:::::::::::::::::::::LUÍS COSTA::::::::::::

CÂNTICO PARA SULAMITE
(Depois de uma releitura dos Cantares de Salomão)

SULAMITE - INDEX

Foi nas recâmaras do Senhor que te conheci,

foi ali que beijei os teus lábios de fino escarlate, foi ali que

inventámos palavras nunca antes ditas, palavras interditas,

foi ali que bebemos do amor, melhor do que o melhor vinho

O teu rosto era um pedaço de romã

e as tuas tranças lembravam os rebanhos de Jacob

 

No rio que atravessava aquela terra

o cedro do Líbano erguia-se em gestos de luz inaugural

E os barcos de papel singravam

rumo ao outro lado do mundo, para lá do pôr-do-sol,

era o nosso coração

ávido de descobrir a vida, ávido de chamas...

 

Crianças corriam pelos laranjais

Debaixo da grande romãzeira dávamos graças ao senhor...

E bebíamos do mosto das suas romãs

e olhávamos as caravanas que de longe chegavam

e a terra crescia e crescia, já quase chegava ao céu...

E adormecíamos, lado a lado, ao som da cítara de David

 

Ó mais formosa entre as mulheres!

Foi ali, no teu colo, que ri até mais não poder ,

foi ali, no teu colo, que chorei trevas e punhais

Bem - aventurado aquele tempo!

Bem - aventurada a terra dos nossos pais!

Os frutos, tão doces! O leite e o mel, tão saborosos!

 

Agora, antes de regressar ao silêncio do mar,

ao universo dos seus búzios quebrados

por um momento olharei para trás

por um momento reverei o teu rosto moreno

os favos de mel que emanavam da tua língua

os teus braços cheios de pulseiras e as tuas coxas entregues...

 

e num último suspiro ver-me-ei  

passear pelos jardins

e pelos campos, e pelas ruas ladeadas de casas brancas

 

 

Luís Costa, Züschen MMVIII

Luís Costa nasce a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu. É aí que passa a maior parte da sua juventude. Com a idade de 7 anos tem o seu primeiro contacto com a poesia, por meio de  Antero de quental, poeta/ filósofo, pelo qual nutre um amor de irmão espiritual. A partir dai não mais parou de escrever.

Depois de passar três anos  num internato católico, em Viseu, desencantado com a vida e com o sistema de ensino, resolve abandonar o liceu. No entanto nunca abandona o estudo.  Aprende autodidacticamente o Alemão, aprofunda os seus conhecimentos de Francês, bem como alguns princípios da língua latina. Lê, lê sem descanso: os surrealistas, a Geração de 27, Mário de Sá-Carneiro, Beckett, E. M. Cioran, Krolow, Homero, Goethe, Hölderlin, Schiller, Cesariny, Kafke e por aí adiante. Dedica-se também, ferverosamente, ao estudo da filosofia, mas uma filosofia viva. Lê os clássicos, mas ama, sobretudo, o poeta/ filósofo Nietzsche, o qual lera pela primeira vez com a idade de 16 anos : "A Origem da Tragédia" e o existencialista Karl Jaspers.

Mais tarde abandona Portugal rumo à Alemanha, pais onde se encontra hoje radicado.

 

 

 

 




 



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