:::::::::::::::::::::LUÍS COSTA::::::::::::
Sobre o espírito surrealista

Sentado aqui no fim do mundo, na minha solidão de poeta inconsolado, resolvo reler o "Primeiro manifesto do Surrealismo", da autoria de André Breton, dado a lume em 1924. Fico maravilhado com o que releio. Por exemplo com esta passagem:

"Vivemos ainda no reinado da lógica, eis, bem entendido, a onde eu queria chegar. Mas os processos lógicos, dos nossos dias, só se aplicam à resolução de problemas de interesse secundário. O racionalismo absoluto que continua na moda só permite considerar factos de pequena relevância da nossa experiência. Os fins lógicos, ao contrário, escapam-nos. É inútil acrescentar que à própria experiência foram assinalados limites."

Este manifesto. com mais de oitenta anos, escrito entre as duas grandes guerras, não perdeu nada da sua vitalidade, validade e actualidade. Ele bem que poderia ter sido escrito nos dias de hoje. Visto que nele se reflecte um descontentamento radical com o espírito do homem e da sociedade daquele tempo, um espírito tecnocientífico, que se havia tornado numa palhaçada hipócrita e que bem poderemos comparar ao espírito da nossa sociedade contemporânea, já que se lhe iguala em muitos dos seus aspectos negativos. Porém o primeiro manifesto do surrealismo não deve ser visto como um ponto de chegada, mas sim como um ponto de partida, como um elevador que nos poderá levar até aos maravilhosos aposentos do espírito surrealista.

Numa carta dirigida a Cesariny , António Maria Lisboa dizia:

"A Surrealidade não é só do Surrealismo, o Surreal é do Poeta de todos os tempos, de todos os grandes poetas."

De facto, embora tenha havido um movimento histórico surrealista organizado, (balizado pelas duas grandes guerras), o espírito surrealista, porém, abarca e ao mesmo tempo ultrapassa, no meu modo de ver, as fronteiras desse esplêndido movimento, encabeçado por Breton, já que o espírito surrealista sempre existiu, basta olharmos para um quadro de Hieronimus Bosch ou lermos uma "Divina Comédia" de Dante, e continua a existir. O espírito surrealista é, antes de tudo, uma energia liberta de todas as convenções e hipocrisias políticas e sociais. O espírito surrealista é uma vibração cósmica, que vive em todas as coisas, que se pode encontrar nas coisas mais insignificantes do dia a dia. O espírito surrealista é a revolução permanente, inesgotável, que se renova a cada passo, que por isso jamais poderá ser um servidor do Ter mas sim um apaixonado do Ser.

O espírito surrealista é uma pulsão de liberdade total, sem quaisquer compromissos, que vem das profundezas mais recônditas do ser, que se despoleta, puro, ontológico, sem interesses, sejam estes de ordem estética ou de ordem moral. O espírito surrealista é um grito que quer deitar por terra todas as torres de uma sociedade mesquinha, sem imaginação poética e mentirosa. Por isso como Eluard diz:

Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira,
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam
Demasiado baixo ( 1 )

Toda a grande arte se encontra, para além dos estilos e escolas ou modas que esta possa seguir, imbuída deste espírito surrealista, pois que toda a grande arte parte, antes de tudo, de um sentimento de revolta interior contra o cancro do "ter" e do racionalismo frio, contra uma sociedade mesquinha e vã que vê o mundo a partir de um prisma utilitarista, em que tudo traz a marca do cifrão. Toda a grande arte parte também do desejo da liberdade, da liberdade total e incondicional, em que o homem de todos os tempos se realiza em si mesmo como parte do todo, em que o homem é ao mesmo tempo pedra e sonho. Toda a arte traz, igualmente, em si, o sémen da magia, o êxtase dos xamanes e o ímpeto do amor, por isso o seu desejo de ligação com tudo quanto a rodeia, por isso todo o homem criativo prova da ambrósia do espírito surrealista e pode cantar em uníssono com Eluard :

Ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e a ignorância,
Que suprimes a ausência, e que me pões no mundo
Eu canto por cantar, amo-te para cantar
O mistério em que o amor me cria e se liberta ( 2 )

É na poesia lírica, acima de tudo, que este mistério do espírito surrealista melhor se consegue desdobrar. A poesia lírica poderá ser mesmo considerada a voz maior desse espírito, visto que ela nunca se deixa ( isto é inerente à própria poesia. Haverá algum poeta que tenha ficado milionário graças à sua poesia?) dominar pelo espírito do êxito pecuniário, pelo espírito do ter. Quanto a isto, diz-nos Harald Hartung :

"Os líricos são sem dúvida santos muito estranhos. Eles investem o seu suor numa coisa sem grandes perspectivas. Que se pode ganhar dinheiro e até ser famoso com outras profissões, já dever ser mais do que sabido."

A poesia lírica é, de facto, "o trabalho do espírito, sem ordenado, o fond perdu" ( Gottfried Benn ). Por isso talvez o poeta lírico não se deixe tão facilmente corromper como acontece, frequentemente, no caso dos romancistas, dos pintores, dos músicos etc., cujas profissões são em muitos dos casos bem renumeradas. E como bem se sabe, o dinheiro, tal como o álcool, pode subir à cabeça .

A poesia lírica é, sem sombra de dúvida, um movimento constante, uma transformação, a busca da unidade total. Ela faz lembrar ainda o tempo em que o homem ia de terra em terra, de lugar em lugar, ao sabor da maré cósmica...

Na poesia lírica há uma força maravilhosa, uma juventude ébria e poderosa, ela capta o informulável, ela não é discurso, ela é linguagem viva, ela é a sublevação do homem com todas as suas palavras e sangue, ou seja, ela é uma verdadeira experiência do mundo, visto que, como Cesariny diz, e bem, num dos seus poemas :

"ela vem dos comboios lentos
do cristal dos gritos
das mãos prodigiosas e dos seios de pedra corrompida
vem do fim das palavras inaudíveis. "

Num mundo cada vez mais inumano, num mundo em que o capitalismo e o hedonismo se estão a apropriar, de novo, da magia que existe dentro do homem, sufocando-o, tornando-o num ser limitado por convenções e interesses, tornando-o num ser cada vez mais prisioneiro da sua estupidez, um ser tecnocientífico, amputado, um ser que já não reconhece a vida como um milagre, como algo de sagrado, um ser que se pensa senhor dos astros e da terra, mas que afinal não passa de um prisioneiro caído dentro das sua própria masmorra, um ser que diz que ama a arte, mas que na verdade só vê nela um palco para ostentar o seu narcisismo , creio que precisamos cada vez mais de uma a outra arte; uma arte renovada, uma arte dos não especializados, uma arte poética, uma arte vista com olhos de poeta lírico, uma arte dos que são capaz de dar o sangue em seu nome, uma arte livre de todas as convenções, uma arte capaz de se sublevar contra o capitalismo, consumismo e materialismo, sem limites, destes dias, uma arte capaz de dizer não aos exibicionismos, não a uma sociedade oca medíocre e mediática , uma arte, de novo, revolucionária. Uma arte que se rejuvenesça naquele espírito surrealista de que acabei de falar acima, uma arte de cabeça ao alto, uma arte alternativa, que não reconheça os literatos oficializados.

 
( 1 ) e ( 2 ) tradução António Ramos Rosa, in "Algumas Palavras", Lisboa, Publicações Dom Quixote.
 

 

 

 




 



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