:::::::::::::::::::::::::::::::::::PAUL CELAN::::
Poemas - Index

Trad. Luís Costa, Züschen XXIV. VI. MMI.
Origem dos poemas aqui traduzidos: Paul Celan: "Mohn und Gedächtnis", mit einem Nachw. Von Joachim Seng. - DVA, 1. Auflage März 2000.

FUGA DA MORTE *

Leite negro da madrugada nós bebemo-lo ao anoitecer

Nós bebemo-lo ao meio-dia e de manhã nós bebemo-lo à noite

Bebemos e bebemos

Nós cavamos uma sepultura nos ares aí tem-se mais espaço

Um homem mora na casa ele brinca com as serpentes ele escreve

Ele escreve quando escurece na Alemanha o teu cabelo dourado Margarida

Ele escreve e sai de casa e as estrelas relampejam  ele assobia aos seus mastins

                                                                [para que se aproximem

Ele assobia aos seus judeus para que se mostrem cavai uma sepultura na terra

 

Ele comanda-nos tocai agora para a dança

 

Leite negro da madrugada nós bebemos-te à noite

Nós bebemos-te de manhã e ao meio-dia nós bebemos-te ao anoitecer

Nós bebemos e bebemos

Um homem vive na casa ele brinca com as serpentes ele escreve

Ele escreve quando escurece na Alemanha o teu cabelo dourado Margarida

O teu cabelo em cinza Sulamita nós cavamos uma sepultura nos ares aí tem-se mais espaço                            

 

Ele grita escavai cada vez mais fundo no solo vós esses vós outros e tocai

Ele tira o ferro do cinto e brande-o  os seus olhos são azuis

Espetai cada vez mais fundo as enchadas vós esses vós outros continuai a tocar para a dança

 

Leite negro da madrugada nós bebemos-te à noite

Nós bebemos-te ao meio-dia e de manhã nós bebemos-te ao anoitecer

Nós bebemos e bebemos

Um homem vive na casa o teu cabelo dourado Margarida

O teu cabelo em cinza Sulamita ele brinca com as serpentes

Ele grita tocai docemente a morte a morte é um mestre da Alemanha

Ele grita tocai os violinos sombriamente então subireis como fumo aos ares

Então tereis uma sepultura nas nuvens aí tem-se mais espaço

 

Leite negro da madrugada nós bebemos-te à noite

Nós bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre da Alemanha  

Nós bebemos-te ao anoitecer e de manhã nós bebemos e bebemos

A morte é um mestre da Alemanha o seu olho é azul

Ela acerta-te com balas de chumbo ela não falha

Um homem vive na casa o teu cabelo dourado Margarida

Ele açula os seus mastins contra nós ele oferece-nos uma cova no ar

Ele brinca com as serpentes e sonha a morte é um mestre da Alemanha

 

O Teu cabelo dourado Margarida

O teu cabelo em cinza Sulamita

* "Fuga" aqui em sentido musical

PAUL CELAN. Poeta de língua alemã, pseudónimo de Paul Antschel, nasceu em Chernovitz  (antiga Roménia, hoje Ucrânia) a 23 de Novembro de 1920.

Em 1938 começa a estudar medicina em Tours. Um ano mais tarde, abandona os estudos de medicina e volta a Chernovitz para aí estudar romanística.

Em 1942, os seus pais,  judeus de origem alemã, são deportados para um campo de concentração. O pai de Celan morre de tifo, a sua mãe é assassinada.

De 1942 a 1943, Celan encontra-se, igualmente, preso em vários campos de concentração romenos, sendo obrigado a trabalhos forçados. Em 1947 é libertado. Chernovitz encontra-se agora nas mãos do Exército Vermelho. Ainda no mesmo ano, Celan abandona Chernovitz para fugir à ditadura estalinista. Depois de viver algum tempo em Viana de Áustria, parte para Paris, cidade onde vai permanecer desde1948 até ao seu suicidio em 1970.

Celan é considerado um dos maiores poetas da poesia alemã do pós-guerra. Em 1960 foi- lhe atribuído o "Georg-Büchner-Preis". Este é o prémio literário mais importante da Alemanha.

Ainda durante o tempo de estudante, Celan ocupa-se, em promenor, com a poesia de Hölderlin, Rilke e dos simbolistas franceses que o influenciam profundamente.

Na sua poesia também se descobrem fortes influências surrealistas (Celan esteve muito próximo  da secção surrealista romena) e expressionistas. O problema da linguagem torna-se o seu tema mais importante. Muitos dos poemas de Celan jogam com a forma fragmentaria, cultivada pelos românticos, e procuram sondar, o mais próximo possível, as fronteiras entre o dizivel e o indizivel. Exemplo disso é o livro: "Von Schwelle zu Schwelle" (de patamar para patamar). Numerosos motivos bíblicos bem como neologismos são também uma componente da sua poesia. Muitos dos seus poemas, sobretudo os da primeira fase, espelham, de uma maneira muito original, o sofrimento do povo judeu durante o Holocausto .

Deste modo, Celan opõe-se ao filósofo Theodor W. Ardono o qual dizia que "Escrever poemas depois de Auschwitz é barbárico".

Paul Celan foi, para além de grande poeta, também um excelente tradutor. Ele traduziu autores russos, italianos, franceses, ingleses, roemenos etc. Entre muitos dos grandes poetas que traduziu encontra-se também Fernando Pessoa.

 

 

 

 




 



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