Paulo Brito e Abreu

SEGUNDA E SAGRADA EPÍSTOLA A MERLIN

Tomar, 15/05/2008

Meu caro Merlin:

Deixo o saber, diria Kant, para dar lugar à crença. O sábio de Konigsberg pretendeu, com sua lavra, validar e lapidar as seguintes perguntas: que posso saber? que devo fazer? que me é permitido esperar? E ele o fez, respectivamente, in «A Crítica da Razão Pura», «A Crítica da Razão Prática» e «A Crítica», alfim, «da Faculdade do Juízo» - e eis o crisol em que imergiu e mergulhou, homessa!, o limiar e «Humanitas» do Idealismo. O Berkeley, na estese, estava certo – porque ser, dessarte, é ser percebido. Ora adiramos, bem adrede, aos três postulados da razão prática: a existência de Deus, a Liberdade, a imortalidade, imarcescível, da Alma. Em Kant se trata da unificação, e unidade, dos diferentes aspectos do Homem: a acção para a razão prática, o sentimento para o juízo, e o conhecimento, então, para a pura razão. «O tempora! O mores!», adregava, na verve, o Cícero, alfim, da verrina fatal. Que a Moral, de Immanuel, é garantida. Afiançada, e garantida, por imperativo categórico, e a autonomia, autêntica, da lei. Ora a Ética de Kant é ciência-consciência. Se anuncia, dessarte, contra o cousismo, a crápula devassa, o funcionário e autómato unidimensional. Pois como assertas, deveras, e acertas muito bem, há que falar, a Filosofia, ao ser de carne e tendões, de músculos e ossos – e adunamos a «communio» de Miguel de Unamuno. Se eu penso, logo existo? É certo, é mais que certo, indubitável e ciente. Mas preferimos, no lance, o Ortega y Gasset: eu sou eu, entretanto, e a minha circunstância. Pois o mundo, caro Amigo, imundo não é: o mundo é meu reflexo, e a representação. Que a messe pessoana, aqui, é mantuana mensagem: «Mens agitat molem», a mente manda, e mundifica, o inerte e a matéria. Certamente, caro Amigo, o Terêncio, no teor, tinha inteira razão: «Sou homem, e nada do que é humano eu considero alheio a mim.» - e aportamos, agora, à Pansofia de Comenius. Se nós filosofamos, em fabular, é porque a vida, com Amor, merece a pena ser vivida: exprimimos, entanto, o nosso pensar, premendo o pus e o fel da ferida narcísica… E quanto à Religião? E quanto à liga? E quanto à Língua, que religa? Membremos o «Querigma», o quesito, o Clemente de Alexandria: se Cristo é o Mestre, e Pedagogo sem falha, ser educado pela Sabedoria é manducá-la, manteúdo, e incorporá-la no cor. Dado o crístico, eucarístico, cerimonial, já não sou eu que vivo: é Cristo que insiste, «ex-siste», ou resiste no remanso – e o «Homo», em simbiose, o Homem é símil àquilo que assimila. Se o Sol tudo ilumina, ou lumina com ardor, tudo lava o Lusitano, e asperge com a Luz – e eis, aqui, a Filosofia, qual a recta, escorreita, e correcta Medicina: e o Cura é qual o escuta, e em curso, discurso e conferência eu preparo, e asserto, a Cidade do Sol; que eu propalo e eu propago, aqui, o Ser enquanto Cruz, a Hermética Irmandade dos Amigos da Luz – e essa Luz é um pouco o leite e mel, ela é alento, uma «almada», e alimento elementar… Se o litotes é a lida, eu, soldado e criado no Exército do Verbo, infiro a Paz, o Paraíso, e a lauta Parusia, e esse o tónico, ou tom, da conversação. Adunada, portanto, com os Santos e recantos dos Últimos Dias, a Igreja de Jesus Cristo prepara a messe, digamos, para a vinda do Messias – e tudo sana, e tudo sara, com a força do Verbo. Pois, se a nata é o Natal, o generoso é o génio que existe no germe. «In herbis et in verbis», existe o Paracleto. Existe, como é facto, uma Ciência Cristã. E lavorando no escol da Religião comparada, o culto, hoje em dia, é Pentecostal; e Mary Baker Eddy é esperança e especular, é Luz e liminar do espiritualismo: preparemos a credença para entoar, condignamente, o carme e o canto, e seja feito, caro Amigo, de acordo com a Fé, e a colecta, e a Cultura, que move as montanhas… Que o Homem é o «Noûs», ele é, para o Estagirita, o único animal dotado de Logos; cultivemo-nos, a fundo, e cultuemos, então, seguindo e segundo a «Humanitas» e Verbo. Pois o «Chrestos» é o clero, o crisântemo é o ouro, e a caminho nós vamos da purificação. E a Catarse de Aristóteles, ela deriva, dessarte, da «Kátharsis» e cor dos antigos Mistérios – e aditamos, a isso, as Catarses do Freud e de Jacob Levy Moreno. Aquando da representação do psicodrama, os psicóticos reencontram, espontaneamente, os Mitos, o lazer, e o prazer de ser criança: a Logoterapia conjuga-se, então, com a alada, o movimento, e a Ludoterapia. Se, para Rimbaud, o «Je est un Autre», no jogo e na tragédia figura, o dolente, os Arquétipos, os símbolos, e génios dos Arcanos; e divisamos, aqui, a alegórica-«alêtheia», e dizemos, com Lacan, que o inconsciente é, deveras, o discurso do Outro. E é estruturado, para Freud, de acordo com a linguagem… Ao proferir, e professar, o Sacerdote, dessarte, é primacial, é Professor, e Doutor, na missiva, missivo ou mistagogia – e não remembras, ó ledor, a hipnose de Charcot? O automatismo, psicológico, de Pierre Janet? Soalhaste, ó amável, o Sol e o Sim. E sinalando, entretanto, a realidade ou validade psicossomática, preendamos, então, com Joseph Babinski: o terapeuta espiritual deve ter em atenção o fenómeno mental do pitiatismo, e das doenças, qual a Pítia, sanáveis e saráveis através da sugestão… No avito século XVIII, foi o Abade luso-goês José Custódio de Faria, o iniciador e promotor da hipnose na Europa. Este psicoterapeuta alcandorou-se, e destacou-se, por seus estudos, liminares, sobre a ciência magnética; revolucionou, em Paris, sonambulismo ou sono lúcido, e era Brâmane, o sábio, e formado em Teologia. Mas terapeuta, com arte, é o Cura. Espiritual, como assertei, e não e nanja espiritista: o manismo, dessarte, e a necromancia, são fustigados, formalmente, por o livro de Samuel: e quanto a nós, celeste somos, e guiado, neste lance, por Hermética Irmandade dos Amigos da Luz – e nos alcem, neste lume, os Irmãos de Shambhala. E não se iludam, espiritistas, não se encubram, nem ocultem, sob o nome pomposo da bioenergética: o que fazem, ou praticam, está muito e muito longe da profissão de fé. E quanto, na Hora, aos universitários? Quiçá, quem sabe, o método catártico, tenha sido forjado por o Autor parisino; porque o Pierre Janet, o pupilo de Charcot, era mestre em Filosofia, em Letras, e também na Medicina… Para entendermos, então, a patologia da Psique, encaremos, acareemos, a liberta Psicanálise como a prática hermenêutica, uma ciência, alfim, do significante. Ou melhor, para a psicose, a forclusão e a «foreclosure», a metáfora, paterna, e o Nome-do-Pai. Não digamos, no feito, o La Mettrie; diremos «M’être», o parlamento e o «Parlêtre»; como eu afiro, e afianço, será linguista o analista, e o ser é, portanto, um efeito da língua. Deletreemos, nós leigo, aquilo que aprendemos, na lucubração: para Anna O, que era a Bertha Pappenheim, a análise era a «sweeping», uma ab-reacção, a cura libertária através da palavra. Citemos então, com a vénia devida, o Pai da Psicanálise: «As palavras são o instrumento essencial do tratamento psíquico. Um profano achará certamente que é difícil compreender como as perturbações patológicas do corpo e da alma podem ser eliminadas por meio de simples palavras. Terá a impressão de que lhe pedem para acreditar em magia. E, aliás, não andará muito longe da verdade, porque as palavras que utilizamos na nossa linguagem de todos os dias não são mais do que magia disfarçada. Mas teremos necessidade de seguir um caminho indirecto para explicar como a ciência se propõe restaurar as palavras a fim de lhes restituir pelo menos uma parte do seu antigo poder mágico.» E para o Groddeck, antes do Freud, o «ça parle», o «Id fala», e o significante se inscreve, no inconsciente, sob a forma de letra: por o carácter, ou missiva, descobre, alfim, os caracteres. O esculápio, inteligente, é o que lega e lê, no interior das pessoas; ele esquadrinha, e ele esculpe, o «liber», a lavra e o homem libertário. O praticante, dessarte, da simbólica função, ele saberá e gustará: o sonho exprime o desejo recalcado através dum tropo, da metáfora, e do símbolo, afinal; pois as pulsões se travestem, ou disfarçam, para fugirem à censura do chamado Superego – e então opera o «sweep», a catarse, e a desinfecção moral. E ao laço que se instaura entre analista e paciente, reactivando, para o sujeito, os pedidos de amor na infância, chama o Freud, fabuloso, de transferência ou «transfert». E não se limita, o fenómeno, à diversa Psicanálise, ele opera-se, ou impera, sempre que haja, nos contactos humanos, a Mana ou germana individualidade.

Ficou famosa, entretanto, a amorosa transferência de Anna O, dirigida, bem dilecta, a Josef Breuer, psiquiatra; consagrada, para a História, in «Estudos Sobre a Histeria», foi esta a primeira dolente, ou paciente, do historial psicanalítico: e esta Obra-«communio» de Breuer e de Freud, ela surgiu, ou surdiu, em 1895. Foram estas, para a ciência, as primícias do espírito, aqui o termo «Psicanálise» foi empregue, ou nomeado, pela vez primacial. E se ultrapassa, o «transfert», o próprio ambiente da Psicoterapia, ele é a norma para o êxito em humanas relações – e vê-lo-emos, bem feraz, entre médico e enfermeira, entre o Padre e o confesso, entre aluno e professor.

O que me move, aqui, é fundar e firmar uma «Philadelphia». Que veja a pessoa, sobremaneira, como essência axiológica, ou existencial. À guisa de Álvaro Ribeiro, então, encaremos a Filosofia como forma extrema, e estreme, da Psicoterapia. Na távola translata, ou tradição portugalaica, toda a Teologia carece, e merece, a Filosofia, e toda a Filosofia anela, ou revela, uma antologia e Ontologia. Quanto à letradura, ou melhor, quanto à minha Literatura, é expressão e unção do sobrenatural. É escrita por quem pensa, como Boécio, que a «persona» é uma substância: indivisa, individual, de natura racional. Por mor d’Amor, tal como disse, fautorizemos e fundemos a Sociedade dos Amigos – e sejamos, um pouco, pacifistas e obreiros à laia de Fox. Estou em missiva. Eu estou em missão. Eu estou, como sabes, lançando, e radicando, a semente missionária. Que a esperança da messe reside no Messias. A eclésia é caroal, unitária, e universitária. Respeito, reverente, todas as culturas e todos os cultos – mas que eles respeitem, doravante, a Liberdade, dessarte, e o meu criticismo… A Igreja é salvífica e perene, é do Cristo, hosana!, o filho de David – e é dos Santos, e venera, dos Últimos Dias; essa, a nossa escola, e esse, o nosso escopo. A «schola» presentada por o escol e escoliasta. Não problema, nem dilema, mas o lema e mistério. Não limite, limitado, mas a fonte liminar. O Eu requer, cada vez mais, a Epifania do rosto e o diálogo com o Tu, o epílogo, epistolário, e a apologia de Apolo. Da liberdade a que estamos condenados, nós façamos, com arte, a fé filosófica, a nossa Liberdade. Nos Prolegómenos, deveras, à nossa Metafísica, eu faço fazendo o Bem, e no fazendo, eu faço-me a mim próprio: o Amor, dessarte, em luta, ou a luta do Amor? E a Esperança me diz pois, e o Espírito responde: seja atleta, o ginasta, e a Musa à nossa mesa. E sê Cabala, minha avena, sê da fonte Cabalina: o convento, e o convénio, começam mesmo agora!!!!!!!!

Nota do Autor: «Merlin» é o pseudónimo de um Filósofo e Poeta que deseja, por enquanto, manter-se incógnito ou ignoto. Aqui se publica esta epístola acatando, e respeitando, o seu desiderato...
 
 

 




 



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