Paulo Brito e Abreu

MISSIVA A MERLIN
Queluz, 20/11/2007

 
Caríssimo Merlin:
 

O ministro requer o ministério, e o ministério, caro Amigo, apela ao mester… Por isso falo eu do ministério menestrel: esse o nosso múnus, ou melhor, o Nume, homiliado, do Mistério Tremendo: purifiquemos nossa língua pra celebrar, condignamente, os santos Mistérios. A Palavra é o cunho do magnífico e o Mago, ou Magíster,  é o cor e cordial da cidade Magnésia: daí a Maia, ou  «Mathesis», da magistratura. Sendo assim, o intelectual, ou o clérigo, é o homem de letras, e o professor ou confesso é aquele que professa. A Dialéctica é dual, quero eu dizer, dialogal, e o manifesto é mentar duma aurífera maga – e essa maga é meigueira segundo o razoar da antiga portuguesa. Que a didascália, ou didacta, ela perore ou implore, que ela difunda, ou defenda, a «caritas» do cor. Creio que esse, caro Merlin, é o nosso caminho, bem longínquo, ou bem remoto, da literatura ou do lente fácil e fútil. Se a cultura dos «mass media» é lameiro ou lantejoula, outro é o culto, caro Amigo, do Cristiano coração – e era assim que o entendíamos, nós outros, em cenáculo e a cena do nosso Banquete… Edifiquemos, como Scheler, a nossa simpatia com base ou como fase da compreensão, e daí, para Dilthey, estendamos, à cultura, a Crítica de Kant: o Céu estrelado acima de mim, - e a lei moral, ou respeito, no meu coração… Mas o Ágape autêntico, a funda amizade, rechaça e refusa o ateísmo, do atro, e hieratismo, de atroz: a comunicação, e a «communio», são postas ao serviço da civilidade ou comunicável, quero eu dizer, da comunidade, Numinosa, e Unidade comum. A ilusão da separatividade, já o vemos, é falaz e é mendaz, e alimenta-se, deveras, do egotismo-Narciso e véu de Maya diviso: e tu não sentes, agora, o teosófico alor?  Somos partes, ou fragmentos, do eucarístico Pão, e somos silva, ou material, do corpo de Osíris… Ouçamos o que asserta, na estese e no êxtase, o discípulo amado: «Não mais vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai.» Em lhaneza de chão plano, o Pai é vinhateiro, o Cristo é videira, e a vara é o varão – e essa vara só fruta, ou frutifica, mantendo-se ligada ao Verbo encarnado: e eis o escol e a nata,  eis a escola e o espelho da especulação.

A missiva é missal e a missão, é o «ek-stático» projecto do elevar-se ou «ex-sistere». É o atónito e estupor, é estupefacto e estupendo qual o estupefaciente. E o conhecimento, ou «co-naissance», ele exige, há muito o sabemos, a metáfora e Metafísica… Ou melhor, a Metanóia. Pois este é o caminho do «transfert», duma «aletheia», Teoria, ou da contemplação. Como Anaxágoras, há muito, nós olhamos para o Céu, e o Céu é paradigma da Filosofia, quero eu dizer, do especular, da espécie e espectacular. Se o Deus geometriza, segundo Platão, cada lente é matemático, e a letra requer o palato e paladar: pois trago, no paládio, o pálio e a Palavra, a Palas Atena. O Crisma e o Cristo, o canto e o carisma. E a antífona e a «phone», a antífrase onde vela o antífen ateneu. E citamos, de memória, o Lírico avito: «Amor não quer cordeiros nem bezerros.» O novilho, aqui, é da parola ou parlenga, é dominado pela charla, e o esterqueiro, do grande charlatão. Mas subserviente, parlado, e nominado pelo César, o boato é charlar do mando e de imundo; quanto ao Príncipe deste mundo, ele aparta e ele separa o germano Cristiano do Hierosolimitano. Se o germe apela à Gnose, é porque apela, a geração, ao generoso e ao Génio – e eis o misto, ou mistagogo, como o divo, o digesto e o grande pedagogo. Que a filosófica Pedra foi rejeitada, adrede, por construtores do templo – e transmudou-se, agora, em panaceia «Pan-Sophos», e pedra angular. Que em meio ao mando, e aos soldados do Lácio, o ministério é Mestre, a seara do Messias é sinal e o selo da contradição. Pois em coro, e no civil, ficou em sigla, e sigilado, para os Teólogos a advir: «Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas sim a espada.» Relacionemos este passo com texto outro, e o pré-texto: «Desde os dias de João Baptista até agora, o Reino dos Céus adquire-se à força, e são os violentos que o arrebatam.» Ora sus, o ânimo, avante, e mais Alma, e atril para a viagem. Se o pensamento, aqui, é motor do movimento, há mister de «élan» vital – e a vida é muito mais do que o máquina maninha, e as acções e reacções da físico-química. Meridiana é a mensura, e a mensagem é clara: «Mens agitat molem», isto é, a mente manda, o espírito ou a mente é que move a matéria… Pois o Santo é compassivo; intuitivo, o interior, e inacessível, o engenho, para a racional mente.  E muito mais do que a razão, o que falta, ao messiânico, é o fogo e a paixão. É cordial e columbina, e pra mirarmos o «miracle», eis a oração… do coração. Porque foi pela paixão que se fizeram, neste mundo, as cousas grandiosas, e divas ou grandes; pois merece e carece, a nossa cruzada, de guarda-livros e lavras, à porta do Ser. O «Liber Mundi», como vemos, opõe-se ao letargo, e vai libar, o «Liber Pater», em liberalidade. E, se a signa é Teologia, sê-lo-á,
solertemente, da libertação. «Se vós permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade, e a verdade, alfim, vos libertará.»  Não deduzes, por isso, e não inferes – que o carácter se desvenda, através dos caracteres? Se o estilo é a estese, o estilete é o homem, e a «ars» oratória é aurífera arte: fala assim o Alquimista, ou melhor, o «philosophus per ignem»; e é marcado, o meu solar,  pelo signo do Fogo. A causa é curial, e o caso é profundo; a «Kátharsis» é casa da catolicidade. Pensemos, por isso, os vocábulos, e pesemos as vogais, e as convocações: é nossa a Cruz, e o cruzeiro, e hemos nós, ó guardião, a guerra contra a guerra, a rosácea no cor do nosso coração. «Porque o meu jugo é suave, e é leve o meu peso», preservemos, cristianos, a pureza e a leveza da Palavra perdida; em meio a ventos, a procelas e a perigos, é a única proa que nos pode salvar. Se o Logos é preste, e perfeito o meu jus, foi dado o fabular  ao filho do Homem. Esse Homem, «Adam», deriva do solo, que se diz «adamah», e eis o fundamento do primeiro ser humano – mas carece, o nosso Pai, do Numa, do «Man» ou do Código Manu. Mas para sermos, dessarte, a lei de Emmanuel, Iahweh insuflou, nas narinas de Adão, o Espírito vital e o Sopro de Vida – e eis  o «Noûs», o «Nefesh», o Pneuma e o «Ruah». Antes da Queda, nós temos a experiência da glossolalia: foi o Homem que deu nome às aves do Céu e às feras selvagens; o dominar, aqui, é parente simbólico do «Nomina Numina» : se  Eva e a Mulher são, nominalmente, a fonte da vida, cabe à criança, ou criatura, o assumir e acatar o Nome-do-Pai. Ou melhor: o cristão não é do mundo, mas a metáfora paterna é a meta, e condição, do nosso ser-no-mundo. O cristão não é mundano, nem tampouco publicano, mas o mundo é seu teatro, o psicodrama, e o seu campo de acção: seja a mulher, para o viril, o que é o solo e Sal para o celeste agricultor. E a Maria, para o marido, o que é a Igreja, ou «Ekklesia», para a casa do Senhor. A semente já foi lançada; mundifiquemos, nós ora, e multipliquemos… A messe é grande e é lauta, mas parcos e poucos os trabalhadores: lavoremos como a leiva, e as lindas lavaredas… E não passa, da Lei, um só jota e um só til, sem que tudo se cumpra na diva grafia: e uma gráfica gralha é gramático error de lesa-majestade. «Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses?» Pois o Verbo, desde o prólogo, é verídico e verve; «nem só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que vem, ou que sai, da boca de Deus.» Que os devotos de Hipocrene hipócritas não sejam – mas mergulhem, cabalistas, na Fonte Cabalina – e preparem, a messe, para a vinda do Messias. A Bétele ou o bétilo agora é da Belém, e é frutífero, alfim, o filho de Éfrata: pois refusada, ou enjeitada, a pedra do Pedro, foi escolhida, pelo Alto, para Pedra angular: seja núbil, agora, o Ágape e Amor, e seja de Anglo, ou angélico, o Anjo do Pai. O «Elder» não é dono da poética Palavra – mas é cultor, o Pastor, e alor do grande Ser: e lavoremos, nós outros, em bétilo e «Pan», a fim de que o sémen em Cristo floresça… E a pastoril, ou pastoral, ela guarda o acesso, ou limiar, à liga, lembrança, e à língua do Verbo: se o homem fala, e comunica, é porque o símbolo, primeiro, o tornou homem deveras… Pois no princípio, a Íbis. No início, era o sonho. Se na casa do Pai há muitas moradas, o «Elder» é vigia, como o cura está à porta, abre pontes e janelas para a Palavra do Amor. Pois «Amor omnia vincit», é o que dizem os Latinos. O Eremita, ou Carmelita, ele vive no cenóbio, mas arrima-se ao bordão, e bastonário peregrino – e daí que o ministério, ele seja, em mester, o sinal do ermitério. Em prolfaças, emboras, e leves parabéns: tudo manda, em literal, a arte do litotes, e o Mito se organiza de acordo com a metáfora. E lícita me seja uma autocitação: de cada vez que um Poeta dorme, de cada vez que um Poeta sonha, os Anjos sobem e descem pela escada de Jacob… Compreendes, ó «persona», a lídima e legenda? Superna e superiora à pulsão de Josef  Breuer, sub-siste pois a plaina, e a punção de Joseph Smith – e eis o alto e o realço, e eis a rima, e a «ratio», do nosso razoar.

Se aqui se fia, ou filia, confiança é da Fé, que o «bateleur» é o batel da nossa batalha. Se a Literatura é litoral, «Littérature, Littéra-terre», a terra mui feraz que nos dá o alimento. Mas de que serve a Literatura, de que serve a Filosofia, face ao fraco, ao esfarrapado, e ao ser que passa fome? Esse o âmago, o imo, e o busílis da questão. Dirigimo-nos pois, em primo lugar, aos humilhados e ofendidos, ao «underground», ao espoliado e «underdog». Que o nosso Deus quer misericórdia, e não e nunca o sacrifício, quer o cor, ou cordial, para o magoado, o malogrado, e o mau grado ou miserável. Se «in herbis et in verbis» é receita secular, a simpatia, ou empatia, é o único remédio para a patologia… E possa, esta missiva, ser a missa e o missal dos novos missionários, possa o édulo e prândio da minha Palavra ser o Pão e não a pedra para os novos companheiros. Que o Pão da Vida, ou paramento, é tudo o que eu preciso, e na palma é Paraíso… E disse, eu aduzi, e continuo a aduzir: a Igreja quer o salto, a sabatina é seminário, e tu ouves, e porfias? É d’azur e altitude, são os Santos e as senhas dos últimos dias… E aqui selamos, com a epístola, o apostolado, ó Merlin, e hospitalário… Te abraço em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, a «Veritas» e «Vita», o verdadeiro Deus e  Homem verbal. «Maran Atha, Maran Atha»,
«ad majorem Dei gloriam»,
 
 
PAULO JORGE BRITO E ABREU
Nota do Autor: «Merlin» é o pseudónimo de um Filósofo e Poeta que deseja, por enquanto, manter-se incógnito ou ignoto. Aqui se publica esta epístola acatando, e respeitando, o seu desiderato...
 
 

 




 



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