Foto: Carlos Silva

PEDRO LUDGERO..................

Micro-antologia

Pornografia para um radical


Aí estão,
na intimidade de Deus,
ou seja,
na intimidade dos primeiros instantes,
fulgurantes,
da história da inteligência:
não precisam de mexer uma palha
para encontrarem a incerteza das agulhas.

Aí estão,
com o descaramento da gargalhada
que liga e religa as criaturas
e com esse perfume sagrado que,
detonado em generosas cosmogonias,
a pouco e pouco se revelou amado.

Somos seus deslizes flexionais,
pois recebemos essa coisa de outro mundo
que é o, neste mundo, querermos ser felizes.

Aí estão,
        as mulheres.

(do livro inédito "perguntas à cidade")
Aqui surreal

Quando sobre a gota outra gota caía
ouvia-se numa casa à cena contígua
uma velha canção dos The Platters
na qual toda a gente repete
smoke gets in your eyes

e ainda que
por razões de tempo e clareza
o que a seguir contamos
não se passe em vida terrena
a verdade é que
onde isso se possa passar

se há de ouvir a dita canção
boda após boda
até à relação

(de um livro inédito ainda sem título).
 

Estrelas-do-mar são saudade

Dos astros que brilham no céu

Igualmente a morte dos homens

Só tem forma de eternidade 

do livro “Se o poema tem areia”

 

2. a viagem 

malas mais malas e mais malas muitas

levamos sempre quase tudo

e quase nunca

“peço desculpa este comboio vai

para

 

onde”

?

“o comboio não sei, a carruagem

segue para lisboa

confira a carruagem

 

seguinte”

quase tudo:

um só pão

e a magnólia de daniel

o momento da fuga em plena noite

uma estrela esculpida em forma de hora

um anjo para todos os serviços

co’a voz numa caixinha negra

e um álbum de premonições

 

valas mais valas e mais valas incomuns

onde jazem os beijos por beijar

de onde se erguem palavras vez em quando

e vez em onde

“peço desculpa a carruagem vai

para

 

onde”

                        ?

“isso não sei, só sei que o meu lugar

vai p’ra paris ou praga ou moscovo”

“e o meu lugar p’ra o mar vermelho”

“e o meu para o deserto”

“o meu

o meu lugar vai para o centro da romã”

 

quase nunca:

um só pão

um só peixe

alegria num floco de vinho

a fórmula da infância

a chave do reino do sono

a laranjeira do gato

e um cimo

 

falas mais falas e mais falas vez em vez

e quando em onde

não parece imundo o mundo

quando passa assim depressa

na janela

verde verde roxo-branco

branco branco negro-azul

chuva chuva na vidraça

e sempre o mesmo pensamento

tens de ir para onde o verbo vai

e o verso

 

cai

na primeira paisagem

eu vi

cardumes de fogo

abrindo uma exceção

na maré viva de pinheiros

e servindo pois de refeição

a regimentos inteiros de deuses

perenes como a história da água

caducos quais faúlhas de uma nuvem

na segunda paisagem

pressenti

um trapo de vidro tinto

uma água de verde sal

e um sol de ninguém

hasteados sobre derrotas do tempo

derrotas do espaço

e histórias sem herói

na terceira paisagem

vi senti e pressenti

as lágrimas inférteis de minha mãe

o sopro já extinto de meu pai

“peço desculpa este lugar para onde 

vai”

                                               ?

“o lugar não sei, o meu olhar

segue para a fronteira do relógio

para o passe-partout segue o meu rosto

viaja a minha mão para o rubi

p’ra o cravo o coração leva o seu eco

na direção do sangue envio o sexo

e o corpo nu inteiro

à toa sem roteiro

viaja até ao

livro

mas o senhor, para onde deseja ir”

                                                                       !

 

“eu quero ir

para onde toda a gente

vai” 

 

do livro “o fim não é o fim”

o cometa

o poema:
a cauda da imagem

do livro "sonetos para-infantis"

aleg(o)ria

de uma nuvem com forma de teta de vaca

sai uma tempestade de leite

(não houve sirene

porque o mugido se tornou nata)



fervem os reflexos nos lagos liriformes

mas o leite passa frio

como se fosse um livro

desescrito pelo tempo incólume



entornada na planura

qual quadro negro de uma sala de aula

a cidade está calma

nocturna



nas ruas

(futuras vias lácteas

há tão pouco tempo anárquicas)

somente um nascituro se insinua



mas eis que a cidade ganha asas

torna-se muito pequena

borboleta

fugindo não sã, mas salva



e a tempestade deixa nos caules

carícias de nácar

deixa risos sem tártaro

nos ramos mansos das árvores



as casas embebidas amolecem

ficam os recheios amnistiados

a Liberdade de delacroix

sente-se um logro afoga-se impotente



quem toma todo o leite é o leitor

(que traga açúcar que isto não é simples)

do livro inédito "dar o dizer por Não dizer"

V

“…comme une table emportée par l’inondation”
Benjamin Péret

as minhas pernas

e as tuas pernas

quando em carpintaria de sexo

são as pernas de uma mera mesa

apenas isso

uma mesa

coisa muito melo neto

muito madeira

certeza



não obstante

(quem ainda o diz?)

o número nosso

é o número cinco

os dedos de cada mão

e os dedos de cada pé

os orifícios do rosto

os lustros que damos

à guerra e ao coração



assim

se uma vaga inundação

ameaçar a mesa levar

até um porto inseguro

selvagem

(santo)

não há razão para medo nem espanto



seremos salvos por uma perna obstante

uma perna-não

que entre nós se atrapalhe

que nos atrase

que nos fixe

seremos salvos

pela quinta coluna

da nossa Velhice

do livro inédito: "nu abrir em nó"

la tomatina

quero escrever coisas violentas

como a receita da ginginha

ou a declaração dos direitos de um homem



quero fazer com que uns quaisquer dias do mês

deixem de ser aqueles dias do mês

para serem algo mais fecundo



quero rebentar o lacre

de uma boca fechada

e dedicar-me ao beijo filatélico

à trinca com aviso de recepção

ou à troca de insultos silvestres



o mundo afinal é polpa de escarlatina

mas a sua sangria não ata nem sai de cima

quero ser poeta para não estancar



27 de Agosto de 2008

do livro inédito: "um pouco mais ou menos de serenidade"

epopeia

arte

o insecto

assunto adequado

a uma praga de haikus

navegação

a aranha soletra

todo o seu mundo na teia

www

teoria

o mel

talvez o quadrado

do voo da abelha

anúncio

pequena larva procura

tempo para metamor-

fose ou algo mais

política

a revolução

carpintaria do novo

bicho-do-veludo

do livro inédito "caminho estreito para o que está mais perto"

o tearjerker dos corais

talvez o homem que encontrou o melhor modo

de chorar o finamento dos corais

tenha sido usain bolt



a puta também não se sai mal

ao atingir por fim o orgasmo

da sua primeira ruga



sempre que florescem

as coraleiras ganham papel principal

em todas as cosmogonias



e já que falo de um foder escancarado

é como poeta sem vergonha na cara

(como al capone)



que ordeno a londres, a camberra e à rubra moscovo

que sejam o alvo da minha pena

inaugural

do livro inédito: "p.s.- o trabalho do milionário"

floema

eu

que podia escrever um mensageiro das estrelas

por cada ser que desejei sem atingir

hei de um dia

mudar-me para sempre em membracídeo

(e para sempre ser então

the next big thing)

 

todo aquele que tenta agarrar a existência

com pauzinhos

sabe quão difícil é

manter

a fleuma da peónia

sou um poeta japonês

na selva amazónia

 

do livro inédito: "quarenta graus à sombra"

(potência minguante)

O luar é o habeas corpus da luz solar, mas o mesmo não pode ser dito dos corpos que detêm tais ilícitos de luz. Diz-se que, entre noite e dia, o mundo é muito belo (torres assombradas por joias, o bilingue chateau d'If, os jardins suspensos de sing sing). É muito belo, mas só me chega a mim em forma de eco, de eppur.

Sou uma antígona de trazer por casa. Passeio no meu quintal sem saber os nomes das plantas, e digo "o alegado acanto", "o alegado paquissandro", "a alegada físalis-múndi". Sou um gato, sou o quarto porquinho, aquele que fez o seu lar do próprio sopro do lobo. Sou a tartaruga de Senão, aquela que a justiça nunca alcança. Sou o calcanhar da noite. 

 

do livro inédito "cara ou coroa"

Pedro Ludgero, português, nascido no Porto a 20 de Julho de 1972.
Professor de música. No âmbito da poesia, editou "Se o poema tem areia" (2001), "o fim não é o fim" (2004) e "sonetos para-infantis" (2010). Ganhou o Prémio Literário de Sintra com a colectânea de contos "Leilão de pensamentos" (2005). Possui bastante obra inédita. Realizou a curta-metragem "Checkpoint Sunset".
"Anima os seguintes sítios na internet:
cabodaboatormenta.blogspot.pt;
cabodaboatormenta.tumblr.com;
 www.pedroludgero.com;
checkpointsunset.wordpress.com.

Contacto: cabodaboatormenta@gmail.com

 

 

 

 




 



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