Paulo Brito e Abreu

FILOLOGIA, MAGIA OU METACIÊNCIA:
AS IMAGENS, OS MITOS, AS METÁFORAS

 aos Mestres de Shambhala e aos Irmãos de Heliópolis
ao Éter e Outro como quinto elemento, uma Asa imortal do meu coração .

«Em verdade, em verdade, vos digo, que se o grão de trigo, que cai na terra, não morrer, fica infecundo; mas, se morrer, produz muito fruto.»
S. João, 12- 24, 25

As palavras são os lemes, e, como aduziremos, são Numes, também, os sápidos números. Se a batalha é o batel, muito havemos nós escrutado, e portanto esquadrinhado: e são as vozes recônditas que vêm do Ser… Do que vimos e ouvimos, assertava, nas artes, o bispo anglicano: ser é ser percebido, e o mundo, para Schopenhauer, é a minha representação. Depois de lutas e labutas na plaga intelectual, trazemos, agora, à colação e prelecção: a mente é a medida com que o mundo mensuramos, e o conhecimento depende mais do sujeito cognoscente que do objecto conhecido. Por vocábulos outros, e outras dilecções, a mente são os óculos ou espelhos com que assistes e aferes o espectáculo da vida: com as lentes azulinas, te alevantas ao celeste, mas, se as lentes forem negras, tudo vês tu cor da morte. Já escrevi certa vez que, para um esperto e experto nas artes do Yoga, o pôr do Sol visto através ou atrás das grades da prisão é de alvorada e é de alor; ele é mais belo do que uma aurora e as horas de insónia, figuradas e tidas no luxo e no lixo dum fausto apartamento: por isso mesmo, a mente é pois o «Manas», ela é «man» e é Minerva – e Minerva nasceu da cabeça de Júpiter.

Mas rezingas na freima, amigo leitor? Alicerçado e baseado no poético pensar, este excurso é qual apelo à sã Sabedoria, este ensaio é qual vergôntea do livre pensamento. E aquilatemos na escala, ou citemos os corolários da estética escola. Em primeiro, certeiro, ou primo lugar, o próprio do livro é ser o liberto, sem livor eu apelo ao «topos» libertário. Ninguém me diga, portanto, as palavras que eu hei-de dizer ou como, nas Almas, eu hei-de pensar. Muito longe vão os tempos dessa autoridade, da directiva, ou director de consciência; agora fulgem as horas da Aurora ou Nova Era. Se a lei moral não é autónoma, aduzo eu, ela é medo apremido do patrão ou da Polícia – e com tais mandos e comandos não se funda a Liberdade. Quiseram, em séculos avitos, fazer de Cristo ou do cristismo religião policial. Mas leiamos, aplicados, a Boa Nova joanina; pondo Cristo a anunciar, bem escreve e já releva o emissário dilecto: «Se vós permanecerdes na minha Palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará»; e depois da regra de ouro «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei», professa ou confessa o Messias preclaro: «Não mais vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai». O grande Mestre, desse jeito, tem a lisura das pombas, lava os pés aos alunos e amima o juvenil… Se é preciso ser criança para entrar, recto e recta, no Reino dos Céus, ser adulto, para a Metaciência, é falhar e faltar às núpcias do Anho, é perpetrar ou comprar o alvar, o livor, o malfeito e falaz adultério: aprestem-se, portanto, para a purificação, sede pois vós presentes às químicas bodas. Se assola o caduceu caducidade e letal, se apela o caduceu à cadeia magnética, sede cedo vós cientes, e conscientes desse modo: se catártico é o poema, «catarse» é uma palavra adveniente ou advinda de mistérios de início, ou digamos, iniciáticos… Para a Metaciência ou metáfora de que vamos tratar, uma obra de Arte é um pôr-se em obra do tecnismo e da Verdade; se é desvelamento da Verdade do Ser, ela é, outrossim, revelação do abscôndito e do esconso no visível ou sensível: por isso o místico é o mista e o mista, misterioso; cerimónia de Elêusis, ao ser mítica, é prelúdio e libar, é teatro ou é «mimesis». No poético pensar, havemos visto, as palavras são pesadas, o pensar é pôr o penso na ferida narcísica; por isso fica, em psicodrama, compensado o pensador: se o saber é o sabor, à escuta da Palavra se acresce e acrescenta o cenáculo do Pão…

Mas os lemes, assertámos, são os lumes; não se desmande o ouvinte, não deblatere o ledor. «Escola», em Grego, significa o ócio, recreio ou tempo livre, quer dizer: em contraste com o labrosta, ou labrego da lavoura, às artes liberais bem se aplicam, ou dedicam, os livres ou libertos de ocupações utilitárias; por isso é própria, do teólogo, a vida contemplativa, por isso o ócio, para Aristóteles, apela, de algum modo, ao sobre-humano e ao divino: é que o divino é emblema do dia, e a luz do Sol derrama, sobre a terra, o genésico ou genético esplendor da Verdade. Aduziremos, agora, o comentário luzido: urge que a Eucaristia seja vista, ou vivida, como festa ou como jogo oposto ao trabalho – e não se lavra, dessarte, em domingal ou em domingo…

Ora o próprio do jogo é ser o jocoso, e apanágio do jogo é ser o jogral – e jogral ou o mágico é o arcano primeiro do Tarot de Marselha. Essa lâmina prima aduna e aduz: a magistral e a meiga, a magnífica ciência reata relações, ou tenções, com o poético pensar; implica a Poesia, ou fica a profecia, no dogma e ritual da Alta Magia… De acordo com Blake e Eliphas Levi, nós proporemos e propomos fanal proposição: é o génio poético, e só ele, que é promotor e motor das religiões, dos cultos, e das Teologias… A esse mágico ou ático génio poético, signamos nós, ou consignamos, como a Metaciência: não sentes tu a signa, amigo leitor? Desde a Bíblia até aos Vedas, passando por Alcorão, os livros que instauram religações, ou religiões, são epopeias, são dramas, ou livros de poemas: em todos os povos, ou populações, tanto a Magia, como a Poesia, são qual arcaica e arcana forma de ciência; os Poetas, em todos os povos, são pois primeiros e certeiros pedagogos: o educar é sua função; pronunciar, comunicar, a sua comunhão. Que o mesmo é dizer: postado à porta, ou na casa do Ser, função do Vate, ou Vaticano, é ser medianeiro entre o Deus e os homens; se o Poeta é pontífice, e portanto faz a ponte, ouçamos o que ensina o Heidegger ilustre: «O pensador diz o Ser. O poeta nomeia o sagrado». Por outras palavras: Poesia não é para nós, como para o S. Tomás, uma «deleitosa mentira» ou «ínfima doutrina», ela é simbolização e amplidão da Cidade da Utopia, ela é, por fim e alfim, o que seria até o mundo, se a realidade coincidisse com o paradigma do Real. Porque a Magia, acima de tudo, é ciência do Verbo, e Verbo é a Palavra transmudando-se para o acto; como a Poesia, dessarte, o mágico mago implica o fazer…

Temos visto e aventado: para o jogral ou trovador, é como, também, para a pelota ou pelotiqueiro: há que brincar, e há que jogar, com peloticas e as pélas – pois, no teatro do Ser, tudo é símbolo, sinal, e assinatura do divino… Há que sonhar, aqui, acordado. Há que ser de novo infante. Se «a natureza gosta de se ocultar», decifremos bem as cifras inscritas em metáforas. E continua, e acusa, o ínclito Heraclito: «O tempo é uma criança jogando ao gamão, o reino de uma criança»: e não remembras, ó ledor, os jogadores de xadrez do Ricardo Reis, o alto? A nossa tese, como é facto, presenta-se e alenta-se em aspeito seguinte: mais do que a criada, ou ser em criação, a criança é criadora; no animismo, ou melhor, no panteísmo infantil, o nominar é dominar, e os símbolos participam da natureza das cousas: eis o estado e o estádio mágico-simbólico. E onde é que esse estádio impera, ou prolifera? A resposta é clara, eminente e preclara: na fabulação das crianças, nas artes, no sonho e na neurose, e sempre pois que abundem, e avondem, as imagens em acção: e falamos e chamamos por imaginação. Clarifiquemos os termos: na língua franca, ou francesa, «image» e «magie» são perfeitos anagramas: se o fantasma, dessarte, é fantoche, o mágico ou o mago avigora as «imagos»: daqui dimana a Magnésia, o múnus, ou nosso inconsciente – no escol amigo, do Tarot, eis a escala e a escola que eu venho alicerçar. Pois os Mitos são metáforas, amigo leitor. A fábula é a fala em estado seminal. Com essas alegorias, parábolas ou imagens, se é pois um feito ou perfeito intelectual, eu quero dizer: se legenda ou se lê no interior das pessoas…

Clarifiquemos, inda melhor, os vocábulos e vozes: para o pai da Psicanálise, a vida psíquica é como um icebergue: um oitavo, a consciência, está visível; sete oitavos são escondidos, e são nosso inconsciente. É, pois, a parte subconsciente, a senhora ou promotora do nosso carácter, e ela se exprime, sobremaneira, por metonímias e metáforas, ou seja, os Mitos e os símbolos. Se o trovador se expressa aqui por os tropos e figuras, nós ensinamos, como Lacan: «O inconsciente é estruturado como uma linguagem», é condição, a linguagem, do nosso inconsciente… E daremos mais um passo, e aditaremos, com Alma: se o Sol e a razão solidificam em pragmático, é da quermesse da quimera, é inerente ao incônscio nosso mágico pensar: se a mente e a mentira se alevantam contra a Lei, o «Logos» pois impera no reverso do «Mythos»… E é o sonho contra a censura, e é a «loucura da Cruz» contra o mando e o mundano: contra o Exército, a pompa e o primário, digo eu, contra o Príncipe, o século e o profano, continua, o crucial, a ser o crisol, e sangue dos mártires é semente de cristãos. E não rezingues, nem retruques. Pois na Poesia, ou pitonisa, não se trata, pois aqui, de perder a razão: aqui se trata, ou correlata, tudo o que a razão nos faz perder. E mesmo o Hegel, divos deuses, e mesmo o Hegel, que era obscuro, racional e sistemático, eduziu e aduziu, em matriz meridiana: as nossas naves são as naus, nada de grande se faz no mundo sem o «pathos» ou paixão. Ilumina, desse modo, examina o tudesco: se o Pneuma ou o Sopro é a substância da História, as três formas ou fórmulas do Espírito Absoluto são a arte, a religião, e a ligação ou liança da Filosofia: é que nelas o homem se projecta para o futuro, ele responde, nelas pois, ao apelo do Ser…

Hemos visto que o entrecho, segundo Aristóteles, é teatro e é tragédia. Tal como no cinema, ou na mimese, as pessoas não vão aos Mistérios para aprender, mas para serem afectadas, movidas, comovidas: é que a Magia é pois simpática, é que o «pathos» e o estético dá origem ao patético… Eis a supremacia das ciências humanas sobre as ciências positivas ou ciências da Natura – pois nas humanas ciências, ciências do espírito, ou ciências da cultura, existe uma empatia, ou simbiose, entre o sujeito e objecto do ser ou conhecer: se a Gnose é pois a génese, ou melhor, se a «connaissance» equivale à «naissance», conhecimento, aqui, é co-nascimento: e se ingénuo faz a ponte entre a terra e o Céu, o germinal, ou genial, é sempre o generoso: daqui provém ou promana o nacional e o germano.

E, ser humano ou irmão meu, já dissemos que o trovador é o que fala por tropos. Ora a metáfora, aqui, é uma «translatio», é transferência de nome baseada na semelhança… Já não estamos, agora, no domínio da lógica – nós só estamos, ora mesmo, em analógico domínio. O tópico ou tropo da metáfora, portanto, é mudança do senso próprio para o sentido figurado, ou seja, do ser plato para a esfera, e da terra plebeia para o Éter do alto. Ao ser a Metafísica, desse modo, a metáfora é sacral e metamórfica – se eu isso anelo, em minha mente, a isso chama, o Rimbaud, de uma Alquimia do Verbo. Se o sabor é o saber, para os Filósofos eu falo, e queira Deus que não falhe: para explorarmos a frol do nosso inconsciente, hemos já que escrutar, e escutar os nossos sonhos. E eles acatam e respeitam as regras da retórica: se metonímia é deslizar, ou a deslocação, a metáfora, em vez disso, é uma condensação… E nossa tese é que o sonho, enquanto hipnagogia, pode ser também o mista, ou a mistagogia: pois na messe, na missa, ou na mesa do altar, o sonho apela e anela o «contenu au-delà»… A noite é uma nau, a noite é uma nave, e nós morremos todas as noutes pra voltarmos a nascer no dia seguinte. Viajar no mundo astral, que feitiço, que fantasma, que fetiche ou fantasia!!! O mítico e o Mito é o sonho de uma plaga; o sonho da «persona», o Mito particular. Para atingir a Grande Obra, regressemos, anelantes, aos infernos ou às furnas, retornemos, com arte, ao útero materno: se carece, uma Cruz, do crisma ou do crisol, eu na cova vejo a cave; na cafua, ou na cafurna, eis o forno de alquimistas. Quer dizer: se o minério se extrai da Minerva ou da mina, as metáforas, aqui, podem ser os metais, e os arcanos já existem no fundo do arcaico. Ou entrando, agora sim, no pelouro, na frol, e no foro esotérico: tu visita, com Alma, o interior ou íntimo da terra; e rectificando, ou ratificando, tu lá encontrarás uma Pedra escondida: eis o que avistam arquivistas, arquitectos, ou mestres do engenho; é que os artigos e as artes completam a Natura. E para tais artifícios, há que ser um artilheiro: é que o solerte, ou não inerte, ele pugna com palavras, parábolas e sons, ele luta e labuta com quatro elementos. Os elementos, muitas vezes, são alentos e enfeite, são lamentos e alimentos em sápido e deleite.

Muito oceano, amigo leitor, nós temos navegado – e o viário ou viagem numeram para o viático. É que os números, as notas, as cores e os perfumes correspondem-se, no cosmo, eles são recta no reitor e dão-nos a resposta. E ouçamos, no lance, o belo Baudelaire: « La Nature est un temple où de vivants piliers / Laissent parfois sortir de confuses paroles; / L’ homme y passe à travers des forêts de symboles / Qui l’ observent avec des regards familiers.» Ao que nós acrescentamos : familiares são os símbolos, porque exalçam e falam a linguagem de Arquétipos… Aditemos, em cita, o Carlos Silva: «Neste âmbito merece especial referência a posição de Carl Gustav Jung, quando utiliza este termo, de modo muito frequente, para significar uma «imagem do subconsciente colectivo», uma «matriz psicológica profunda», restaurando assim a acepção mais primitiva do Arquétipo como fonte criativa. O estudo dos Arquétipos da vida onírica, do subconsciente, da infância, do primitivo, do alienado, e ainda expresso nos símbolos e nas tradições religiosas, sapienciais, passa a constituir um vasto intento arquetipológico que abre na Filosofia contemporânea, na estética e na gnosiologia sobretudo, novas e amplas perspectivas. Gaston Bachelard, Gilbert Durand, Mircea Eliade e muitos outros procuram então uma hermenêutica que remete do seu círculo fenomenológico para as imagens primordiais ou os símbolos primitivos de que são instantes e criativos os próprios Arquétipos»: não sentes, agora aqui, os sons do silêncio? Essas Formas ou Ideias são protótipos e fórmulas; ao serem arcanos, os tipos, e representações colectivas, são elas arcaicas e matrizes, elas fazem-nos voltar às nossas raízes. Consideremos no sidéreo; ao mergulharmos no mar, mergulhamos, também, no líquido amniótico – e são as naves da Amónia, da noite ou do Neptuno… Na fase da Poesia, a catarse está entanto na base da cura, e se o Pai do Aristóteles era médico, ou Asclépio, o Esculápio é para os Gregos o filho de Apolo – e a serpente é bem a Musa, ou a recta Medicina. E o poder dessa serpe é qual a Força ou «Kundalinî», ele é electricidade, o magnetismo, e magistério da «Sakti». Filósofo por ígneo, louvemos, dessarte, o Fogo, o pólo e jugo, o pedagógico Yoga: e é preciso conjuntar o flogisto com as águas, é preciso dominar a fera selvagem.

Já falámos da Medicina, ou de higiénica higidez – e medical é pois também a Filosofia… Que a Sabedoria de Pã, leitor nosso amigo, é panaceia ou Pansofia, ela mitiga e aplaca a dolência e a doença. Se o Verbo é pois o «Logos» actuando para consolo, repetimos, outra vez: sopesar-se é qual a cresta, e pensar é pôr o penso na ferida e na miséria – e eis doutrina não hipócrita, eis catarse e a purga para o «corpus» de Hipócrates. Se a vida se concebe em termos de projecto, eliminemos, perfeitos, o abjecto e o dejecto: pois Lucifer é uma fera, o Belzebu é para o bonzo o Senhor da estrumeira: nós cultivemos, pois então, sãos e puros pensamentos. Pois não existe, medicação, sem curial ou cordial meditação – e só por ela eu faço a ponte, só por ela eu atinjo o matinal ou o ser o médium. Encarnando assim a manha, ou astúcia da razão, o Génio poético é mais medianeiro, ele é meio ou instrumento nas mãos de poderes, ou potências maiores: e, na quermesse de Mercúrio, sejamos os cientes, olhemos pois a senda entre a terra e o Céu. Já o dissemos, certa vez, e repetimo-lo em Cabala: quando um Poeta dorme, ou quando um Poeta sonha, os anjos sobem e descem pela escada de Jacob – e de nada mais falamos, não aspiramos a mais nada…

Desenredemos, então, desenredemos o ensaio: como é claro e como é óbvio, as ciências sociais e humanas são condição do próprio homem. Alicerçada e baseada, a paraninfa, em participação mística ou mistérica, a Magia, magistral, ela é fundo e fundamento das ciências do espírito: nessa participação, ou simbiose, partilha, o sujeito, da essência do objecto, e os dous se fundem no tema, no lema, ou mítico emblema. Ninguém vibra com moléculas, nem canais metropolitanos – em mostração do Belo, ou da Estética, tem no «poster» o «teenager» a guitarra do cantor. Quanto mais for ela hipnótica, ou biótica, mais poder terá o tema, mais sentida ou consentida será essa obra de Arte… É que a ode é feita por aedo; a rapsódia, por rapsodo. E tudo irmana, e tudo aduna; e une a si, o nosso jogral, o palco e a galera em cadeia magnética… E sopram os ares, os mares e os ventos. E para o Dilthey, que citámos, nós explicamos a natureza; compreendemos, em vez disso, a vida do espírito. Se tudo vai, pois tudo vem, nos seja lícita, aqui, uma autocitação: «O apaixonado leitor de Poesia deve fazer com ela o mesmo que a criança faz com o seu urso de peluche, o mesmo que a menina, sendo maviosa, faz com a sua boneca: conhecer uma obra de Arte é prendê-la ao meu peito, apropriar-me dela, fazer dela a carne e o sopro, o sangue e vida em mim. O carácter, pois, próprio do animismo e da Magia, isto é, o mitificar ou dar vida a um objecto inanimado, é um fenómeno que particulariza a infância como forma, cunho ou fantasma do pensamento criador. Se o fantasma é o feitiço, daqui se podem, com efeito, concluir duas verdades: a primeira, que a artística obra é sempre um regresso à feeria ou fabulação infantis; a segunda, que o psicodrama da Poesia, como anotaram, muito bem, alguns críticos, coincide, rigorosamente, com a proposta ou propósito da Alta Magia»: no prender, e no prendar, insiste e resiste a compreensão; e o Mago, dessarte, é manifesto, e o símbolo pois adere à lata simbiose.

E prossigamos, na prosa. O britânico e não bruno William Wordsworth disse e eduziu, em dia de brilho: «The child is the father of Man», a criança em criação é do homem o «father», ou antepassado – e é o que dizem, com Alma, os beletristas e letrados: a filogénese reflecte-se, ou repete-se, em ontológica ontogénese: eis a escola e eis o escopo, eis o «topos» e tropo da inquirição… As palavras não enganam, amigo ledor: se o ser especioso é ser o especial, exige o espelho e aspecto o espectáculo das sombras: e eis aqui o Alumbrado, e eis, aqui agora, a lanterna mais que mágica…

Havemos visto e haveis de apreender: mais do que animal racional, ou político animado, o homem é, acima de tudo, um animal simbólico, ou melhor, ele é estético e poético «homo ludens». Álvaro Ribeiro, o caro, nos adverte: se a Língua do «Logos» distingue, como é vero, esta Alma do ser bruto, imaginação é a questa ou aquilo que o impele para o divino… S. Tomás e Aristóteles são unânimes num ponto: não se pensa, rectamente, sem a ajuda das imagens, e são elas que prensam a Magia dos Poetas. Se a criança, como dissemos, é o antepassado do homem, duas notas, aqui, nós hemos de aduzir: a primeira, que só as criancinhas entram, decentes, no Reino dos Céus, e eis, agora, a sagrada e a segunda: o estado teológico é, segundo Comte, o alvor e o berço da nossa Humanidade; os povos começam pois pela figuração, ou representação, dos Devas e dos deuses…

E ratificando, e rectificando, e concluindo: no final do século XVIII, o teutónico Fichte promulgava e publicava os «Fundamentos de Toda a Doutrina da Ciência», para dar a conhecer o seu conspecto ou projecto filosófico: lícito nos seja, na barca e no berço do século XXI, apresentar, em poucas linhas, o esboço da doutrina da Metaciência: se a lógica ensina a mentar, o Mito ou metáfora ajuda a mentir. No domínio das ciências lógicas, ou racionais, a sapiência matemática pode ser considerada como universalidade, universidade e conhecimento unitário; o «não entra aqui quem não for geómetra» inscreve-se, como outrora, no portal ou na porta de aspirantes ao saber. Sendo assim, tudo o que Leibniz e Descartes pretendiam era, dessarte, a «Mathesis Universalis» como escala ou como escola para o escopo científico; a multiplicidade dos conhecimentos era, à guisa metafísica, reconduzida ou reduzida à unidade do pensamento.

Ora sus!, amigo leitor: isto se passa no domínio das ciências diurnas ou pragmáticas, que nos dão a conhecer a real realidade. Outra gnosiologia requerem, porém, as ciências nocturnas ou mágicas, que se apoiam, com força, no sonho, e nos dão a conhecer a surrealidade… Outra Gnose reina aqui, outra página aqui canta, como o Jove de oratório e o Nume encantatório. O dia está, deste modo, para a noite como Apolo para Diónisos, a razão para a paixão; a Lei está para a Anarquia, como o Ego e o «Pater» estão para o inconsciente e o trabalho se coloca em relação com o prazer. Com o prazer e o lazer… E, se ao jugo do «Logos» vai reagir, como grito sideral, o jogo da analogia, consideremos que o prospecto ou conspecto da Poesia é biose contemplativa e prazer desinteressado… E aqui está, leitor amigo, aonde queríamos conduzir-te, e onde queríamos, também, que tu deduzisses: por Metaciência entenderemos o pensamento poético em ligação, ou junção, com as ciências ocultas… Ao homem não basta, dessarte, conhecer a Verdade; cumpre-lhe, no coração e de acordo com a súmula poética, criar ou conceber essa mesma Verdade. E estamos, como já viram a dor e o ledor, a falar da senda monumental de Teoria ou Teosofia que foram a vida, o vínculo e a via do Fernando Pessoa: e envidemos os esforços para a verve e para o Verbo. Quando pensamos, à distância, que este homem adivinhava, pensamos, em Metaciência, que ele era Vate ou Profeta, que exercia, desse modo, a ciência divina… É rainha, no esoterismo, a simpatia ou simbologia, e, para citarmos Álvaro Ribeiro, se «os termos simbolizam uns com os outros», também adivinhar será «descobrir por um termo qual o outro termo», ou terminologia, «que com ele está em relação». Porque a Metaciência é, acima de tudo, doutrina ou signa das correspondências – e não remembras, ó lente, a cita do franco? Num admirável, amável sincretismo que inclui em si as essências, quididades ou qualidades, dos planetas e dos números, das letras e das cores, e das notas e perfumes, a ciência universal das imagens ou magias é usada, ou professada, com um único e uno propósito: redimir-se a si mesmo, remindo os outros seres; aproximar desventurados do vértice e do carme, liberando os seres humanos da vertigem da dor e – por que não? – do vórtice da carne.

Estamos quase a findar, e prestes a firmar. Na altura do Natal, o divo Cristo foi saudado por astrólogos, e teólogos, advindos de Oriente… E se alam, aqui, as Índias do Sopro, e são as núpcias do Anho com o filosófico Hermes. E nós voamos em Maria; adoramos, pois a Cristo, corroboramos Malraux. O século XXI será de arcano e Arquitecto; será galante, e dadivoso; religioso, ou não será. E rematamos, e aramos: é premente a Magia, é urgente o Amor. Os tempos, mais que nunca, são chegados – e a clara é pois a loira, e madura é a seara… A diva é o Deus, e o Deus é o divo. «Deus super omnia», e «Dominus tecum». E tu ora, tu ora e labora, amigo leitor, prepara tu a messe para a vinda do Messias!!!

 
Lisboa, 03/ 08/ 2005
 

 




 



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