SARA L. MIRANDA...

O apelo dos búzios - Index

A vida feita em palavras...

Como os outros, não pedi para vir ao mundo.
Mas ao contrário dos outros, não fui desejada.
Como disse o Régio: Talvez tenha nascido "do amor que há entre Deus e o Diabo."

Porque me atormentam, em vez de me amarem?
Recuso-me a ser mais uma, como toda a gente.
Não me julgueis uma de vós, só porque tenho que pagar a renda, comer todos os dias, e mais essa miríade de coisas quotidianas que poderiam fazer de mim um ser social como vós.
Não somos iguais.

Trabalho num café...mas sinto-me como num subterrâneo.
Vêem-me como a-empregada-de-mesa-robot.
Que bom...
E quando o excesso faz com que não me aguente nas minhas sapatas, fico pronta para levantar voo.
A minha certeza, é que ireis ver um dia a-empregada-de-mesa-robot partir, voando para cultivar os seus sonhos ao sol.

O que farei hoje, o que farei amanhã, é o paradigma. A verdade.
É isso, o que farei da minha vida.
É por estar bem que me apetece fazer tudo.
Se bem que às vezes...como se não soubesses.

De tempos a tempos, escrevo um segredo.
É isso que as minhas mãos melhor sabem fazer.
Como este aqui, que te ofereço.
Estar só não faz parte do meu sonho.
Quero apenas ser eu.
A minha vida não se parece comigo.

Há muito que não vejo o sol no meu Universo "subterrâneo".
Os meus dias parecem todos iguais.
Gostaria de saber...se a vida é mais do que: um sorriso, um nascer do sol, um pássaro a voar. Alguém que acredite em mim.
Não quero ser um vazio sem luz.
Estou aqui. Sinto, sou. E quero ser.
Não serei por detrás de grades, umas quantas palavras que pensava alto.
Lá fora, há sol, os pássaros voam.
Parecem querer rirem-se das nuvens que lhes barram o caminho.
Mas o sol, quente, é um apelo mais forte.

Não quero o país onde é sempre noite.
Não quero a lei do mais forte, sem respeito por aquele que é mais débil.
Não quero quem impõe aos gritos, ergue o punho e ameaça.
Quero sempre, quem com a voz calma, inteligente, me fale ao coração, me convença.

Talvez agora possa adormecer, por detrás da minha janela.
Coração livre, pensamentos soltos.
Amanhã, a vida continua à minha espera.
E os outros, que dançam a vida deles, que cantam e riem, será que têm um momento para pensar em mim?
Eu sim, por isso estou aqui.

Por detrás da minha janela, livre...
Não morrerei enquanto tiver um pensamento para o amanhã.

 

Querido Arthur,

Como tens passado este Inverno? Aposto que profundo, como tudo o que sentes.
O frio não te abala, Arthur. Tanto precisava desse teu dom agora, que os meus pés estão descalços e no meu pescoço não jaz um cachecol.
Pensei tantas vezes em fugir, que tem sido de vez, embora a estrutura do meu corpo seja frágil e não aguenta os ventos polares...pareço uma princesa ajeitando o vestido branco, como sempre fui.
Ainda te lembras da cor da minha inocência?
"Ma petite princesse blanche", era como me chamavas, com a tua voz segura e ternurenta!
E sempre sensível, Arthur, sempre sensível a tua essência!
Mais uma vez esqueci-me do teu dia de anos...perdoa-me, pois eu própria esqueço-me do meu.
A minha cabeça de Saturno (não de vento) carece de fantasia e imaginação, que nunca sei distinguir a realidade que sonho. Tenho vivido entre estes dois mundos, e tenho morrido aos poucos, uma vez em cada dimensão.
Espero ansiosamente pela lua cheia para renascer um pouco mais de novo e talvez nesse dia te possa visualizar  visualizar na minha mente e transmitir-te entre as tuas quimeras a minha saudade.
Sempre forte, Arthur, como as montanhas desta cidade.
Ainda te lembras do Alvão?
"Viens là, ma petite princesse blanche! Voir ce fleuve."
A tua voz ecoa no meu coração e veias, as tuas pernas caminhando o verde e os teus olhos o azul. 
Aqueles suspiros de alegria e concretização emocional rodopiando vale fora ao som dos passarinhos e rio.
Abraçavas-me como pai, Arthur, como um pai que nunca tive.
Sinto falta do meu pequeno corpo enroscado no teu à procura de protecção.
Afagavas-me os cabelos encaracolados, negros, leves, fofos, como a uma filha que traz com ela a força que eu tive, um dia.
Ainda tens guardado no olhar as fotografias da infância?
Eu tenho guardado no meu coração o teu rosto e um pouco da tua alma.

Um beijo, Sara de Saturne

Sara L. Miranda nasceu a 6 de Janeiro de 1986. É uma escritora portuguesa do blogue Uma Casa Em Viagem, tendo publicado nele 75 poemas, para além de ter feito traduções de textos em francês e inglês. Dos seus poemas constam entre outros os seguintes títulos: Digressão do pensamento, Página vazia, Existências, O Apelo dos búzios, A tribulação das ondas, Fases, Vácuo, Marioneta, Desencanto, Essência do sonho, A vida feita em palavras, A viagem ao fundo de mim, Construir a emoção, Ser Como, E em Maio também há borboletas, Pássaro da madrugada, Tempo de ser, Teu Retrato, minha imagem. Um dos seus últimos trabalhos é um poema sobre a interiorização pessoal e a sua maneira de ver as pessoas na pequena cidade de Lamego, onde se encontra a estudar.

 

Blogue de Sara L. Miranda:
http://umacasaemviagem.blogspot.com/

 

 

 

 




 



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