LUÍS COSTA::::::::::::

Pássaros de pedra, ou lagos de espelhos

Pássaros de pedra, ou lagos de espelhos
a alma ou uma armadura
emparedando o corpo
dai-me um sinal ou um sopro
um gesto simples que seja,
um céu mediterrânico,
uma montanha ou um pinhal,
uma pedra
uma pedra brilhante
ou uma casa de pedra e cal
um cantil onde os dias se possam libertar
do cobalto dos leites negros
que infestam as fechaduras dos amantes
que vindos do deserto se enrolam às ideias como uma cobra negra
uma enorme e lasciva cobra  negra
uma cobra trepando a figueira


Olhai, olhai
este corpo de colher
estes braços anelados de céu
celidográficos compêndios bizantinos
estas pernas
estas pernas pintadas de branco
como as sete mulheres da Eritreia
este buraco vermelho que tudo encandeia
o centro do coração
um redemoinho lá dentro
a luva grená
que revolve o interior do amor
ou um sol quebrado em pedaços
um sol no veio das árvores
um sol de crinas cartesianas
um sol de onde emergem cilindros húmidos de vazio
cilindros enterrando-se no corpo da seda
como uma chuva de braços
ou lagartas em metamorfose
cilindros ou sal
cilindros ou água
 calendários fluviais


Depois
a morte ou a salvação
a morte
esta enorme boca sem dentes que me vara a testa
metal ainda selvagem nas têmperas do animal ferido
a incerteza de um nome
um nome que me nomeie
mas o que é um nome?
mas de onde vem este nome que me nomeia?
quem fala em mim quando escrevo?
quem me deixa participar
no turbilhão do grande silêncio?
que respirar é este que se ergue dentro de mim
senão um vento que passa
por entre as trompetas das ânforas?


Se nada sei ou pouco sei
é porque moro fora das coisas
fora do foro dos fusíveis
na cidade devastada
ao lado da palavra amortalhada na incandescência do metal
no lado de fora da natureza
como uma forja de pez que reveste a alma do desertor
ou um disco aguçado
ou um compasso dividindo a cabeça dos animais
demasiado baixo para me aperceber dos vermes
demasiado baixo para enterrar as mãos no império da terra


Se de facto nada sei ou pouco sei
é porque a pata do mar poderoso ainda não existe em mim
é porque a seiva permanece entroncada nas cubas estáticas
no seu marfim dialéctico
é porque me encontro preso no cubo da circunferência polar
uma estátua exilada
ou uma fronteira lunar,
uma roldana entre mim e mim,
uma terra não cartografada


Por isso
é preciso quebrar a couraça dos objectos escuros
é preciso dançar-se com o pâncreas do tigre na boca
ou o rabo da cobra cascavel dentro do peito
por isso
é preciso quebrar o mármore dos patamares,
despregar as portas,
a sua enferrujada caligrafia ,
e sentir-se a avidez do encanto da carne no palato celífluo,
um tremor de terra nas vísceras,
nos astros,
nas vísceras
e ir-se mais além,
sempre mais além

até às zonas húmidas e musgosas
das profundas veredas
onde as coisas,
numa película de transparência,

- simplesmente são

Luís Costa, züschen 2009

De «ARQUEOLOGIA INVIOLÁVEL»

 

Luís Costa nasce a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu. É aí que passa a maior parte da sua juventude. Com a idade de 7 anos tem o seu primeiro contacto com a poesia, por meio de  Antero de quental, poeta/ filósofo, pelo qual nutre um amor de irmão espiritual. A partir dai não mais parou de escrever.

Depois de passar três anos  num internato católico, em Viseu, desencantado com a vida e com o sistema de ensino, resolve abandonar o liceu. No entanto nunca abandona o estudo.  Aprende autodidacticamente o Alemão, aprofunda os seus conhecimentos de Francês, bem como alguns princípios da língua latina. Lê, lê sem descanso: os surrealistas, a Geração de 27, Mário de Sá-Carneiro, Beckett, E. M. Cioran, Krolow, Homero, Goethe, Hölderlin, Schiller, Cesariny, Kafke e por aí adiante. Dedica-se também, ferverosamente, ao estudo da filosofia, mas uma filosofia viva. Lê os clássicos, mas ama, sobretudo, o poeta/ filósofo Nietzsche, o qual lera pela primeira vez com a idade de 16 anos : "A Origem da Tragédia" e o existencialista Karl Jaspers.

Mais tarde abandona Portugal rumo à Alemanha, pais onde se encontra hoje radicado.

http://oarcoealira.blogspot.com/

 

 

 

 




 



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