:::::::::::::::::::::LUÍS COSTA::::::::::::
A arte ou a unidade

Prezado amigo, lembra-te: a Arte é uma das maiores vitudes da humanidade, diria mesmo, a maior. Antero de Quental chamava-a santa. Dizia ele que:

A Arte é a coisa mais santa da humanidade. Entre o sentimento religioso, apaixonado mas confuso e ilusório, e a Ciência, luminosa e segura mas fria, há uma região serena e clara aonde a transparência do ar consente aos olhos do espírito perceber a correcção inteira de suas linhas, a forma puríssima da Verdade, sem que por isso o coração bata com menos força, sem que por isso deixe de crer de amar e de ser vivo. ( 1 )

De facto, só por meio da Arte ou da ascese se pode compreender a essência do universo.

Esta compreensão é uma compreensão que transcende os princípios da lógica racional. Pois que nos é revelada pela sensibilidade. A contemplação de uma obra de Arte, o mergulho nela, leva-nos a reconhecer e a compreender que: Tudoestá no Um e o Um está em todos. O universo, embora sendo variedade, é , como a própria palavra diz: Uno.

O universo, ou pelo menos os símbolos desse Universo, revelam-se-nos, por meio do artista, na obra de arte. O artista é, entre todos os homens, o filho mais próximo da Natureza. Ele ainda tem acesso aos mistérios do Cosmos e da Natureza. E é precisamente por isso que, para Goethe:

a Natureza é bela quando se parece com a Arte e a Arte é bela quando se parece com a Natureza.

Nela também a Ciência e a Religião se encontram em plena sincronia, são elementos que se complementam e fazem do homem um ente digno do Ser.

No mundo da Arte o espírito na sua ( aparente ) dupla forma – Alma e Natureza – realiza-se no grau mais subido a que podem chegar as faculdades humanas. ( 2 )

A simbiose entre o eu e o outro, ou entre o homem e a natureza, só é possivel quando a entrega é total, ou seja, é necessário que o eu esteja disposto a anular toda a sua vontade individual, o seu narcisismo; disposto a partilhar e a reconhecer-se como uma parte do todo e por isso, também, todo; a reconhecer que não é ele o centro, mas antes que o centro se encontra em toda a parte.

Segundo Immanuel Kant, a Arte é um prazer desinteressado, um prazer de partilha. O sentimento com que ela invade o coração dos homens, não é senão aquilo que produz um prazer universalmente partilhado. A arte é, deste modo e, sobretudo, entrega e partilha. Ela não precisa de posse material, é desinteressada, e é exactamente por isso que ela pertence ao domínio do Ser, ou seja, está em plena consonância com o Ser. Por meio dela, o homem tem acesso aos fundamentos da sua verdadeira condição existencial.

Ao qualificar a Arte de prazer desinteressado, Kant pretende com isto dizer-nos que a Arte é a coisa mais pura ( Antero diria santa ) que o homem tem à sua disposição. De facto, nela não existe aquilo que leva o homem a praticar o bem ou o mal: o interesse, isto é, o desejo de domínio e muitas vezes de destruição do outro. Ela encontra-se para além de bem e mal, ou seja, nela não podem ser aplicados os princípios da moral.

Ora a vida prática jamais permite isso. A vida prática precisa de regulamentos, ou seja, de princípios morais, dado que por trás de tudo quanto se faz está a vontade, um interesse prático e egoísta: O eu encontra-se sempre em primeiro lugar  acima de tudo e de todos os outros .

ComoThomas Hobbes nos diz, e com razão: Homo homini lupus.

Este interesse, este egoísmo, este desejo de posse canina, interpõem-se constantemente entre o eu e o outro, entre o homem e a natureza, criando contenções e permitindo também, algumas vezes, aproximações , mas nunca a sua conciliação total. O homem torna-se por este modo no filho pródigo, no Édipo desterrado, no deslocado, no eterno Caím.

No momento da criação de uma obra de arte, porém, o artista esquece o seu eu e torna-se no outro e do mesmo modo o outro esquece-se dele e torna-se em eu. Deste diálogo, isento de dialéctica à maneira Hegliana, nasce precisamente a obra de arte, que é a síntese perfeita de todos os dualismos que perseguem a nossa consciência no dia dia, mas que, ao fim e ao cabo, são simples quimeras, pois que só existem na nossa consciência. Por isso a arte sobrepõe-se à filosofia. Ela não ama, como esta, a sabedoria, ela é, isso sim, a própria sabedoria primeira .

No universo da Arte o homem não é determinado, nem materialmente, nem intelectualmente. Ele é , sobretudo, livre, incondicionalmente livre: só neste espaço ele compreende realmente o que é a liberdade.

Por meio da obra de arte pode atingir-se assim o princípio do uno primordial, ou seja, o momento pré-natal em que ainda não existia o princípio de individuação.

Aquilo que aconteceu ao autor de uma obra durante o acto de criação da mesma, diálogo entre o eu e o outro, que tem como clímax a fusão dos dois, vai exactamente repetir-se durante a leitura de um livro ( acima de tudo na poesia ) da audição de uma peça musical, de uma peça de teatro, ou da contemplação de um quadro ou de qualquer outra forma de arte: o leitor, o ouvinte, o espectador ou admirador vão travar um diálogo contemplativo com a obra que tem à sua frente. Durante esse momento eles esquecem-se de si mesmos e encarnam no outro (obra), acontecendo com o outro ( obra ) a mesma coisa. Eles recriam a obra e recriam-se nessa obra. Portanto, neste momento de pura contemplação e esquecimento, todo o querer é abolido, já que existe uma entrega recíproca, uma verdadeira osmose, acontecendo assim que o eu ( egoísmo, narcisismo ) e o outro foram anulados e se encontram, agora, em plena unidade: o sujeito e o objecto são o mesmo, o poeta é simultaneamente leitor, actor e espectador, ou seja, a síntese pré-natal está consumada. O homem atinge assim o lugar-essência. Lugar do vazio no vazio. O lugar-não-lugar. Ele encontra-se de novo re- integrado na natureza , ele compreende e fala agora a língua dos deuses, das pedras e dos animais.

Como Friedrich Hölderlin diz:

A arte é a flor; a consumação da natureza. A natureza só se pode divinizar por meio da ligação à heterógenea, mas harmoniosa Arte. Quando cada coisa é a totalidade, que pode ser, e cada um se liga ao outro, corrige a falha do outro, que este necessariamente tem de ter, para que se torne todo, que com a sua peculiaridade pode ser, então atinge-se a perfeição, e a divindade encontra-se no centro de ambos. ( 3 )

A Arte actua, desta maneira, como um processo trinitário. Ou seja, ela é o vaso comunicante, ou médium pelo qual objecto e sujeito, eu e tu, eu e o outro, interior e exterior, homem e natureza, cima e em baixo se reconhecem, religam e transformam num imenso e divino: NÓS.

Agora o indivíduo sente-se purificado, é filho do fogo, do divino centro, do abismo mais profundo do ser. Livre de todas as suas grades, ele percorre o mundo, ele é a própria Arte, o mundo como obra de arte. A Arte salva-o, e, mediante a Arte, a vida recupera-o. ( 4 ) E como também Kant diz: A arte perfeita torna-se de novo natureza. ( 5 ) Quer dizer, por meio da Arte o homem liberta-se da sua terrível solidão existencial e encontra-se assim, de novo, reintegrado no todo: o Deus, a Natureza e o Homem são agora Três no Um e Um no Três. O filho desterrado e o filho pródigo regressam a casa, e são recebidos com cânticos de alegria, de braços abertos, e taças tranbordando de vinho novo.

Este estado de liberdade total, purificação e identificação com o todo, podemos compará-lo àquele que os antigos gregos experimentavam durante a sua tragédia ática: A catharsis.

Sim, prezado amigo, esta é de facto a grandeza de toda a grande arte: dar possibilidade ao Homem de, nem que seja por um curto momento, ou um relâmpago-nada, experimentar a felicidade, a catharsis, a comunhão com o todo, reconhecer a verdade do grande princípio universal: a unidade de tudo quanto existe que, infelizmente, a nossa consciência dialéctica , a ciência relativista e o nosso egoísmo pragmático, exacerbado e materialista, do dia a dia, tendem cada vez mais a dilacerar.

Origem das citações:

1- Antero de Quental, A ARTE E VERDADE; Editorial Verbo, Lisboa/ São

Paulo, 1990; Colecção: PENSAMENTO PORTUGUÊS; introdução e selecção de

textos de Maria Moog Rodrigues.

2- Antero de Quental, ibidem

3- Friedrich Hölderlin, GESAMMMELTE WERKE, Fischer Klassik, Fischer

Taschenbuch Verlag GmbH, Frankfurt am Main, Mai 2008, pág. 560: GRUND

ZUM EMPEDOKLES. Esta passagem foi traduzida por mim.

4- Frederico Nietzsche, A ORIGEM DA TRAGÉDIA, Guimarães Editores, 1996,

7. edição

5 – Immanuel Kant , DENKEN MIT KANT; ein philosophisches Lesebuch, Insel

Taschenbuch,erste Auflage 2004, pág. 146. Tradução da minha autoria.

L.C., Züschen 2008

Luís Costa. Escritor português, nascido a 17 de Abril de 1964 em Carregal do Sal, distrito de Viseu.
 

 

 

 




 



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