes pode ser escalado. O outro mundo que os poetas criam tem, como visão, consistência verbal, mas não solidez material. Esse outro mundo é verdadeiro, apesar da inverosimilhança física com que aparece feito. Chamo, na linha de Henry Corbin, à presença desse imaterial, realidade viva mas incorpórea, mundo imaginal.

A procura poética da surrealidade veio lembrar, dentro da anestesia do moderno, o alcance iniciático da tradição órfica, em que o canto, de pureza e depuração clássicas, é inspirado pela visão do além morte ou pela demanda argonáutica de mais luz. A visão garante, através da permanência e da similitude das imagens, a participação do ser na experiência. Este processo é o da criação poética; o poeta, como vidente, torna-se responsável pela criação de um outro mundo, inimaginável até então.

A razão da poesia é a imaginação. Fala-se de imaginação, falando-se de outro mundo. É esta a minha arte poética. É com ela que crio os versos que escrevo, que não são um produto cultural, mas exercícios pessoais em que apuro a imaginação, procurando, no que me rodeia, portas de passagem para um outro mundo, que, em última visão, é um mundo suspenso e intermédio de palavras.

As palavras são a matéria da imaginação. Elas tornam presente o mundo, mas não existem, senão como frágeis sons ou despercebidos traços de tinta, quer dizer, matéria quase imaginária. As palavras servem, assim, para ver o que não existe e para recordar o que se perdeu. Deste modo, a Ilha do Amor em Camões são oitavas, o Marão em Teixeira de Pascoaes versos brancos e as sombras em Homero hexâmetros. A palavra é a garantia da permanência do invisível.

[Verão de 2001]






António Cândido Franco
Estâncias Reunidas
1977-2002
Edições Quasi
2002, Lisboa

 

 




 



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