::::::::LUÍS COSTA::::::::
Variações sobre a poesia IV

«Le poète transforme indifféremment la défaite en victoire, la victoire en défaite,
 empereur  prénatal seulement soucieux du recueil de L’azur. « 

                                                                                                             René Char

Nós não acreditamos na massificação nem da arte, nem da poesia, talvez sejamos até daquelas poucas pessoas que ainda acreditam, a pés juntos, na magia e no poder “ absurdos “ da poesia, ou que, antes de tudo, se consideram súbditos da poesia, isto porque a poesia não é para nós um jogo ou um caso de publicar um livro ou não, mas antes uma coisa ontológica, uma entrega de corpo e alma, a nossa biografia, o nosso modo de ser e existir - nós no mundo - de ver as coisas ao excesso da luz.

Há quem diga que os poetas não têm biografia, pela nossa parte consideramos o contrário, o poeta tem e terá sempre uma biografia, a sua poesia, nem mais nem menos. Nela, máscara e essência, máscara e identidade, máscara e carne, eu e o outro eu e ele são uma e a mesma coisa. A poesia realiza dentro do mágico triângulo do poema aquilo que eu chamarei o NÓS:  dentro do círculo do poema o leitor e o poeta deixam de existir como eu subjectivos, tornando-se nesse maravilhoso NÓS que tudo une e reúne.

Só o poeta se responsabiliza pelo “ Eu “. Só ele pode falar em seu próprio nome, só ele tem plena autorização para isso. “ (Emil Cioran)

Isto não significa, contudo, que o poeta se utilize da poesia como uma forma de confissão. Bem pelo contrário, a poesia é a biografia do poeta universalizada, ou seja, integrada no mundo, no homem e no cosmos. A essência do poeta encontra-se de tal modo imersa em poesia que não é possível discernir entre o EU e o todo. O poeta desce ao fundo de si mesmo, esquecendo-se de si mesmo. E por meio do cântico poético ele aniquila toda a sua subjectividade. A aliança entre o homem e a natureza fica selada. Por este modo o poeta pertence ao mundo e por isso sente-se todos, é tudo e todos, é uma partilha universal, como o nosso velho sempre jovem Rimbaud já dizia: “ é um verdadeiro ladrão do fogo.” Mas o poeta nunca se deve usar da poesia ele deve, antes e acima de tudo, ser o seu humilde servidor.
   
Contudo temos reparado que a poesia tem vindo a perder muito do seu espírito rebelde e jovem, porquanto a maior parte dos poetas tende cada vez mais a ver nela um lugar de ostentação para uso pessoal de intelectualismos empolados, de concepções e teorias muito aristocráticas, um bom perfume próprio para palcos e lacaios, quase um estatuto de luxo.

E, como noutros campos, também actualmente a poesia é cada vez mais lida não pela obra em questão, mas sim pelo nome do autor. O currículo é colocado à frente da obra. De facto, uma grande parte dos leitores lê, não pelo interesse da obra em si, mas simplesmente porque o autor é conhecido e reconhecido pela crítica, sobretudo, pela domesticada. Critica demasiado seguidora de procissões com os seus santos padroeiros, rebanho e tudo mais. É o tempo do barbarismo literário em que não interessa o poeta em si, mas aquilo que se escreve sobre ele e a obra. O crítico bem encartado e as irmandades é que têm a última palavra.

Podemos dizer que crítica poética se tornou numa espécie de aberração. Pois como o poeta e ensaísta Michael Hamburger no seu ensaio “ Die Dialekt de Modernen Lyrik “ repara:

“Na sua tentativa de seguir os passos da poesia, grande parte da crítica inteligente do nosso tempo tornou-se numa crítica em nome da própria crítica. „ E um pouco mais adiante: “ Em vez de tentar mediar entre a obra e um público não especializado, a crítica tornou-se ela mesma num caso especializado e por vezes ainda mais complexa do que a própria poesia moderna. “ Quer dizer a crítica passa, em grande parte dos casos, a não ter como objecto central a obra estudada, mas antes, ela remete, partindo dessa obra estudada, as atenções sobre si mesma, usa-se da poesia para uso próprio. E, sobretudo, devido à sua complexidade, em vez de simplificar a obra estudada, pelo contrário, complica-a. Outro reparo que Hamburger faz nesse mesmo ensaio é o facto de que, enquanto o poeta raramente consegue viver graças à sua produção poética, já o crítico o consegue (o poeta incluído, pois muitos poetas também se dedicam à crítica). A verdade é que muitos dos críticos vivem hoje da sua produção crítica sobre poesia.

Interessante será ainda repararmos que aqueles jornais e revistas de maior relevo, e a maior parte dos críticos de grande nome (tirando alguns), falam sempre, ou quase sempre, dos autores institucionalizados, esquecendo-se que há outros poetas (autores) talvez tão bons ou melhores do que os tais institucionalizados. Mas é claro que num mundo em que o valor primordial assenta no lucro, um autor premiado e com nome é sempre uma boa aposta.

Como a minha avó, que não sabia ler, muito sabiamente dizia: neste mundo cada um puxa a brasa à sua sardinha. Pois que assim seja: evoé!

Ora, para nós, a poesia encontra-se para além de todas essas institucionalizações e poetas institucionalizados. Ela será sempre um grito de juventude, genésico, mas ao mesmo tempo arcaico, aquele grito livre e cósmico que jamais poderá aceitar condicionalismos de ordem alguma. Um verdadeiro Hurrikan (Deus do vento), o cântico do mundo, de tudo quanto existe, lugar celebrativo, onde realidade e imaginação, dor e alegria se tornam palavra, a palavra poética, lugar onde não se perde a memória, onde:

“O que fica
 É fundado pelos poetas.” (Hölderlin)

A poesia explica o mundo sem necessitar de recorrer a exegeses de tipo ensaístico (por isso transcende a filosofia, é a sabedoria maior), como aquele em que se fala dos poetas para uso alheio, e se esquece a sua poesia. A poesia, tal como a vida, não tem o dever nem de defender nem de provar ou esclarecer alguma coisa:

“A poesia degenera a partir do momento em que permite a entrada de profecias e doutrinas: missões sufocam o cântico, ideias impedem o voo” (Cioran).

 Ela é ela própria.
   
A poesia (sobretudo a moderna) acontece antes de qualquer interpretação, acontece na leitura directa, naquele exacto momento em que o leitor se entrega carnalmente ao poema.

“Um bom leitor é, antes de tudo, sensível e curioso e sem pretensões. Durante o acto da leitura ele segue simplesmente a sua intuição “ (Edmond Jabés).

O verdadeiro leitor deve ser, antes de tudo, um poeta, descobrir a poesia em si, um criador ou re-criador. O resto são criticas e interpretações, deveras muito importantes, também, mas, talvez, mais para uso escolar ou para teses de doutoramento em literatura do que propriamente para a verdadeira compreensão do poema, que, como acabamos de dizer, nos é dada, de imediato, à sua primeira leitura; é nesse momento que o leitor sente em si a voz da poesia, a unidade com a palavra genésica, a poesia vivida a fogo vivo, o fogo do húmus primordial, e o recebe como uma dádiva, como uma luz ao fundo de um túnel. É claro que isto exige da parte do leitor uma entrega sem qualquer género de restrições ou pretensões: uma entrega de corpo e alma.

O que mais nos agrada na poesia é a sua tendência para transcender e devastar as fronteiras e os valores das moralidades hipócritas. Ela põe a nu a existência, demonstra-nos a real falsidade dos profetas, dos políticos e de todo o tipo de ideólogos, sejam eles de que classes forem, a sua loucura doentia de poder e domínio, a sua tendência, por baixo da capa do cordeiro, para a tirania.

A verdade é que o homem, embora acreditando que é, jamais poderá ser senhor de alguma coisa. E a poesia testemunha isso: ela mostra-nos claramente que a vida, ou o mistério do ser não se compadece com os homens, que ela segue o seu próprio curso, e as suas próprias leis, liberta de todos os conceitos de moralidades egocêntricas. Por este modo a poesia é a voz da revolta contra o pensamento estreito dos homens, o contínuo movimento, ou seja, a liberdade absoluta. E por isso, quando lemos um poema, é-nos dada a possibilidade de experimentarmos o conceito de eternidade. Esta eternidade é o Grande Mistério, aquilo que racionalmente nos fica interdito, mas que, poeticamente, por meio da nossa sensibilidade (do amor) podemos conhecer. René Char diz-nos que:

Se habitarmos um relâmpago,
Ele é o coração da eternidade. “

O poema é esse poderoso relâmpago.
   
Nem mártires nem pregadores de belas moralidades, nem tiranos ou fanáticos: A poesia é a voz do ser, como tal jamais poderá seguir as ortodoxias humanas. Ela traz em si o prazer do santo ócio, a pureza genésica, o malicioso e doce desprezo pelo tempo histórico. Puramente artística, portanto anti-moral, sem qualquer fim de ordem prática definido, ela segue o seu próprio curso num dinamismo vitalista. Dentro dela todas as ortodoxias se desfazem em cinza :

La poésie est son propre chemin, son unique but. Elle est le monde. „ (Adonis)

E parafraseando Cesariny dizemos: ainda que alguém a conseguisse encarcerar, ela viveria de tal forma que as próprias grades fariam causa com ela. Ela pode ser escrita por todos, e pode ser, também, mas verdade é que não é, para todos. Ela é um caso especial dentro do mundo da literatura e na sociedade, é uma marcha da palavra vertical, uma marcha pacífica e violenta da palavra primeira, do corpo diáfano do mundo, uma forma rebelde de não-aceitação do mundo capitalista e espiritualista usurário onde se compra tudo e todos. Ela usa-se de todas as palavras, sejam essas quais forem, não no sentido usurário, mas sim num sentido transfigurador. A poesia purifica as palavras de todo e qualquer uso de interesses materiais e conteúdos pejorativos. Por isso nela até os clichés se enobrecem, por isso nela até as mãos sujas de barro e vermes são puras. Ela é a palavra desinteressada por excelência. Ela é pura como o mineral mais puro. E aí reside precisamente a sua liberdade incondicional, o seu carácter rebelde, a sua potência miraculosa, nunca se deixando dominar, nem por moralistas, nem pelos operários da hipocrisia ou opressores da palavra. A poesia será sempre um punhal na alma de todos esses senhores, pois como Mário Cesariny justamente afirma:

o poeta
 o poeta
o poeta
destrói-vos.

Por isso a poesia será sempre uma higiene espiritual, ela aponta-nos o seu dedo cândido de luz, ela que tem como leito o mundo e como tecto as estrelas; e por isso também será sempre socialmente e literariamente marginal, mesmo ainda quando aceite pelas instituições mecanistas. E por isso mesmo o nosso respeito e amor, sobretudo, pelos poetas mais à margem e irreverentes, quer dizer, fora dos mecanismos rotineiros dos bons modos e correctos comportamentos da bela literatura, capazes de dizer: NÃO! E por isso também nem todos os que escrevem poesia e editam e falam muito sobre ela serão, a nosso ver, poetas, ou antes, serão, isso sim, escritores, belos escritores, talvez geniais escritores...

Pela nossa parte estamos de acordo com o poeta Al Berto quando este afirma que:

"Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e (que) isso os toque”,

Isso é o que o poeta deve esperar dos seus leitores, nem mais nem menos. Não interessa ser-se lido por um grande público, interessa isso sim, tocar-se e ser-se tocado por aqueles que nos lêem.

Quanto ao resto: fama, ou reconhecimento literário, prémios, ou por exemplo um lugar na história da literatura serão sempre coisas interessantes no plano económico e bálsamo para o ego, mas secundárias e irrelevantes para todo aquele que vê a poesia como um modo de estar no mundo.

O que aqui está em causa é a poesia, ela mesma. O homem como humilde trabalhador nos campos da poesia, inscrevendo-se nos ventos desse campo, ou seja, o homem universalizando-se, divinizando-se, despindo as roupagens principium individuationis, tornando-se poesia. E por isso o poeta canta:

" J'ai écrit mon identité
A la face du vent
Et j'ai oublié d'écrire mon nom.  (Adonis)

LUÍS COSTA, Züschen 14 de Abril 2009

Luís Costa nasce a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu. É aí que passa a maior parte da sua juventude. Com a idade de 7 anos tem o seu primeiro contacto com a poesia, por meio de  Antero de quental, poeta/ filósofo, pelo qual nutre um amor de irmão espiritual. A partir dai não mais parou de escrever.

Depois de passar três anos  num internato católico, em Viseu, desencantado com a vida e com o sistema de ensino, resolve abandonar o liceu. No entanto nunca abandona o estudo.  Aprende autodidacticamente o Alemão, aprofunda os seus conhecimentos de Francês, bem como alguns princípios da língua latina. Lê, lê sem descanso: os surrealistas, a Geração de 27, Mário de Sá-Carneiro, Beckett, E. M. Cioran, Krolow, Homero, Goethe, Hölderlin, Schiller, Cesariny, Kafke e por aí adiante. Dedica-se também, ferverosamente, ao estudo da filosofia, mas uma filosofia viva. Lê os clássicos, mas ama, sobretudo, o poeta/ filósofo Nietzsche, o qual lera pela primeira vez com a idade de 16 anos : "A Origem da Tragédia" e o existencialista Karl Jaspers.

Mais tarde abandona Portugal rumo à Alemanha, pais onde se encontra hoje radicado.

http://oarcoealira.blogspot.com/

 

 

 

 




 



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