António
CÂNDIDO FRANCO
XXVIII - A luz e o sangue

A luz e o sangue.
A luz que é o céu do meu corpo
e o sangue
as manhãs em carne violenta
que são a terra do meu céu.
Boca de mitos.
O céu e a terra.
O céu que é a alma da terra
ou a matéria eterna
e a terra
estrelas de sangue
que são o corpo do céu
ou o espírito efémero.
O corpo e a alma.
O corpo que é a terra da alma.
A alma
a carne azul e imortal
que é o céu do corpo.
Eu e ela.
Eu que sou o mundo
a substância transitória
e ela que é a forma eterna.
Luz e sangue.
Céu e terra.
Corpo e alma.
Eu e ela.
Eu sou o corpo de terra do céu
a sombra de carne
da Via-Láctea.
Sou feito de estrelas vivas de sangue.
Sou o amanhecer do universo
a transparência do céu
a palavra
a fazer-se pasta seca de lama.
E ela
luz ausente
jóia de estrela
é a alma de luz da terra.
Céu e terra.
Terra que é sangue e corpo
mas corpo que encontro ao céu
e céu que é luz e alma
mas alma que encontro à terra.
Eu e ela.
Eu que sou já o céu
mas o céu verde e denso
e ela que é a terra
mas a terra azul e eterna
com flores de estrelas.
Há partes de mim que são dela
e há partes dela que são minhas.
A minha alma não é minha.
É dela.
O seu corpo não é dela.
É meu.
Eu sou o seu desejo
e ela é a minha saudade.
Ela é a noite original
a luz da treva
mas antes dela
existiu o meu sol
que anoiteceu saudoso da sua escuridão.
Ela é o canto inicial
mas antes dela
existiu a minha solidão
que chorou de saudades suas.
Dissolvido em trevas
eu amanheci com o seu desejo
arrefecendo em sangue e canto
a sua noite e o seu silêncio.

 

 






António Cândido Franco
Estâncias Reunidas
1977-2002
Edições Quasi
2002, Lisboa

 

 




 



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