LUÍS COSTA::::::::::::

Nótulas de Poética 

Para o Jorge Melícias

1- Leitor e escritor

Digo: o poema a partir do momento em que está escrito já não pertence ao poeta ( claro que traz o nome dele, a sua assinatura ), isto é, ele pertence agora ao domínio do leitor. Também o próprio poeta será a partir de agora, perante o que escreveu, não mais que um leitor.

2- A poesia ou a entrega total

A grande maioria vê na poesia uma espécie de jogo, uma brincadeira intelectual, ou emocional,  por vezes uma ostentação. Ora, a meu ver , para se ser um grande poeta, ainda quando não se seja reconhecido pela crítica, ou pelo “ público “, no momento actual, ( muitas vezes é preciso que venha uma nova geração para que o verdadeiro valor de um determinado poeta seja reconhecido ) é necessária uma ligação  carnal à poesia, uma ligação de  amor / ódio, de alegria/ dor, isto é,  de entrega total.

Em todos os grandes poetas eu tenho, escrevam eles como escreverem, encontrado isso.

Como exemplo, enquanto Hölderlin foi deveras um grande poeta, já Goethe e Shiller a meu ver o não foram. Foram, é verdade, grandes dramaturgos e pensadores (sobretudo Schiller foi um grande pensador e claro que há muita poesia nas obras desses poetas ). Mas, compare-se a obra lírica de um Hölderlin com a de um Goethe ou com a de um Schiller e logo se descobrirá a diferença. ( por alguma razão Heidegger chamou a Hölderlin o poeta do poeta ). Como o leitor certamente saberá, Goethe e Schiller viam na poesia, sobretudo, uma espécie de jogo elevado , já Hölderlin, por sua vez, via nela uma ontologia. Eis a grande diferença.

Contudo tiveram de passar anos e anos até que Hölderlin fosse realmente descoberto. Hoje, como sabemos, é um dos grandes vultos da poesia alemã e da literatura universal.

3 - Exigência e responsabilidade

Sobre exigências de esforço de leitura que se possam fazer ou exigir ao leitor, digo: aquele ( o poeta ) que escreve, enquanto escreve, não escreve para exigir alguma coisa de alguém, ou pelo menos, ainda não tem noção disso; ele escreve, sobretudo,  por necessidade de escrever, por uma necessidade interior de trazer a substância obscura, que lhe arde na garganta, à luz do dia. O leitor, nesse momento,  ainda não existe.

Ao tornar-se palavra tal substância obtém uma forma (estética) que é em si, de certo modo, uma manipulação, pois que, sendo o poeta o construtor do poema, ele escolhe e dispõe as palavras de um certo modo e num certo sentido e, assim, de uma certa maneira, manipula o sentido vísceral da linguagem. No entanto, ainda assim, o poema é um corpo vivo, ou uma árvore de palavras, onde o ritmo e a estranheza dessas palavras (metáforas, imagens, desvios sintácticos etc.), que fogem ao sentido usurário da linguagem do dia-a-dia, provocam no leitor uma re - acção de compreensão e conhecimento espontânea ou imediata, assente na emotividade, por mais negativa ou positiva que esta lhe possa parecer. Por isso, a meus olhos, a potência do poema reside primeiramente não no sentido ou inteligibilidade da mensagem que se lhe possa imputar,  ou que dele se possa extrair, isso, como sabemos, consegue-o muito melhor a prosa, mas antes na obscura  intensidade e na surpresa, muitas vezes, na provocação e crueldade daquela linguagem outra. Só mais tarde virá aquilo que se chama a interpretação ou exegese. Todavia o leitor não deverá ver neste facto nenhuma facilidade, bem pelo contrário, ele deverá encarar a leitura de um poema como um acto de exigência e responsabilidade. Tal como o poeta vai aperfeiçoando o seu ofício de poetar, também o leitor deverá  ir aperfeiçoando o seu ofício de leitura.

4- Emotividade e linguagem

Escrever poesia é sobretudo um trabalho de linguagem. Contudo as emoções são e serão sempre uma parte inerente e muito importante da poesia. Embora possa não parecer, há muita emoção na linguagem clínica de um Gottfried Benn. Uma emoção fria, cruel, destrutiva, sim, mas capaz de despoletar positivamente ou negativamente os nervos do leitor, isto é, de provocar emoção.

Uma das coisas de que sinto falta, como exemplo, na linguagem poética de um  Fernando Pessoa é, precisamente, o não existirem alí, nem sequer à distância, os abismos dionisíacos, que são sempre sísmicos e emocionais. Há na  poesia pessoana algo de tumular, uma falta de nervos e sangue, poesia apolínia que eu, embora reconhecendo a sua grande qualidade, não posso subscrever. 

A grande poesia deve, a meu ver,  ter nervos, fezes, urina, sangue, destruição, luz, trevas, construção, erotismo, amor, ódio, paz, vermes, guerra e por aí adiante…

 ( Isto talvez seja algo que o leitor “ normal “ de poesia  não consiga entender. )

Nietzsche demonstrou-nos bem isso ( leia-se aquela grande obra poético-filosófica que é “Zaratustra “ )  e os  seus seguidores, entre eles os expressionistas, também. Muito do expressionismo é radicalmente emocional e subjectivista. Porém na “ grande “ poesia o subjectivismo é e será sempre uma pura  ilusão.

( Para que se compreenda esta frase leia-se o capitulo 5 da “Origem da tragédia “ onde Nietzsche aborda o problema do eu lírico de um modo muito mais abrangente e bem formulado do que a teoria do fingimento de um Pessoa, a qual, porém,  foi muito importante para o desenvolvimento da moderna poesia portuguesa )

Todavia é preciso distinguir entre a “ grande poesia “ e a poesia de “ pacotilha “.

Também a  poesia de um Jorge Melícias é uma poesia, sobretudo centrada num trabalho de linguagem, mas, do mesmo modo, fortemente emocional, de emoções fortes, cruéis, arrepiante, é verdade, mas emotiava.  E é precisamente isso, a meu ver,  o que lhe confere a potência e a fascinação que ela é capaz de provocar no leitor. Há em Portugal outros poetas , muito interessantes , que tal como Jorge Melícias praticam uma escrita assente no uso de termos raros, uma linguagem muito cuidada, que chamarei, com todo o respeito, de barroca e preciosista, mas onde, ao contrário do poeta mencionado, não há profundidade nem força ctónica emocional . Por isso a poesia de tais poetas, embora sendo uma poesia centrada na linguagem e dentro desse domínio talvez exemplar, é uma poesia sem musculação, direi: uma poesia artificial no sentido mais negativo do termo.

Uma poética pode ser muito bem trabalhada e engenhosa, mas se lhe faltar a capacidade emocional, será uma espécie de estátua grega, sem cabeça. A poesia tem de ser um animal com cornos, capaz de marrar.

Digo:  é necessário que o poeta consiga realizar um trabalho onde linguagem e emoção se tornem um corpo coeso e vivo. Esse será  para mim o grande desafio, a grande exigência que o poeta ( autocriticamente ) deverá colocar a si próprio, correndo mesmo o risco de ficar incompreendido e até por editar.

5 - Realidade e subjectividade

As emoções e a realidade concreta de que a poesia possa partir são só estímulos, uma espécie de trampolim para que se crie a realidade nova que é o poema. As emoções ou a pedra do poema são as emoções e a pedra do poema. Estas emoções e esta pedra já pouco ou nada têm a ver com a emoções ou a pedra que algures o poeta tenha sentido, visto ou tocado. Por isso toda a grande poesia é objectiva.

A título de exemplo vejamos o poeta espanhol António Gamoneda: grande parte da obra deste poeta está assente na memória/ imaginação. Partindo, na maior parte dos casos, de uma realidade pretérita, de factos a que o próprio homem muitas vezes assistiu, biográfica e histórica ( a sua infância,  a guerra civil espanhola, etc. ), este poeta, por meio da criatividade imaginativa, transfigura essa realidade, tornando-a numa espécie de sobre - realidade poética. Em muitos dos poemas de Gamoneda encontramos essa transfiguração: o ponto de saída encontra-se assente num tesmunho, aquilo que em certas situações foi vivido ou visto, um impulso emocional  que tem como motivos acontecimentos concretos do dia-a-dia, por exemplo a passagem por um mercado, a confusão das ruas, um cavalo morto, homens em uniforme, vendedores, mulheres, crianças etc. ou a visita a uma catedral ou igreja, assim como o seguinte poema exemplifica:

Un ángel gótico

 

Inmóvil, claramente

inhumano en la

pura catedral

vive un ángel.

Un ángel no tiene ojos.

Un ángel no tiene sangre.

Él no vive en la vida, él no vive

en la muerte, él está

vivo en la belleza. (1)  

Este belo poema parte de um motivo concreto, real, da visita a uma catedral onde o poeta viu um anjo de pedra gótico. Todavia a memória/ imaginação de Ganomeda, ao visualizar as cenas passadas, liberta-as, de imediato, como fragmentos ou estilhaços soltos, do seu contexto original ou real, para as envolver em imagens, muitas vezes, enigmáticas (“ vi los estigmas del relámpago sobre aguas inmóviles, en extensiones visitadas or presagios “,  “Cruzan palomas entre mi cuerpo y crepúsculo, cesa viento y las sombras son húmedas . “ , “ pienso en el dia en que los caballos aprendiron a llhorar” ( 2 )  ),  criando assim um espaço mágico e hermético de uma obscura-luminosidade, isto é, uma nova realidade.

Tal como dizíamos, no início desta notúla, a respeito das emoções e da pedra, o poema “ un ángel gótico “, que acima transcrevemos, exemplifica perfeitamente como aquele anjo de pedra, que o poeta viu com os próprios olhos, se transfigurou, agora, numa realidade própria, autónoma: este anjo já nada tem a ver com o anjo visto, situado algures num determinado espaço -  tempo (  catedral ) concreto, este anjo é agora a própria realidade poética que é, neste caso,  o espaço -tempo – poema, o  espaço estético, intemporal, a-histórico, em que não há morte nem vida,  e que o leitor ajuda a ( re) construir. A partir daqui a comparação entre o anjo de pedra, concreto e o anjo do poema anulou-se. Agora só existe o anjo do poema – a metáfora-metáfora  que para o verdadeiro poeta não é uma figura de retórica , mas uma nova imagem que substitui a primeira imagem e que paira diante dos seus olhos,  em vez  de um conceito. ( 3 )

Notas:

1) http://amediavoz.com/gamoneda.htm

2 ) “  Esta Luz / Dieses Licht “ , Verlag Ludwig 2007

3) Nietzsche: “ A Origem da Tragédia “ “ Guimarães Editores “ 1996, sétima edição.

Luís Costa nasce a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu. É aí que passa a maior parte da sua juventude. Com a idade de 7 anos tem o seu primeiro contacto com a poesia, por meio de  Antero de quental, poeta/ filósofo, pelo qual nutre um amor de irmão espiritual. A partir dai não mais parou de escrever.

Depois de passar três anos  num internato católico, em Viseu, desencantado com a vida e com o sistema de ensino, resolve abandonar o liceu. No entanto nunca abandona o estudo.  Aprende autodidacticamente o Alemão, aprofunda os seus conhecimentos de Francês, bem como alguns princípios da língua latina. Lê, lê sem descanso: os surrealistas, a Geração de 27, Mário de Sá-Carneiro, Beckett, E. M. Cioran, Krolow, Homero, Goethe, Hölderlin, Schiller, Cesariny, Kafke e por aí adiante. Dedica-se também, ferverosamente, ao estudo da filosofia, mas uma filosofia viva. Lê os clássicos, mas ama, sobretudo, o poeta/ filósofo Nietzsche, o qual lera pela primeira vez com a idade de 16 anos : "A Origem da Tragédia" e o existencialista Karl Jaspers.

Mais tarde abandona Portugal rumo à Alemanha, pais onde se encontra hoje radicado.

http://oarcoealira.blogspot.com/

 

 

 

 




 



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