:::::::::::::::::::::LUÍS COSTA::::::::::::
O entusiasmo
O que conta é a pré-história, isto é, o tempo anterior à entrada na consciência,
na história, a vida inconsciente.
Emil Cioran

Emil Cioran é, apesar da sua filosofia de um niilismo radical, um dos grandes pensadores que mais me impressionaram e que li há uns anos atrás com grande paixão. Tenho a sua obra quase completa. No entanto devo dizer que não sou um niilista e que não concordo com muitas das suas ideias. Mas muitas das vezes são precisamente os niilistas e aqueles com quem não concordamos que nos levam a ver certas realidades que sem eles não seríamos capazes de descobrir.

Como que de propósito encontrei hoje uma tradução com alguns dos trechos mais importantes da última entrevista de Cioran (dada, em Junho de 1995, poucos meses antes de morrer, ao escritor alemão Heinz-Norbert) na revista digital Triplov. Esta tradução foi feita do espanhol para o brasileiro por Reynaldo Damazio.

Interessante, no meio de tudo isto, é que num poema que escrevi, precisamente ontem, com o título “ Sinfonia Outonal “descobri, ao relê-lo, que há nele uma certa analogia com aquilo que Cioran afirma na sua primeira resposta à pergunta:

“ Qual o significado de sua vida na Roménia, de sua infância? “

(E isto embora eu não conhecesse esta entrevista e já tenham passado vários anos desde a última vez que li Cioran.)

Responde ele o seguinte:

“A Roménia foi um paraíso terrestre, isolado de tudo e cercado de escravos. Só ia para casa para comer e dormir, senão passava o tempo todo fora, ao ar livre, muito simples. A metade do povoado vivia nas montanhas, nos Cárpatos. Eu tinha amizade com os pastores e gostava muito deles. Era um outro mundo, além da civilização. Talvez porque viviam em um país de ninguém, sempre de bom humor, como se todos os dias fossem dias de festa. O começo da Humanidade não deve ter sido tão ruim, segundo eles. *

Embora o meu poema fale de saudade, ele não tem propriamente nada a ver com aquilo que no dia-a-dia se chama saudosismo. Aquela saudade não é bem uma saudade do tempo passado, do envelhecimento, ou da nostalgia de ter perdido algo ou alguém, ou seja, é também um tempo passado, mas anterior ao momento em que descobrimos a cultura e entramos deste modo no círculo causal da História (a meu ver, e nisto concordo com Cioran, foi a partir deste momento que perdemos toda a nossa pureza), isto é, aquela saudade é a saudade de um tempo primário, do tempo em que pertencíamos à criação, do começo da humanidade, em que éramos unos com o Ser, daquela pré-história de que Cioran numa outra resposta também fala, pré-história essa em que ainda não nos tínhamos tornado donos de nada, em que habitávamos ” o “ país de ninguém “, e em que por isso ainda vivíamos em plena harmonia com a natureza.

Hoje apossamo-nos de tudo e até já estamos em vias de nos apossarmos da lua e talvez também de Marte. Seja com a espada ou com o cifrão somos os grandes conquistadores!

Infelizmente, sejamos jovens ou não, encontramo-nos fora da natureza, pois que quebrámos o elo sagrado que nos unia ao todo e por isso encontramo-nos igualmente em plena batalha contra ela.

Contudo, a meu ver, a saudade da aliança primordial ou genésica, que é uma necessidade maior humana, talvez possa ser, se não totalmente, pelo menos, parcialmente, colmatada por meio de um possível presente contínuo. Ou seja, se procurássemos aprender a ver o mundo como quando éramos crianças, no momento da ausência do “ homem “, pois que como Cioran também nos diz “O paraíso é a ausência do homem “, a ausência do homem predador, do indivíduo fanático e impostor, que tem gosto em dilacerar o seu semelhante, e que está em vias de destruir o seu Habitat natural em nome do poder e, assim, também a si próprio Este homem em nós, separa-nos dos outros homens, isola-nos “ faz com que não saibamos nunca a quem nos dirigirmos.”

Com a iluminação dos olhos da criança, da sua luz cristalina, pela voz da poesia, talvez fôssemos capazes de olharmos cada coisa que nos rodeia com entusiasmo (inspirados, repletos de Deus) e poderíamos assim até certo ponto regressar a esse período a-histórico, onde conhecíamos: a pureza da língua e dos gestos, a casta luz do mundo.

Infelizmente a nossa sociedade ocidental moderna, de barriga farta, desejosa de poder e prazer fácil onde já não há lugar para mistérios nem encantos, onde já não sabemos abdicar, onde o ego está no centro, onde tudo tem um fim usurário e material, onde os próprios políticos elevam a livre circulação de capital a valor maior em detrimento do bem-estar do homem, está cada vez mais a perder essa bela capacidade de se entusiasmar.

O vocábulo “ Entusiasmo “, tal como a sua experiência, é uma palavra maravilhosa, uma das palavras mais fortes e belas do nosso léxico. Morgenstein dizia:

„Enthusiasmus ist das schönste Wort auf der Erde.“

Esta palavra tem as suas origens no grego, e passou para o português por meio do latim e significa nem mais nem menos do que: ( ἔ νθεος , éntheos,) “ repleto de Deus “, ou “ em Deus”, ou ainda “ inspirado. „ “ Theos “significa em grego Deus. “ Én “ significa: em

Portanto o entusiasmo é uma possibilidade inata, uma possibilidade de reencontro com a inspiração divina, com a fonte, com o milagre da criação, que é Deus (não dogmático, portanto de todos os homens) e também com nós mesmos e com os outros.

O entusiasmo é, de facto, uma grande oportunidade, a sabedoria de sermos convivas no banquete universal, e de por meio da linguagem, que nos foi dada, podermos cantar e evocar esse grande banquete, e podermos dar graças por nos encontramos aqui e agora presentes, por sermos testemunhas deste grande milagre, por podermos saudar o Sol em cada nova manhã.

Durante o momento em que o homem se encontra possuído pelo entusiasmo, ele compreende tudo sem necessitar de dissecar ou dividir, ele tem acesso ao todo, à grande sabedoria, à sabedoria do pó, de um riso luminoso. Por este modo, por meio do cântico poético, entusiástico, podemos matar a nossa sede de unidade e infinito, podemos voltar a entrar no paraíso, podemos ser puros como todas as coisas que nos rodeiam, podemo-nos tornar de novo Adão e Eva, antes do pecado original.

O que terá sentido aquele homem da caverna de Platão, quando se conseguiu ver livre das correntes que o aprisionavam e que o tornavam uma sombra na parede, e pode ver, finalmente, claramente visto, pela primeira vez, a luz do sol? Ora, a meu ver, certamente, nem mais nem menos do que: ENTUSIASMO!

* A filosofia irritada - última entrevista com Cioran; Escrito por Reynaldo Damazio

Texto publicado no site Triplov:

http://www.triplov.com/Filosofia/Cioran/Filosofia-irritada.htm

Luís Costa. Escritor português, nascido a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu.
 

 

 

 




 



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