:::::::::::::::::::::LUÍS COSTA::::::::::::
O LIVRO EXUMADO
(XLIV POEMAS) - Index
A pomba bíblica

Pios,
     gritos,
             rumores ancestrais,
chilreios desfazendo-se em luz,
crianças de rostos cristalinos,
o centro da praça clara,
encontro dos velhos a horas esquecidas,
contos de vidas passadas:
aventuras,
            desventuras,
                          alegrias,
                                    tristezas,
o riso claro das raparigas de grandes olhos
através dos quais o mundo mostra o
outro lado do mundo,
a noite enleando-se-lhe aos cabelos
como luares há muito esquecidos,
 miosótis
entre  pelourinhos desmontados,
a noite e os bisontes dos cereais
abrindo brechas no azul,
no sol que cai a pique,
dardo ou flecha na carne,
no dorso de hercúleos minotauros,
relâmpagos de cereais a boas horas
 colhidos,
relâmpagos imensos,
 incensos
na noite dos corações que acordam
do seu despertar supérfluo
e descobrem a nudez das coisas,
a sua chama sagrada,
o encanto dos bosques de Züschen
à volta do castelo mediaval,
a fonte escura
onde outrora
 mulheres e homens de cabelos vermelhos
 arderam,
a águia minando o espaço com
asas de raios ultravioleta,
a clareira que se abre,
 de súbito,
e se afirma um buraco no céu
e se eleva,
espiral giratória,
já clarão,
até ao confim dos astros
  Ah!
Astros relinchantes,
a minha voz filha da vossa voz,
um ave!
um cântico,
um hino sagrado,
o meu sangue,
cinza de estrelas de um qualquer segredo
indesvendável,
como a paz pelos campos de Ceres,
e ovelhas e cabras
aos saltos e cambalhotas,
como a charrua desbravando a terra
e flores que me crescem na carne,
enormes fontanários,
o centro do mundo jorrando em mim,
nas minhas vísceras despojadas de mim,
o véu de Maia,
por fim,
explodindo girândolas,
incêndio voraz no tronco de jovens faias
que se pesam na balança das brisas matinais,
que entra pela loja de ferragens adentro,
pela forja do Helmut,
e é um redemoinho na Kneipe,
o milagre da cerveja,
a grande nova,
e faz com que os homens corram
para o centro da praça
e as mulheres se tornem ainda mais doces,
abelhas num jardim em expansão,
enquanto os lagartos as espreitam
pelos buracos do muro branco
e lambem as rosas do dia,
já vermelho de penumbra,
e a pomba bíblica aparece,
 de súbito,
               vinda do nada

Para que o mundo adormeça
                                 no silêncio da água.

Luís Costa nasce a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu. É aí que passa a maior parte da sua juventude. Com a idade de 7 anos tem o seu primeiro contacto com a poesia, por meio de  Antero de quental, poeta/ filósofo, pelo qual nutre um amor de irmão espiritual. A partir dai não mais parou de escrever.

Depois de passar três anos  num internato católico, em Viseu, desencantado com a vida e com o sistema de ensino, resolve abandonar o liceu. No entanto nunca abandona o estudo.  Aprende autodidacticamente o Alemão, aprofunda os seus conhecimentos de Francês, bem como alguns princípios da língua latina. Lê, lê sem descanso: os surrealistas, a Geração de 27, Mário de Sá-Carneiro, Beckett, E. M. Cioran, Krolow, Homero, Goethe, Hölderlin, Schiller, Cesariny, Kafke e por aí adiante. Dedica-se também, ferverosamente, ao estudo da filosofia, mas uma filosofia viva. Lê os clássicos, mas ama, sobretudo, o poeta/ filósofo Nietzsche, o qual lera pela primeira vez com a idade de 16 anos : "A Origem da Tragédia" e o existencialista Karl Jaspers.

Mais tarde abandona Portugal rumo à Alemanha, pais onde se encontra hoje radicado.

 

 

 

 




 



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