LUÍS COSTA::::::::::::

Tríptico imperfeito

FÜR DICH

Depois, saio dos sonhos e caio no mundo das fábulas, na distância que nos une...

caio entre o istmo poderoso dos corcéis, caio, onde tu, meu amor, existes dentro da circunferência do mistério, onde tu, meu amor, me falas, me contas os segredos do mundo, os segredos que nunca chegam a ser segredos, pois entre nós não há segredos - tudo

é revelação.

Depois, nós moramos no círculo do equinócio, no sangue rejuvenescido, nas tardes das paredes em fogo, o deserto é o nosso caminho, o nosso caminho, mas um dia a fonte aparecerá, no centro dum oásis, e ali construiremos casas de pedra e cal, e ali seremos acolhidos como reis, meu amor, como reis num dia bíblico, enquanto a sarça crepita no chão.

***

Tamareiras! Frescas sombras! Tamareiras, meu amor. Lavo-te os pés com perfumados unguentos. A astúcia dos felinos ferve-me nas mãos. A túnica de astros escorrega-te dos ombros, amor... e o sangue purifica-se nos nossos lábios, no fogo dos dias, no élan vital que nos domina com as suas redes de espanto.

Amor, meu amor! Mergulhados no flash do instante somos o mundo...

Grito o teu nome no oráculo do vento, nas ânforas que transformam a água em vinho. E tu ris, meu amor, ris e corres por entre os vinhedos, e eu corro atrás de ti como uma casa crepitante ou uma música cósmica , vinda das grandes conchas marinhas.

 

A MÁSCARA

A minha vida é um golpe de tocha
na tarde queimada,
nasci de um sopro de Deus
do suor,
no barro violento,
na eterna secura do seu relâmpago

 

Trago em mim todos os pecados do mundo,
pois minha boca abriu-se para
receber o sangue de meu irmão
Trago na testa uma ferida aberta
como sinal

 

Sou rei,
sou escravo,
sou deserto,
sou casa

Habito os dias no quebrar das ondas
com o oceano da máscara

 

ENTWEDER - ODER

 

O fluxo negro do ribeiro correndo

para o tanque

salamandras translúcidas

folhas boiando na pele da água

miríades de mosquitos

embriagadas de luz matinal

 

Sentado

aqui, debaixo desta parreira,

sob um céu entrançado de folhas e arames,

um livro de história antiga na mão,

percorro o céu de um outro tempo

no mosaico de Issos,

em Pompei, Casa del Fauno:


Cavalos,

cavalos brilhantes,

Caindo,

outros aprumando-se

sobre as patas traseiras,

delirantes,

estrebuchando,

procurando o equilíbrio na terra ensanguentada

que lhes foge por baixo dos cascos...

 

E homens

furibundos,

gritantes,

arremessando o viril metal,

o brilho do sangue nos olhos,

a animalesca faísca da morte... 

Ah…! 

Ali,

naquele instante,

Só existe uma tormenta:

matar a sede do outro

ou beber do outro

o seu último húmus 

- o entweder-oder de Kierkegaard

 

Nota:

- com o mosaico de Issos, refiro-me ao famoso mosaico que representa a Batalha de Issos, travada em 333 a. C. e que pôs frente a frente os exércitos grego, comandado por Alexandre Magno, e o persa comandado por Dário III. Este mosaico foi descoberto durante escavações feitas em Pompeia, na chamada Casa do Fauno. Hoje encontra-se no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles.

- Entweder – oder quer dizer: Ou isso, ou aquilo

 

À ESPERA DOS BÁRBAROS

IN MEMORIAM ANTERO DE QUENTAL

Depois de uma leitura do poema de
Kaváfis, em tradução de Jorge de Sen
a:
" À Espera dos Bárbaros”

Não acredito nas vossas palavras,

Nas vossas belas palavras,

Vós, homens de belas bocas,

bem enfeitados homens,

Onde a lâmina cresce

obscura

pela falta de credível violência.

 

Acredito antes na terra e nos animais da terra,

No pulso de onde o sangue

corre

ainda puro e selvagem

como

a ferida no lábio de uma criança.

 

Não!

 

Demasiado bem vos conheço,

Demasiadas vezes vos ouvi

E vi...

E que descobri?

Uma torre

que de tão alta e grandíloqua

Já mal se segura.

 

Ó vós sacanas cegos!

prisioneiros mesquinhos das pequenas coisas:

Um pouco de politiquice aqui,

Um bom jantar ali

Um café

E lá mais para o meio da noite

Talvez, uma boa foda...

 

Um dia, outros virão ,

Outros,

Aqueles que vós chamais bárbaros...

Aqueles que entregues de corpo e alma

À vida,

De novo,

Serão capazes de ultrapassar

Os limiares...

De renovar a aliança...

 

Sim!

 

É dos bárbaros que precisamos,

do sangue jovem que pulsa nas veias

qual um mar furioso,

ou os cavalos de Aquiles,

à hora da morte de Pátrocolos,

fazendo tremer a terra.

*

L. C. MMIX

Luís Costa nasce a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu. É aí que passa a maior parte da sua juventude. Com a idade de 7 anos tem o seu primeiro contacto com a poesia, por meio de  Antero de quental, poeta/ filósofo, pelo qual nutre um amor de irmão espiritual. A partir dai não mais parou de escrever.

Depois de passar três anos  num internato católico, em Viseu, desencantado com a vida e com o sistema de ensino, resolve abandonar o liceu. No entanto nunca abandona o estudo.  Aprende autodidacticamente o Alemão, aprofunda os seus conhecimentos de Francês, bem como alguns princípios da língua latina. Lê, lê sem descanso: os surrealistas, a Geração de 27, Mário de Sá-Carneiro, Beckett, E. M. Cioran, Krolow, Homero, Goethe, Hölderlin, Schiller, Cesariny, Kafke e por aí adiante. Dedica-se também, ferverosamente, ao estudo da filosofia, mas uma filosofia viva. Lê os clássicos, mas ama, sobretudo, o poeta/ filósofo Nietzsche, o qual lera pela primeira vez com a idade de 16 anos : "A Origem da Tragédia" e o existencialista Karl Jaspers.

Mais tarde abandona Portugal rumo à Alemanha, pais onde se encontra hoje radicado.

http://oarcoealira.blogspot.com/

 

 

 

 




 



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