SARA L. MIRANDA...

Descobre-me

“Choro numa noite de Novembro”

Sei que há choro
Ao ver-te passar
De cara agreste
E andar indiferente,
Quem te sabe inteiro
Abriga-se na chama insaciável do saber:
O teu paradeiro, magno pai que estuda
Nas suas feições de início,
Despindo a luz do olhar atento.

Lancem-me ao fundo do teu sentir.
Não há arado que me toque nas lágrimas,
Nem Merlin que me sustenha a voz para dizer
Como a melodia se foi e a minha boca está vazia.

Nem acredito na aurora. Um verdadeiro dilúvio.
Creio que neste Mundo, por vezes incompreensível e injusto,
Quase não há lugar para a esperança:
Imaginamo-la, criamo-la, vivemo-la.
E antes de os dias se terem tornado rudes, fomos compreendidos. Aceites.
Não há dúvida, acho que se afastaram, o teu coração e tu.

Era assim que tudo começava.
Da janela avista-se a porta
e ela cismava em fechá-la

o que não veio a acontecer
porque entretanto começo a chover
e o telefone tocou

foi um ver se te avias
era tanta a chuva
que ninguém se atrevia
a dar o primeiro passo
para a fechar

apesar de tudo
ela, alvoroçada, temia
que lhe oferecessem
uma deslocação!...

“Uma boneca nos braços”

(Não sopra o vento
nem se ressente a trovoada
Jaz o silêncio
Sombra incontornável)
Perco-me nos horários do povo
E chego sempre a tempo da dissipação cáustica.
Não sou nada.
Todavia, acrescento ao nada a minha rudimentar realidade.
Sou.
Nunca serei o que não desejo ser.
(Ponho a hesitação de lado
de uma debilidade perceptível)

Uma boneca na mão, uma menina quimérica pergunta-me:

- Em que estás a pensar?

- Sabes alguma coisa sobre sombras?

- São obscuras. Quase inacessíveis. Secretas.

- Sentes-te desprezível?

- É a minha realidade.

- Tens segredos?

- Esse é o meu segredo.

“A luz”

 

Queriam que as mentiras que te disseram fossem luz para iluminar o teu espírito.
Tentaram transformar os fantasmas que te davam contentamento em desprezo.
Quando na nossa inocência mentíamos...
(Quantas vezes, apenas para sentirem que estávamos lá.)
Esta pequena mentira, para nós esquecida, era sempre a arma preferida com que de seguida nos feriam.

Fecho os olhos para gritar mais alto.
Acendo a luz e não há nada que permita uma redenção.
Olhas o meu rosto, mas o que procuras não está lá.
No teu, a mesma indiferença de todos os dias.
A indiferença, é essa a arma que te convence a estares bem contigo, indo por maus caminhos.

Ouvi dizer não sei aonde, que tamanho não é qualidade.
Tu tens o fogo. Eu tenho a luz.
A história dos homens, desde o princípio.
A luz sempre venceu o fogo. O fogo é força. A luz é conhecimento.

É demasiado tarde esta noite.
Queria dar-te a certeza de teres razão.
Mas sou apenas, luz...

Todas as crianças merecem o sonho.

“Um dia perfeito”

Conseguirei construir este sonho?
Sei que consigo!
Trago-o há tanto tempo comigo. Faz parte de mim. Sei que irei realizá-lo.

...Posso subir a montanha, ser o que quiser. Basta apenas fechar os olhos. Erguer a cabeça, enfrentar tudo.
Tenho de segurar o meu coração fora do Universo.

Todo o meu cansaço, toda a minha essência na sua própria forma de ser.
Escuto com atenção.
Sigo a minha voz de volta para casa.
Tudo o que sou no desalento. Tudo o que sou sem amor.
Tenho de contar os meus dias de sorte, as minhas bençãos.
Nunca saberei antes, ou se não tentar.
Para acreditar na pessoa que sou.

Não estarei sozinha.
O que está para vir é o afecto. É também isso.
E se estou triste: não me esqueço que gostas muito de mim.
Estarás em casa de braços abertos para me dar muito carinho.
Afastarás as trevas sempre que os meus pesadelos surgirem e ficarei bem.

“Ternura”

Menina da Lua, com que sonhas tu?
Porventura com o destino guardado no coração dos homens.
Sabes, o Paraíso é um lugar guardado lá no fundo dos nossos corações.
Minha menina, sem sombra de tristeza, vê lá...
Nunca deixes, nunca permitas que pedras possam nascer no teu pequenino coração.
Menina da Lua, deixa-me partilhar, viver contigo os teus sonhos de pureza.
Menina da Lua, ajuda-me, deixa-me ser sempre criança como tu.
Menina Selenita, deixa-me ser teu irmão.
Só assim será amor.

“Evocação da ausência”

Mostra-me aquele teu truque que me faz sorrir, gritar de surpresa e de prazer.
Atira os braços à volta do meu pescoço.
Um laço apertado, forte e intenso.
Vamos fazer uma roda até que a vertigem leve para longe a realidade.
Beijo-te a face, a testa.
Sinto-te em mim.
E sonho, com todas as artimanhas do meu espírito para te fazer brilhar.

Sinto-te tão longe...
Porque não me vês, aqui, mesmo ao ao teu lado?
És a gota de mel perdida e só.
Serei a abelha rainha.
Diferente, como um anjo imaginado, dançando na espuma das ondas. Como sereia fugida do mais profundo dos oceanos.
O teu bailado nas ondas é como um sonho de praias distantes.
Marés vivas, que se renovam.

A luz breve e suave da aurora toca-me levemente. Como um canto de pássaro azul, ao longe, ou a breve melodia do vento nas folhas dos salgueiros.
Este sono e este sonho têm tempos que nem o tempo conhece.
Quis mover os lábios, pronunciar o teu nome.
O encanto quebrou-se.
Acordei...estava só.
Só, esmagada pelo som do mar revolto.

As ondas, na sua raiva, quiseram roubar-me a única pessoa para quem fui alguém.
Eu não sabia.
Afinal, o mar, as ondas, ofereceram-me o que desejava.
Agora, moras dentro de mim.

Foi assim, atingi o Paraíso.

“Pequenas coisas” (É este o barro de que somos feitos)

Estas flores que aqui trago.
Que enchem as mãos, os olhos, a alma.
Não quero deixa-las secar.
Vou guardar as fragrâncias, a cor, a forma. O significado.
Vão ficar num cantinho do meu coração, para que quando precisar delas, as possa pedir emprestadas à memória.
Vão ser a minha marca.

Estas pequenas gotas de orvalho. Como pérolas.
Não as deixarei cair.
Quero com elas refrescar o rosto.
Sentir o vento perfumado. Como uma carícia que só a Natureza tem o talento para nos fazer.

São estas coisas pequeninas. Perfeitas, imaculadas e belas que quero guardar em mim, para ser eu mesma. Ser melhor: no amor, na inocência, no bem-fazer.

Fica comigo nesta relva verde e macia.
Fiquemos a olhar o Infinito azul de mãos dadas e coração quente.
À nossa volta...o mundo será o que sempre foi.
Quero sentir a tua mão firme afagar-me o rosto e nesse teu gesto, parar o tempo.

“Essência do sonho”

Há dias como este fim de Maio, em que o ar fica fino e sôfrego.
Em que o meu corpo se veste de anil.
A minha essência torna-se nostálgica e triste. Como um dia frio de Inverno que espera ansiosamente pelo sabor ardente de uma lareira para se tornar Primaveril.
No meu cabelo jaz um ramo de pétalas encaracoladas que ajeito de acordo com o meu vestido de fada do Etéreo.

Disseste que te sentias vazio.

Beijei-te ternamente a face e fui à procura da tua essência.

O final da tarde anunciava-se quente e alegre, trazendo para os campos celestes luminosidade e humanidade.
No ar pairava um aroma a madressilva e noz-moscada.
Na minha caminhada podia sentir o cheiro do rio para além do ocaso.
Observava o derradeiro reflexo tranquilo repousar sobre as colinas, como a calmaria profunda das cálidas águas do mar.
As luzes começavam a acender-se no ar pálido e puro, como pirilampos voando ao longe.

...Acordei serena. Enroscada no baloiço do quintal, num manto quente e fofo de veludo azul e branco.
Olhei em redor com os olhos ainda semi-cerrados, mas carinhosos.
E vi-te. Sentado. Um jornal à mão. A velar por mim.
No meu olhar, apenas resplandecia a inocência.
Calçaste-me os chinelos e disseste: "Vamos, pequenina. O jantar está na mesa."

“Despertar”

Agora que o tempo corre devagar, talvez chegue o dia.
Será que desta vez vais ouvir-me gritar o teu nome?
Gritarei tanto tempo e tão alto quanto a minha voz alcance. Profunda como o mar. Densa como o vinho tinto maduro.
Quero guardar a memória da tua imagem no meu coração, até que me leves contigo. Como quem colhe uma papoila num prado verdejante.
Então, sentir-me-ei uma pomba, uma rola a voar para ti.
Neste meu bater de asas, tentarei alcançar tudo o que sonhei.

Meia-noite. É a noite viva.
Chama agora pelas sombras que fogem da luz da Lua.
Dança comigo neste imaginário terreiro, como as bruxas fazem ao luar.
Não vamos deixar a escuridão cravar as suas garras na luz que nos ilumina.
Neste bosque etéreo onde as feras tentaram magoar a inocência, ei-las que fogem agora, buscando o refúgio da escuridão.
Consegues ouvir o teu nome no chamamento de uma criança?
O amanhã vai trazer o sol e afastar a noite.

Aparece a madrugada que afasta os medos e nos traz a esperança.
O sol brilhante afasta o frio da noite.
Oiço a serenata dos grilos na cerejeira em flor.
A brisa suave e fresca envolve-me num abraço.

Serei sempre mais verdade quanto mais simples me encontrares.
Estou aqui, descobre-me.

Sara L. Miranda nasceu a 6 de Janeiro de 1986. É uma escritora portuguesa do blogue Uma Casa Em Viagem, tendo publicado nele 75 poemas, para além de ter feito traduções de textos em francês e inglês. Dos seus poemas constam entre outros os seguintes títulos: Digressão do pensamento, Página vazia, Existências, O Apelo dos búzios, A tribulação das ondas, Fases, Vácuo, Marioneta, Desencanto, Essência do sonho, A vida feita em palavras, A viagem ao fundo de mim, Construir a emoção, Ser Como, E em Maio também há borboletas, Pássaro da madrugada, Tempo de ser, Teu Retrato, minha imagem. Um dos seus últimos trabalhos é um poema sobre a interiorização pessoal e a sua maneira de ver as pessoas na pequena cidade de Lamego, onde se encontra a estudar.

 

Blogue de Sara L. Miranda:
http://umacasaemviagem.blogspot.com/

 

 

 

 




 



hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano