António
CÂNDIDO FRANCO

Arpejos de uma Viandante/Arpèges
Lisboa, 2003
- Poesia -

Arpejos de uma Viandante/Arpèges de Helena Langrouva é um livro difícil que abarca um conjunto de três livros. É um livro bilingue segundo uma correspondência alargada, não uma correspondência literal. Há uma versão portuguesa e uma versão francesa.

No primeiro pequeno livro- Limiar Breve – aparece um título “In memoriam de Safo” e não há mais títulos. Na versão francesa, aparecem os títulos “In memoriam de Sapho, poétesse grecque”, “Arpèges”, “Bretagne I”, “Méditerranée I”, “A George Brassens”, “A Li-Tai-Po, poète chinois”, “Fidelité”, “Musique”. É provável que tenha sido o mesmo impulso que levou a autora a escrever em francês e em português, com liberdade autónoma, uma escrita autónoma independente, em língua portuguesa e francesa.

No que respeita ao título, falta a referência à viagem no título francês- Arpèges -. No título português Arpejos de uma viandante fica explícita a viagem.

Arpejo está ligado ao nome da harpa, à acção de tocar harpa. A palavra aparece como som tocado no instrumento da vida – “da passagem da caducidade para a eternidade”. Neste sentido, a poesia de Helena Langrouva é arpejo, palavra que soa e que resulta da acção de tocar no instrumento da vida,. É a própria música, poesia como som tocado no instrumento da vida.

Aparecem ao longo do livro alusões a instrumentos musicais: a lira, a harpa, a guitarra, o charango, o rodandor, a flauta, a harmónica bocal; alusão à Flauta Mágica de Mozart, ao “canto gregoriano”, à “música tradicional”, “música clássica”, “dança étnica e celeste” – instrumentos e artes em torno da música, do mundo semântico e imaginário que se liga à música, às artes, à obra do canto.

Perpassa nesta poesia o cuidado em retomar a relação da poesia com a música, numa expressão mais sólida: para além de peça do discurso lógico, a palavra é som. Neste sentido a arte poética de Helena Langrouva poderá situar-se no rastro de Camilo Pessanha, de Verlaine e da sua estética condensada na expressão “de la musique avant toute chose”. A arte poética de Helena Langrouva secundariza o conceito vinculado pela linguagem, a procura de um sistema de ideias, para dar primazia à sonoridade. Na página 21 aparecem dois poemas cuja única preocupação é o ritmo.

Esta poesia radica-se na tradição mais pura, não é narrativa nem dramática, não é expressão de sentimentalidade do sujeito nem do pensamento de alguém, mas elege a poesia lírica, a poesia que se cantava quando se escrevia, radica-se na própria origem da poesia , como na lírica da Grécia antiga. A poesia ligada ao canto e radicada nesta tradição de origem é raro encontrar-se com esta expressão de lirismo quase absoluto e recuperando tal tradição. Não é por acaso que aparecem dois poemas, uma versão portuguesa e outra em versão francesa, em memória da poetisa Safo que, com Alceu, marcou as origens da poesia lírica monódica grega, no século VII A.C.

O canto de exílio como glosa do salmo 136 do Antigo Testamento, veiculado pelas redondilhas “Babel e Sião” de Camões é assumido em poemas da página 16 – “flauta minha/ que cansaste de tanger/ o passado de Sião”- e na página 33 – “A flauta não repousa nos salgueiros”. De permeio, alusões a Herberto Helder, a Sophia, alusões poéticas do género lírico.

Uma das tradições mais fecundas e enigmáticas que impregnam a arte poética de Helena Langrouva, neste livro, será a tradição do canto de Orfeu:

A lira flui na cascata

Divina aura de Orfeu

Cabeça flutua exacta

Música maga de ser

Eco do rio

Oceano esperado

Mito mistério

Concerto esperado

p.20

Cascatas de Orfeu na serra

Ecoam arpejo da voz

Vibração de espaços celestes

Florestas de imagens e enigmas

p. 35

O mistério de Orfeu, criador do canto, da poesia e da música que faz render os animais ferozes, os monstros e deuses infernais, ao som da lira. Sabemos muito pouco sobre Orfeu. No centro do seu mito está o canto e a descida de Orfeu aos Infernos, movido pela saudade da sua esposa Eurídice. Sem a lira, só com o canto, pode regressar dos Infernos. Neste sentido, a poesia de Helena Langrouva regista a sobrevivência da origem no tempo presente, a sobrevivência de mitos antigos, a memória arcaica de outros tempos não vividos da mesma forma.

Arpejos de uma viandante/Arpèges é um livro muito sério. Como no mito de Orfeu, é possível ligar o céu ao inferno pelo amor. Como no mito de Orfeu, perpassa a tradição de iniciação através do canto, da poesia ao mistério do conhecimento e do amor. Arpejos de uma viandante/Arpèges de Helena Langrouva reporta-se à memória imemorial, ao mistério de Orfeu, recorda outras obras poéticas de que estamos esquecidos e que valorizam o canto e a lira.

Contacto de Helena Langrouva: musas@netcabo.pt
 

 




 



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