Tomás António Gonzaga
Marília de Dirceu
Parte 2
Lira XXIX

Eu descubro procurar-me
Gentil mancebo, e louro;
Trazia a testa adornada
Com folhas de verde louro.
Vejo ser o Pai das Musas,
E me entrega a lira d'ouro.

"Já basta, me diz, ó filho,
"Já basta de sentimento;
"O cansado peito exige
"Um breve contentamento:
"Louva a formosa Marília
"Ao som do meu instrumento."

Firo as cordas; mas que importa?
A dor não sossega entanto:
Ergo a voz; então reparo
Que, quanto mais corre o pranto,
É mais doce, e mais sonoro
Meu terno, e saudoso canto.

Apolo fitou os olhos
Na mão que regia o braço;
E depois de estar suspenso,
De me ouvir um largo espaço,
Assim diz: "O Deus Cupido,
"Faz inda mais, do que eu faço.

"Eu te dou a minha lira:
"Louva, louva a tua Bela;
"Porém vê que ta concedo
"Com condição, e cautela..."
Eu lhe corto a voz dizendo,
Que só canto me honra dela.

 
 

 

 


 



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