SARA L. MIRANDA...

O apelo dos búzios - Index

O apelo dos búzios

À Sara, sempre pequena...

Nos tempos que correm chamam-me muitas coisas: amiga, prima, sobrinha, neta, anjo, princesa. Uma imagem quase irreal. A seara de nossos olhos, um ceará de sonhos: sereia de céus e de sóis que faz viver a força incomensurável deste mar interno. Augure o som mais doce da paz habitável nas cercanias dos sonhos. Pois é, o asfalto nunca foi a tentação das borboletas!

Agora, em verdade, acabo por ser uma irmã, e pode vir um tempo em que me torne infinitamente filha de alguém que outrora esteve presente desde o meu primeiro ano de vida e que só mais tarde o reconheci.

Essas coisas precisam de ser descobertas, pois em perfeita verdade, penso que são os nossos sentimentos e a nossa visão das coisas e do mundo que contribui para a nossa própria identidade.

E assim, talvez a verdade aconteça algures entre o passado, o presente e o futuro. Como uma ilha de esperança num mar revolto de igualdade, caminhando perdida nas brumas de um qualquer Norte, pois somos responsáveis por quem cativamos.

...Até no Verão, a praia é um lugar assombrado. No topo das rochas, olho para o oceano.

À medida que fito as brumas pergunto-me como é que se pode alguma vez saber quando é que a noite e o dia têm a mesma duração.

O bramido do mar explode no castelo abandonado ao pé da estrada e os cães uivam inquietamente.

Trago ao pescoço uma pedra de Lua que em tempos me foi dada por um senhor da magia.

Uma pedra de Lua que por vezes faz sobressair o brilho azul do céu ou do mar; mas, hoje, até parece baça.

Estendem-se os primeiros sinais do nevoeiro e aqui estou eu, sentada, na areia branca cor de marfim, a ouvir aqui nesta praia isolada, as vozes humanas de seres de luz que apenas têm o mar para os guardar.

Lentamente, o andar sereno, regresso ao castelo. Como sempre, de pé na minha sombra, sinto-me transformada numa anã perante tão íngreme caminho.

Quem sabe, se calhar o meu rasto encontra-se desaparecido?

A distância é de facto longa...

É uma viagem sem bússola das margens do Verão até ao Solstício do Inverno.

Anos de solidão tão grande que levam a fazer um abrigo onde me recolho parcialmente imune.

Sara L. Miranda nasceu a 6 de Janeiro de 1986. É uma escritora portuguesa do blogue Uma Casa Em Viagem, tendo publicado nele 75 poemas, para além de ter feito traduções de textos em francês e inglês. Dos seus poemas constam entre outros os seguintes títulos: Digressão do pensamento, Página vazia, Existências, O Apelo dos búzios, A tribulação das ondas, Fases, Vácuo, Marioneta, Desencanto, Essência do sonho, A vida feita em palavras, A viagem ao fundo de mim, Construir a emoção, Ser Como, E em Maio também há borboletas, Pássaro da madrugada, Tempo de ser, Teu Retrato, minha imagem. Um dos seus últimos trabalhos é um poema sobre a interiorização pessoal e a sua maneira de ver as pessoas na pequena cidade de Lamego, onde se encontra a estudar.

 

Blogue de Sara L. Miranda:
http://umacasaemviagem.blogspot.com/

 

 

 

 




 



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