AMOSSE MUCAVELE .....

Amosse Mucavele nasceu em Maputo, onde vive, no ano de 1987, sonha em ser poeta, ensaísta e é director da Revista Literatas - Revista de literatura moçambicana e lusófona.

Carta ao poeta Celles Leta

Em primeiro lugar, quero aduzir as minhas sinceras desculpas a si meu caro Poeta, pelo facto de, sem que eu pudesse controlá-lo e sem permissão prévia, eu ter sido assaltado pelo descomedido arrojo de publicar alguns textos seus (inéditos), da vasta e invejável prateleira de projectos-livros, com os quais, a título de “anónimo/solitário escritor de gaveta”, já contas. Em segundo lugar dizer: que me valha o que tiver que valer este arrojo, mas verdade é que o anonimato é um bilhete de identidade ou, por outra, alma sem entidade para pessoas que tenham algo a dizer, movidos pelos diferentes estímulos que o mundo que os rodeia acciona. Aliás tem sido suas palavras, quando perguntado “Por que escrever?”: “Escrevo porque estou vivo. E estar vivo é fazer leituras. Não só leituras que envolvam, de um lado, uma escrita, e do outro, um par de olhos, como muitos escritores já conceituados o dizem, mas leituras que podemos fazê-las com os nossos sentidos todos, leitura que se faça na mesma condição da força de uma mão quando todos os dedos participam numa empreitada transversal a literatura, a folha que chora ao vento porque foi obrigada a se soltar da mãe-árvore, o mar que nos conta segredos que os homens não nos contam, a pedra que nos ensina que o que se ganha pelo silêncio onde pode se falar e a permanência na inércia do pensamento, no mínimo, é ser pisado pelos pés que pisaram sei lá o quê. Se possível for, chamaria até estas linhas um sexto sentido: as outras leituras que estão acima do nosso entendimento enquanto seres ‘vivants’.” Seria totalmente de uma insensibilidade inefável da minha parte, se, depois de ter lido algumas obras suas, obras que retratam o Moçambique que vivemos, ou, mais exactamente, o Moçambique que somos, eu não intercedesse a favor daqueles leitores que, com a ajuda de um grande escritor, como eu e os que o conhecem somos da opinião que você o é, queiram talvez fazer boas leituras do mundo que os rodeia. A tua poesia tem “Muitas Vozes”, tal como pediu F.Gullar, outras solitárias, outras renovadoras, e outras menos vibrantes na música do silêncio, as mesmas bailam na dimensão corporal do tempo e gaguejam na linguagem poética em permanente vibração nos tímpanos do espaço rítmico da procura nas fronteiras do devir.   

O dia 29 de Março de 2014, a semelhança do dia 19 de Outubro de 1986, data na qual perdemos, num acidente de aviação, ocorrido na vizinha África do Sul, o primeiro presidente desta “Pérola do Índico, é uma data que ficará indelevelmente gravada na consciência colectiva dos moçambicanos: numa réplica numérica de mortos em Mbuzini, 33 almas pereceram na queda do Voo MT 470, das Linhas Aérea de Moçambique. Sensível aos estímulos do mundo que nos rodeia, mais uma vez, aos moldes que já nos habituou, essa espontaneidade poética de criar imagens do mundo que percebe através dos sentidos, com o projecto-livro intitulado “33 + 33 = 66 POEMAS MORTOS NO VOO QUE A DOR ATERROU”, juntou-se a lágrima colectiva que, mais do que uma família, uma nação deixa serpentear no rosto da esperança que perto esteve de ser a primeira a morrer. Li alguns poemas deste projecto, com lágrimas nos olhos e na alma que escrevem tristezas e alegrias ao lê-lo, meu caro Leta:

 

VOO TM-470

(Em memória de Carlinhos,

Yumala, Laisa e Jeinia Sambo)

 

O pedaço de papel

foi amassado na coberta do punho serrado.

Nada se sabe das palavras ali escritas:

vida, feridos, ou morte encontrada;

prosa, poesia, ou um papel em branco.

Nada! Nada de nada! Nada!

 

A DOR DOS REIS

(à lágrima colectiva que somos

chorando através dos olhos

de Carlos Reis)

 

Que conforto

para essa alma de esposo e pai

que caminha no escuro

da fatalidade?

Que sonhos por sonhar?

Que voo por voar?

 

Teve a sorte ou azar

de não embarcar?

 

COMUNICADO A BORDO

“Caros passageiros,

pedimos as nossas sinceras desculpas

pelos embaraços que possamos causar,

pelo sucedido,

mas temos a informar que o voo MT470

terá de efectuar três aterragens

de emergência:

  • 1º Parque Nacional Bawbwata;
  • 2º Cemitério de lhanguene;
  • 3º Cemitério de Michafutene.”

 

ÂNCORA NA ONDA DO AMOR

O seu “eu” poético mostrou igualmente ser um homem que não tem medo de deixar a sua alma insuflar-se do mais nobre dos sentimentos que um coração já deixou ser habitado, o amor, ao escrever uma obra intitulada “ABC DA ANGÚSTIA OU POEMAS DE “A” A “Z” NO ABECEDÁRIO DE QUEM SOFRE”, obra esta que dedica a T., “ seu abecedário de felicidade”, advertindo a todos os que amam que “conheceu o amor aquele que por alguém sofreu de “A” a “Z””

 

Perante o espectro de guerra que de um tempo para esta parte vivíamos e na árdua tarefa de manter a paz do corpo e da mente dos cerca de 23 milhões de moçambicanos, na busca pelo não revisitar esta gigantesca lágrima chamada guerra, na alma de poeta sempre resvalado na sina de olheiros deste “mundo por melhor”, brindou-nos ou, por outra, demonstrou a sua causa enquanto poeta criador, através do projecto-livro “SANTOS GIRAM E OUTRAS POENTURAS EM QUATRO EXPOSIÇÕES”, uma nova forma de estar na poesia, a “Poentura”, que é, segundo as suas palavras, “ (…) uma escola literária que resulta do casamento entre a poesia e a pintura, onde a tela cede lugar ao papel em branco, a tinta cede lugar às palavras e o pincel cede lugar a esferográfica. Portanto estamos diante de palavras que pintam folhas em branco, confundindo-se, em algum momento, com a poesia “Neoconcreta” apresentada por Ferreira Gullar, Reynaldo Jardim, Theon Spanudis, Amilcar de Castro, Franz Weissman, Lygia Cark e Lygia Pape, conforme o manifesto publicado em 1959, no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, no entanto, sem nunca chegar a sê-la, na medida em que o “Neoconcretismo” é o casamento da pintura, escultura, gravura e poesia, a “Poentura” manifesta-se no himeneu entre a poesia e a pintura.”

“OS MEUS PAIS SABEM QUE NÃO IRÃO VIVER PARA SEMPRE” é um projecto-livro seu que representa mais um oásis no deserto da literatura infanto-juvenil moçambicana na qual o autor manifesta a aversão que tem da maneira insustentável com a qual tratamos o “verde do mundo”, levando-nos a pensar o mundo que queremos deixar aos nossos filhos.

 

A TRISTE HISTÓRIA DA FAMÍLIA PEIXE

O Peixe-filho

Das águas cristalinas

Do “Wimbe” dos meus sonhos,

No mar que o viu nascer,

Triste, se afogou;

Desaprendeu o nado

Quando teve que dar

As barbatanas e o peito

À contramaré da poluição.

 

A Peixe-mãe

Nem tempo teve para nadar o seu luto;

Os olhos que a deveria admirar

São os mesmo que a assistiram

A agonizar presa a uma rede.

 

O Peixe-pai,

Esse nem foi enterrado

No estômago nacional.

 

Lá se foi uma família! 

Eis aqui a reposta para aquelas (in)sensibilidade que apregoam aos quatro ventos que a instituição literária moçambicana foi assaltada pela falta de “continuadores”: poetas como Celles Leta, ainda que desconhecidos e sem obra publicada, têm sempre lugar disponível para si na prateleira da literatura moçambicana. Celles Leta a par de poetas como Mbate Pedro, Sangare Okapi, Nelson Lineu, Léo Cote, Álvaro Taruma e outros que fazem parte da “minha” Selecção Nacional surgem sob o signo de qualidade.

 
 

 




 



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