LUÍS COSTA:::::::::::::

Borealis
ERA uma noite de inverno. lá fora, os ventos
tinham abandonado o
bosque. altivos, percorriam as ruas da aldeia
subiam às árvores e às torres, chicoteavam as casas.
eram ventos setentrionais
furiosos como mosquitos nas húmidas
herdades do verão.
 
dentro da casa, estava o homem. e sonhava.
sonhava que estava morto.
à sua volta: fezes, ratos, moscas varejeiras.
na penumbra, alguém chorava.
mas não estava ele morto?
o que pode fazer um choro contra a morte?
 
via o tempo da sua infância,
uma colagem ou uma película fragmentada,
e o pároco que lhe dizia: a morte não é o fim.
a morte é o começo de Deus.
esperança, meu filho. esperança.
 
mas agora que sonhava que morrera, não havia
nada para além da morte
nem sequer a sombra de um deus
ou o ranger de uma dobradiça.
só a escuridão!
como quem, de repente, tivesse apagado uma luz
só escuridão!
 
sonhava estar morto, mas ao mesmo
tempo estava vivo. como Lázaro?
será possível, será possível
contemplarmos a nossa própria morte?
caminharmos por dentro dos espelhos?
sonharmos que estamos mortos, mortos?
por um momento
soletrarmos o alfabeto da eternidade?
 
a morte não é o fim
a morte não é o fim
murmurava a voz que vinha da infância.
 
e de repente, acordou, como alguém
que de repente se ergue das águas revoltas
sufocante e fremente
a boca seca como papel
e tateia na escuridão à procura de um nome.
 
não! não estava morto!
a Hora   ainda não tinha chegado.
 
lá fora: os ventos haviam regressado aos
bosques, aos seus ninhos ancestrais
a madrugada erguia-se como uma rodilha
e um silêncio sufocante abafava a terra
como quando os abutres passeiam
pelos campos de batalha
e recolhem as almas dos guerreiros mortos.
 
Luís Costa, janeiro 2016
 

Luís Costa nasce a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu. É aí que passa a maior parte da sua juventude. Com a idade de 7 anos tem o seu primeiro contacto com a poesia, por meio de  Antero de quental, poeta/ filósofo, pelo qual nutre um amor de irmão espiritual. A partir dai não mais parou de escrever.

Depois de passar três anos  num internato católico, em Viseu, desencantado com a vida e com o sistema de ensino, resolve abandonar o liceu. No entanto nunca abandona o estudo.  Aprende autodidacticamente o Alemão, aprofunda os seus conhecimentos de Francês, bem como alguns princípios da língua latina. Lê, lê sem descanso: os surrealistas, a Geração de 27, Mário de Sá-Carneiro, Beckett, E. M. Cioran, Krolow, Homero, Goethe, Hölderlin, Schiller, Cesariny, Kafke e por aí adiante. Dedica-se também, ferverosamente, ao estudo da filosofia, mas uma filosofia viva. Lê os clássicos, mas ama, sobretudo, o poeta/ filósofo Nietzsche, o qual lera pela primeira vez com a idade de 16 anos : "A Origem da Tragédia" e o existencialista Karl Jaspers.

Mais tarde abandona Portugal rumo à Alemanha, pais onde se encontra hoje radicado.

 

 

 

 




 



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