:::::::::::::::::::::LUÍS COSTA::::::::::::

TOMAS TRANSTRÖMER OU A FASCINAÇÃO DA INANIDADE

1. A fascinação da inanidade
2. Dois poemas de Tomas Tranströmer (trad.)

Ler Tomas Tranströmer é uma experiência única e maravilhosa. A sua obra, embora pequena, alberga uma potência fenomenal. Por isso se encontra traduzida em mais de 30 línguas; Por isso Tranströmer é, desde há anos, também um dos principais canditatos favoritos ao Prémio Nobel da Literatura. Infelizmente ainda não o ganhou e talvez nunca o venha a ganhar.

Tranströmer inicia-se na poesia com 23 anos de idade. O seu primeiro livro traz o título “17 dikter”( 17 poemas ). A maior parte da obra é escrita em verso livre, embora também tenha experimentado com a linguagem métrica. Na sua escrita nota-se, por vezes, uma certa disciplina horaciana. Como podemos ler no livro de memórias, “Minnena ser mig“ (As recordações vêm-me) : “ Horácio era para mim como um contemporâneo; era como um René Char, um Oskar Loerke ou um Einar Malm.”

Em 1990 foi vítima de um derrame cerebral que lhe afectou a capacidade de falar. No entanto recuperou a saúde de novo. Anos depois sofre uma série de derrames cerebrais. Desde então escreve sob grandes dificuldades. Impedido de escrever por mão própria, é a sua esposa que vai apontando os seus poemas (isto por meio de um processo muito complicado, pois Tranströmer só consegue dizer sim e não), cada vez mais raros e lacónicos, mas nem por isso de menor qualidade. A sua originalidade e magia residem exactamente nessa fantástica capacidade de, num par de vocábulos, ser capaz de exprimir aquilo para o qual muitos escritores precisam de cem :

E o que era “eu “
É uma simples palavra
Na boca das trevas de dezembro

Tranströmer aposta na intensidade e, a partir de uma linguagem de imagens concentradas, a qual não precisa de muitas palavras, provoca no leitor uma sensação de deslumbramento, que em muitos casos pode ser considerada fantástica e até mágica. Esta linguagem simples e clara, mas carregada de metáforas audazes, de imaginação fantástica e de imensa variedade de associações possui, de facto, uma intensidade e uma força ao mesmo tempo telúricas e surreais. Vejamos um exemplo:

Encontro-me de pé sob um céu estrelado
E sinto como o mundo rasteja
no meu sobretudo, para fora e para dentro,
qual um formigueiro

Embora a lírica de Tomas Tranströmer possa, por vezes, à primeira vista, levar o leitor mais desprevenido a considerá-la uma lírica da natureza, dado que são constantes as referência a animais, objectos e fenómenos da natureza (a formiga vermelha, as tempestades, o mar, a floresta, as estações do ano, os campos etc. ) ela é, porém, muito mais do que isso. Ela não se constrói a partir de certos “acontecimentos“ que se efectuam na natureza, e que por isso são considerados, como acontece na “ Naturlyrik “ dos alemães, uma primeira base do ser, nem pretende descrever simples fenómenos da natureza. Através da observação do mundo físico o poeta vai-nos revelando a inanidade existencial: o invisível torna-se-nos acessível porquanto nos sentimos seduzidos pela magia das verdades ocultas e pelos segredos impenetráveis. Este universo poético mantém-se sempre muito próximo da realidade do dia a dia, porém, como nos diz Harald Hartung no ensaio “Tomas Trantrömer : Der Kampf um den Namen”: “ele não é deste mundo, ele é antes um espaço imaginário que projecta uma luz fresca, mas intensa, sobre os objectos e os homens. “

Esta poesia tem como peculiaridade o momento. Na maior parte dos poemas de Tranströmer, deparamos com a evocação de um momento, vivido ou imaginado, que nos é transmitido quase fotograficamente. No entanto este momento, que lhe provocou a necessidade de poetar, ou seja, que ele procurou fixar em palavras, e que à primeira vista pode parecer uma mimésis da realidade circundante, já nada tem a ver com aquilo que o poeta em determinado momento observou, viveu, ou mesmo sonhou. Ao ser integrado no corpo do poema por meio da palavra poética, o momento sofreu uma transmutação: ele tornou-se numa realidade autónoma, ele tornou-se como António Ramos Rosa diz num dos seus ensaios: “presença da ausência.“ Por isso o poema transcende a fugacidade do momento, dando-lhe uma continuidade que o transgride e ultrapassa a simples experiência física e sensorial:

Fim de estação. Eu continuei a viagem
Para além do fim da estação.

Quantos eram ? Quatro,
Cinco, poucos mais.

Casas, caminhos, nuvens,
Enseadas azuis, montanhas
Abrem as suas portas

Como podemos ver, esta poesia é uma evocação do momento, único e irrepetível. O mundo natural, com todos os seus fenómenos inerentes, ao tornar-se palavra, torna-se numa nova realidade, uma realidade que se pode encontrar, por vezes, muito perto do delírio surrealista. Esta nova realidade já nada tem a ver com os fenómenos apreendidos pelo eu lírico. Dentro do poema ela transcende-se até à irracionalidade. Em torno de uma simples imagem, abrem-se ao leitor portas e portas: esta linguagem não precisa de uma interpretação, ela é a voz do silêncio, a voz do vazio total, do vazio do sujeito e das coisas, ponto de saída e ponto de encontro. Por isso a linguagem poética de Tranströmer aproxima-se bastante dos principios do Zen Budismo. Vejamos a primeira quadra do poema “Adernagem da noite para o dia “:

Quieta, a formiga acorda, espreita para dentro do
nada. E para além das gotas da escura folhagem e
do múrmurio nocturno, profundo no desfiladeiro do verão,
não se ouve mais nada.

Nestes quatro versos encontramo-nos perante uma atmosfera própria do Zen-Budismo, ou seja, aqui tudo é silêncio e inanidade, aqui toda a vontade e cobiça foram abolidas, tudo comunga do nada, tudo se encontra imerso nesse nada. O próprio EU lírico abdicou da sua identidade e de toda a vontade. Ele já não é apenas um observador, ele é parte integrante deste momento-nada.

Frente à intensidade deste universo poético, o leitor não faz perguntas, vive a sensação do momento, a sensação electrizante desta linguagem, a sua magia toda poderosa, que se movimenta entre a frase lacónica, simples e clara e uma metafisica irracional. E o eu lírico, sabendo isto melhor do que ninguém, leva-nos a a participar deste momento único, momento em que natureza, homem e cosmos, se unem sob a aliança do indízivel, do silêncio do vazio-essência:

grande e vagaroso vento
da biblioteca do mar.
Aqui posso descansar.

 

Nota:

A influência do Zen-Budismo tem levado Tranströmer a escrever numerosos Haikus; ele é um verdadeiro mestre desta forma poética. O seu último livro " Den stora gåtan " ( o grande mistério ) é, sobretudo, um livro de Haikus. Nele encontramos para além de cinco poemas, 54 Haikus.

 

 

 

 




 



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