LUÍS COSTA:::::::::::::

Divinolência

DIVINOLÊNCIA

I 

Há lugares que parecem adormecidos no tempo, há neles

algo de místico e ancestral, tudo flui com delicadeza e magia,

como se o tempo tivesse parado, como se nos encontrássemos

no centro da criação; então, de vez em quando, os sinos da torre

da igreja batem a repique, anunciando a morte de mais um ente,

talvez um ente amado, fazendo-nos lembrar que afinal o tempo

continua a fluir, que as suas charruas profundas continuam,

secretamente, a trabalhar na nossa carne. e :

 

o dilúvio desce, e o corpo, como uma gasta concha marinha,

emerge estranho e belo.  ( 1 )

 

por isso: prepara a tua barca da morte, tem sempre a barca preparada.

 

Porque vais precisar dela.

Porque a viagem do esquecimento está à tua espera. ( 2 )  

( 1 ) e ( 2 ): David Herbert Lawrence 

II 

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...

Antero de Quental

Deus está sentado à minha frente

lúcido, olha-me com os seus olhos carcomidos.

Deus é um oceano repleto de vazio, convulso,

uma árvore cortada dentro de mim.

 

Deus  ou um cibório de sangue estático

onde, por vezes, me  estabeleço;

um deserto, a noite IN - habitável que

rumoreja ao alto, nos gárrulos.

 

insensível, Deus habita a mudez

é a presença da ausência que corrompe a alma

do criminoso com um flash fetal.

 

criança velha que adormece ao canto

de cada esquina, Deus –

a pedra da pedra , a - não - madrugada. 

In: Caderno de Buridan

 
Sofia Ribeiro, «Inconsciente Imortal»
Pintura sobre papel - 30x40

Luís Costa nasce a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu. É aí que passa a maior parte da sua juventude. Com a idade de 7 anos tem o seu primeiro contacto com a poesia, por meio de  Antero de quental, poeta/ filósofo, pelo qual nutre um amor de irmão espiritual. A partir dai não mais parou de escrever.

Depois de passar três anos  num internato católico, em Viseu, desencantado com a vida e com o sistema de ensino, resolve abandonar o liceu. No entanto nunca abandona o estudo.  Aprende autodidacticamente o Alemão, aprofunda os seus conhecimentos de Francês, bem como alguns princípios da língua latina. Lê, lê sem descanso: os surrealistas, a Geração de 27, Mário de Sá-Carneiro, Beckett, E. M. Cioran, Krolow, Homero, Goethe, Hölderlin, Schiller, Cesariny, Kafke e por aí adiante. Dedica-se também, ferverosamente, ao estudo da filosofia, mas uma filosofia viva. Lê os clássicos, mas ama, sobretudo, o poeta/ filósofo Nietzsche, o qual lera pela primeira vez com a idade de 16 anos : "A Origem da Tragédia" e o existencialista Karl Jaspers.

Mais tarde abandona Portugal rumo à Alemanha, pais onde se encontra hoje radicado.

 

 

 

 




 



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