:::::::::::::::::::::LUÍS COSTA::::::::::::
POEMA PARA SESBASTIÃO ALBA

Recordas-te dos galopes claros?

Era à beira da água

As tardes recolhiam-nos

diáfanas

Por entre os castanheiros

e as laranjeiras

a noite descia

redonda

uma laranja com diamantes

por cima

E no fundo do ribeiro

as estrelas coravam

E por de trás do coaxar da rãs

acordavam-se tempos

extensos e elásticos

Os peixes saltavam à nossa roda

girândolas de fogo

todas carnais

De vez em quando

deus passeava

por ali

como nos tempos bíblicos

passeava por ali:

todo nu

sim todo nu

Um sorriso emoldurava-lhe

as longas barbas

brancas

talvez

ou

talvez não

Mas isso pouco nos importava

pois a tarde tinha-nos vestido

com o pó da luz

com a invulnerabilidade

dos rebanhos e seus puros

pastores

E nus

como as pedras

mergulhávamos as mãos

na lua

e assim

víamos os nossos próprios ossos

boiando à tona da água

boiando e boiando…

 

E dos espelhos da terra

jorrava

uma antiga melodia

 

 

Luís Costa, Züschen 2008

Luís Costa nasce a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu. É aí que passa a maior parte da sua juventude. Com a idade de 7 anos tem o seu primeiro contacto com a poesia, por meio de  Antero de quental, poeta/ filósofo, pelo qual nutre um amor de irmão espiritual. A partir dai não mais parou de escrever.

Depois de passar três anos  num internato católico, em Viseu, desencantado com a vida e com o sistema de ensino, resolve abandonar o liceu. No entanto nunca abandona o estudo.  Aprende autodidacticamente o Alemão, aprofunda os seus conhecimentos de Francês, bem como alguns princípios da língua latina. Lê, lê sem descanso: os surrealistas, a Geração de 27, Mário de Sá-Carneiro, Beckett, E. M. Cioran, Krolow, Homero, Goethe, Hölderlin, Schiller, Cesariny, Kafke e por aí adiante. Dedica-se também, ferverosamente, ao estudo da filosofia, mas uma filosofia viva. Lê os clássicos, mas ama, sobretudo, o poeta/ filósofo Nietzsche, o qual lera pela primeira vez com a idade de 16 anos : "A Origem da Tragédia" e o existencialista Karl Jaspers.

Mais tarde abandona Portugal rumo à Alemanha, pais onde se encontra hoje radicado.

 

 

 

 




 



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