Milton de Lima Sousa
POEMAS INÉDITOS
Selección de Rodolfo Alonso

Ossário profano

Da mesma forma como os cães enterram

Ossos avidamente recolhidos ao crepúsculo,

Para saboreá-los depois, em instante secreto e encantado,

Enterro minhas palavras num átrio espectral

Varrido pelo vento, guardando para os cegos e loucos

(Irremediavelmente feridos pela noite),

Os resíduos de uma visão crucificada dia a dia,

Canto esparso de um amor que ninguém mais sente.

 

Os sonhos ficam gravados no lajedo da insonia.

Projeto inconsequente

Quando o silêncio secar em minhas mãos

E meu espírito nada mais fôr

Do que brasa espavorida a percorrer a escuridão,

Minhas palavras serão meus restos mortais;

O vento, meu único epitáfio.

 

Fruto trêmulo, sufocado pela memória esvoaçante,

Sempre estarei sentado neste catre agreste,

Sofrendo o escoamento da madrugada,

Diluindo-me entre seus resíduos de agouro.

Que flor implume nasce de minhas pupilas?

Ofício antiquado

O poeta fala na primeira pessoa

E a todos engana. Fala na terceira e iludi ainda mais:

Afinal, sempre é devorado por suas próprias entranhas,

A ninguém lega seu respiro.

Entre eu e ele há máscaras insondáveis,

O jejum celeste imerso em branco abissal,

O plissado do verbo interdito,

O bosque dos interstícios,

A lenta expiação das palavras afins

E o que restou em estado de sôpro na arquitetura do vôo.

O poeta alimenta-se de matérias fungíveis e friáveis.

Até hoje não sabe de onde vem a névoa que manipula

Nem sente o peso da mortalha (ó John Donne)

Que veste e desveste a todo instante.

Da fissura do sonho tira lábios estigmatizados.

 

Leitores avisados (e desavisados),

Atentos (e desatentos) reunem-se na praça

Para rastrearem no escuro o que ficou pigmentado;

Meio a êsmo percorrem sinais intatos,

Fitando de perto os grafitos apagados.

Com cristais moídos na garganta,

O poeta tange criptosignos elementares.

Uma legião de pseudos (aedos do não-ser)

Fere-lhe a plumagem,

Mas ninguém sabe onde o pássaro nidifica.

 

(De Aleluia sob o átrio, libro inédito)

A um poeta argentino

 

a Rodolfo Alonso

Não sei se lhe envio

Um postal do Corcovado

Ou o retrato do poeta

Que ciranda o minério do pudor.

 

Tal vez seja mais delicado

Mandar-lhe um instantâneo do bumbum dourado

Da mulher-padrão destes brasís

E de quebra, dois ou três punhados

 

Desta terra miserável e translumbrada

Onde até as sarças-ardentes tem halos de ternura.

Como sou um cabeça-de-passarinho,

O melhor mesmo é colocar tudo isso

 

Na asa-delta de um abraço bem-vindo.

De Manto de traspasso, libro inédito)

Execução inexplicável

O patíbulo foi erguido ao anoitecer, para confundir ainda mais.

Apesar de obsoleta, a guilhotina estava tão desperta

Que cortava o vento. Sua lâmina reluzia no escuro,

Ofuscando trapos, sequelas, ossos moídos.

Quando despencou, afiadíssima, sôbre o meu pescoço,

Fechei os olhos com amor: nascia a última flor do Lácio.

Meus restos transfixos ficaram intatos.

Nenhuma gota de sangue respingou nos degráus do cadafalso.

Juncada de cadáveres, a praça apodreceu em salmourão.

(De Para Cézanne pintar, libro inédito)

(En una carta a Rodolfo Alonso, aludiendo a la cita a última flor do Lácio, MLS informaba: “Caso V. n ã o saiba, é um verso famoso de Olavo Bilac, poeta parnasiano. Refere-se à língua portuguesa.”)

 

 

 




 



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