:::::::::::::::::::::LUÍS COSTA::::::::::::
Último desejo

Chegou agarrado às sombras das ruelas. A sua pele era amarelada,
ferida de ranhos e côdeas intensas. Os lábios já não sabiam sorrir.
Vinha do fundo dos desertos onde as noites não conhecem fim.
A única luz que até agora tenha visto, fora a dos espinhos dos cactos.
Trazia restos de correntes amarradas aos tornozelos. À altura da cinta
Uma ferida aberta sangrava. Era a sua - minha flor. Uma coroa de
Espinhos enfeitava-lhe a fronte. Os olhos tinham-se-lhe mirrado na
escuridão do vazio. A voz era um rugido de águas mortas.
Já sentia o fim, próximo da garganta, como um arroto que se anuncia.
Mas apesar de todas as suas misérias, apesar de tanta dor, ele amava
cada vez mais a vida, ele queria viver, sentir de novo faíscas nas veias:
O seu maior desejo era tornar-se criança.

 
 

 

 

 




 



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