JOSÉ LUÍS HOPFFER C. ALMADA

Luto   
(poema de Nzé di Sant´y Águ)

À memória de Amílcar Cabral

                                               Em homenagem a Dona Ana Maria Cabral, viúva de
                                               Amílcar Cabral e testemunha ocular do seu bárbaro assassinato,
 Abílio Monteiro Duarte, in memoriam,
primeiro difusor em Cabo Verde dos ideais cabralistas
da independência, e Aristides Maria Pereira, primeiro 
Presidente da República de Cabo Verde e o mais
próximo e íntimo companheiro de luta do Herói do Povo

Calado e respeitoso, ficas perscrutando as faces enrugadas dos comandantes islenhos retornando às agruras dos tempos impacientes da luta político-militar conduzida em terra alheia, irmã, alongando-se ditirâmbicos sobre os tempos da pacatez e da legendária morabeza das ilhas, 

Compreensivo, ficas contemplando as vestes escuras preventivas dos antigos combatentes e comissários políticos, exilados em terras estrangeiras, hospitaleiras, treinados e fortalecidos entre povos amigos, aliados, acolhidos e ajuramentados ante a continência da mão generalíssima de amílcar cabral para a aventura do aguardado desembarque armado nas nossas ilhas do meio do mar, para a disseminação de focos guerrilheiros entre os camponeses da serra malagueta, do topo da coroa, do monte gordo, da chã das caldeiras, depois traídos pela denúncia desertora de um antigo companheiro recrutado pela polícia política colonial-fascista, depois mobilizados para a inexorável fraternidade de armas, sangues e idiomas com os heróicos combatentes da guiné ex-portuguesa,  

Compassivo, ficas intentando pôr-te no seu lugar heróico, todavia trágico e solitário, e injectar-te

das suas máscaras abandonadas aos auspícios da defecação do secreto fel das sonegadas estórias da história, da desinibida exposição da vileza e do pus dos tempos, das incicatrizadas feridas das tardes de ziguinchor,

dos seus nervos desiludidos vindos de conacry, das suas gestas e gentes solidárias, das suas díspares intentonas, das suas inúmeras inventonas, das suas noites torcionárias, dos seus dias fúnebres, das suas pressas carcerárias, dos seus torturados silêncios, dos seus persistentes rumores deambulando pelas esquinas das ruas, explodindo na sua eterna noite de pranto, ainda carpindo, voraz e retrospectiva sobre as sombrias instigações ao genesíaco fratricídio, à deicida vilania, ao horror homicida, de amílcar tombando, de abel djassi dando-se em sacrifício na noite de conacry, de amílcar três vezes baleado, de amílcar por três vezes se redimindo da alheia falta na nocturna mesa das macabras celebrações, na tardia indigestão dos comensais do azedo pão da ignomínia, de amílcar cabral transfigurando-se em moisés negro da vara sagrada dos mandamentos da dignidade, do inesgotável manancial da liberdade, da terra prometida gizada, não mais repisada pelos pés lavradores dele abel djassi, não mais gozada pelas mãos generosas dele amílcar, pelo corpo verdejante dele abel, da terra prometida antevista, dele amílcar abel por três vezes instituindo-se chama fraterna, inextinguível, da veracidade dos tempos premonitórios dele, isaías revelando-se nas palavras proféticas dele cumprindo-se nos estalidos letais das cápsulas da morte dele, de abel djassi dando-se em holocausto ante o sacrilégio do kaifás kani pilatos da expurgação do emanuel nosso, do messianismo dele amílcar, cristo dos rebelados entre as mãos irresolutas do caim da ocasião propícia, repelente, irrepetível, repetida entre os lábios do judas cani do momento comprado, com o perdão e o beneplácito dele, amílcar das cordas insolentes do desencapuçado captor, da delinquente proficiência da espancada delação frutificada com o fascínio do amo e senhor carcereiro entre as sombras muradas do tarrafal de santiago, do fatigado monóculo rejeitados, dos tortuosos caminhos que navegam amarrados de conacry a bissau rejeitados, da forca simbólica, do impávido gume do infinito vilipêndio aguardando nas calçadas amordaçadas da capital do império agónico rejeitados, das multidões ignaras ululando sobre as pedras frias do rossio de lisboa rejeitadas, da rejeitada evidência da nova nobreza e da plebe de sempre, da canalha toda rindo-se do corpo enforcado do rei da ilha de santiago, do orgulho capturado, dos olhos atónitos do rei vátua exilado numa ilha das imediações das batalhas libertadoras do marechal negro tricolor encarcerado na bastilha escravocrata, das cadeias tenebrosas, do cárcere cerimonioso, da coroa de espinhos traiçoeiros rejeitados prefigurando a paixão dele, amílcar, vertical na honra e na ternura, radical na observância dos princípios, aceso na recusa do rebaixamento dele, amílcar oferecendo-se cristo negro à polvorosa cruz, ofertando-se à lança asfixiante de inocêncio kani, momo touré, aristides barbosa, abdulay ndjay e outros vivos mortos, e outros futuros mortos morridos, irrecuperáveis para o panteão da pátria, inermes para a história, todavia salvos para o limbo, para os ignóbeis resquícios, para a pequenez dos sinistros rodapés do paradoxo conspurcando o memorial das criaturas valorosas, todavia irreparáveis para a inocência, dele, amílcar traído e interpelado pela raivosa impotência de antigos companheiros de armas aliciados pela parva moeda da ambição, desmesurada, de uma pátria vil e pequena, mercenária, adulterando a paixão dele, amílcar entregando-se à eternidade das cores ouro-rubro-verdes da bandeira da unidade e luta, da estrela negra tremeluzindo, futura e opulenta, nos céus soberanos da guiné e do cabo verde dele, abel djassi, cristo negro agonizando em conacry, para a redenção dele, amílcar cabral, flor defumada em lume de ouro, riso perfumado na prata e no incenso do odor das estrelas da liberdade no seu canto cativo da glória, na perenidade da palavra justa, imorredoura dele, amílcar cabral estatuindo-se morto imortal, possuído pela paixão de uma pátria à medida inalienável da dignidade da pessoa humana, à imagem e semelhança dos homens, africanos livres do sonho libertário dele, abel amílcar djassi cabral, da casa e da semente fecunda de juvenal cabral, da genealogia das gentes dos reis borges de achada falcão de santa catarina, do parentesco dos costa lopes dos engenhos, da raça negra heróica do nome denunciando em londres os desmazelos da vil condição de colónia, ressuscitando com o corpo indómito do primeiro combatente caído em tite, para sempre comandante rui djasssi, da gerada luminosidade da família cabral, gerando-se nome único, criando-se nome singular, dele da generosidade do umbigo enterrado com o verde dos mangais de bafatá da primeira infância em terra firme africana, dele da segunda vida repleta cobrindo-se do verde mar das ilhas, dele maravilhando-se com os cajueiros da plena maturidade no mundo dele, da fecundação do abraço materno da terra natal dele, engenheiro da lavra e dos sonhos das gentes dele, da universalidade nos augúrios fraternos dos povos combatentes deste vasto mundo, dele dos tempos todos do simples africano que quis saldar a sua dívida para com o seu povo e viver a sua época dele, da ampla e nominada descendência de africanos combatentes ilustres, tais aníbal barka, amílcar barka, samory touré, abdel kader, al mahdi, meneliki, shaka zulu, dele da fertilizada camaradagem de sábios e locutores de todos os recantos da palavra incisiva e libertadora dele, da inexpugnável irmandade com a humilde e anónima humanidade, toda e inteira, dele do aquoso carinho materno de iva pinhel évora e do seu umbigo semeado em godim da ilha de santiago do sotavento caboverdiano, de apelidos tracejados nos areais da ilha pastoril da boavista do barlavento caboverdiano, de suor derramado nos trabalhos e nos dias de bolama, praia, san vicente e bissau, dela a um tempo eva e maria, mater dolorosa da pátria e da pietá, do seu folhoso regaço, doravante vazio, das suas vestes lenhosas, ainda lacrimejando na noite de conacry, dos seus fantasmas emboscados, ainda redivivos, dos seus dias albinos, dos seus deuses despigmentados, alvos nas túnicas brancas do luto e do estádio lotado, nas exéquias fúnebres do menino da sua mãe iva, na purificação do menino da sua mãe-terra, guinécaboverde, do menino chorado pelos meninos do chão natal das suas duas mátrias, do menino velado pelos meninos da sua mãe de criação, a terra toda e inteira de todas as criaturas humanas, das cabras e das panteras, de todos os seres vivos, das pedras e das pombas, de todos os seres inertes e rumorejantes, do menino em conacry caído, na sua noite atordoada, nos seus tumores ainda corroendo-se nas intrigas políticas, nos golpes palacianos, nas diurnas e nocturnas execuções sumárias, nas soturnas eliminações físicas, na sempre tempestiva excomunhão de adversários políticos e inimigos ideológicos, na abrupta destituição de altos cargos dirigentes no partido e no estado, na consentida expatriação de afectos e desafectos da família e da vizinhança, por via da força das armas e de golpes de estado, ainda e sempre fulminantes.

Silencioso, ficas escrutinando o teor dos pêsames, apreensivo ficas exaurindo a cor das condolências apresentando-se de cara levantada aos heróis nacionais do sahel insular, pela segunda vez vestidos do negro retinto, pela segunda vez envoltos do silêncio distinto do pesado luto,

Pesaroso, ficas mensurando os seus rostos lívidos, doravante entregues à inumação do espírito profanado, da alma penada de amílcar,

as suas sobrancelhas conturbadas, todavia tenazes, doravante entregues à exumação da memória sagrada dos inesquecíveis mártires das ilhas e do país irmão, dos filhos anónimos do povo guineense perecidos, inumeráveis, na luta armada de libertação bi-nacional,

os seus olhos esbugalhados, doravante entregues à autópsia dos mitos e à dissecação da alma sangrada, todavia imorredoira, do herói do povo, da sua fronte alta e nua, da sua súmbia carismática, dos seus lábios grossos banhados na fraternidade dos povos, exercitados na arma da teoria, dos seus ouvidos cingidos pela sensatez e pela sabedoria, dos seus óculos escuros marcados pelo fecundo brilho das florestas africanas impenetráveis, das suas lunetas metálicas reflectindo a luz fluorescente dos areópagos internacionais, a luz ondulante das bolanhas das duas guinés, a luz ofuscante das savanas do mali e do senegal, a luz faíscante dos desertos da argélia, do marrocos e da mauritânia, a luz ampla das cidades do sahel, a luz azul das urbes do mediterrâneo, a luz calorosa de havana e de santiago de cuba, a luz toda de adis abeba, a luz gelada de moscovo e berlim, a luz branca de praga e budapeste, a luz oblíqua de pequim, a luz baça de londres, a luz ambígua de paris e nova york, a luz fosca e carinhosa das cidades da escandinávia, fraternas da sua biblioteca deslocando-se entre as narrativas dos griots e os provérbios das finaderas, dos seus dois torrões amados, das suas duas almejadas soberanias populares irrompendo súbitas no concerto universal das nações livres e independentes, dos seus estados proclamados pelos povos solenes e soberanos na antecâmara limpa de escombros e passados ressentimentos, nos umbrais referendados da sua pátria africana futura, pensada una e solidária,

os seus deliberados esquecimentos, as suas calculadas amnésias, doravante entregues à flagelação do pesadelo, às labaredas do impossível olvido, à causticação dos maus agoiros e das brumas da morte, às intermináveis querelas dos outrora festejados companheiros de luta, às insolúveis controvérsias dos antigos camaradas de armas e de ideários, às inultrapassáveis contendas dos irmãos desavindos postados sobre a turbulência e o atrito dos corpos separados, dos corações desfalecidos, dos estados de espírito litigiosos, das amargas disposições das almas, doravante secessionistas da pátria dantes germinando das nossas nações africanas, das suas sombras lacónicas, dos seus esporádicos abraços, outrora sublimando-se irmãs, outrora sonhadas gémeas entretecidas em laços duradouros e indissolúveis, outrora erigidas inexpugnáveis sobre os ecos da lonjura, das orografias relevando-se complementares, das águas desencontradas das nossas terras africanas da guiné e de cabo verde, doravante definitivamente libertas uma da outra.

Aliviado, ficas dissecando os tempos da gratificação, insípido ficas desculpando os inóspitos bastidores da tristeza, das lágrimas e das mágoas passadas, frio ficas desvelando o teatro das aparências, das difundidíssimas parábolas da bíblia reiterando a inelutável transitoriedade dos tempos de todas coisas sob o sol, das instrutivíssimas lições da história asseverando, versadas, a inevitável reversibilidade dos sentidos inoculados pelos deuses, os mais eternos, os mais omniscientes, e pelos homens, os mais atentos, os mais teimosos, os mais astuciosos, os mais fecundos, os mais sábios, os mais adivinhos, assim também da fraternidade forjada na luta e na comunidade de aspirações e dos projectados interesses dos povos, dos mistérios, das maldições, das mistificações da dita unidade entre o cavalo e o cavaleiro, do lento estertor da chantagem política por mor dos muitos corpos heróicos finados para a história e para a glória dos povos da Guiné e de cabo verde, da África, do terceiro mundo e da humanidade, da verberação da vassalagem ante a militarista megalomania dos militantes armados do nosso partido, dos valentes comandantes das zonas libertadas e das regiões militares então em disputa na nação africana forjada na luta, dos celebrizados chefes da guerra de guerrilha, dos grandes militares agraciados pela indomável bravura em combate, dos comissários do povo perspicazes, doravante alcandorados, generais e almirantes, ministros e conselheiros da revolução, ao poder supremo do partido e do estado do extraís irmão, para o ajustamento dos medos e dos pressentimentos, para o reajustamento dos ressentimentos, dos desastres e dos bolores de há muito inoculados, para a mitigação dos sonhos e das utopias de outrora, dos seus fantasmas elementares, para a subtil decapitação dos seus heróis preliminares, do merecimento da sua vida e obra, das suas palavras exemplares, sempre precursoras, sempre lavradoras do futuro, ainda e sempre acompanhando os passos e as afrontas de apitei, ainda e sempre convivendo com a gentileza e a audácia do povo, das suas intermitentes irrupções de cólera.

 

Lisboa, Dezembro de 2010/Janeiro de 2011

José Luís Hopffer C. Almada

Nota do autor: constitui-se o presente texto de excertos do prosopoema inédito “Cidadeverdades -Crónica dos tempos de antanho, do júbilo e do ressentimento”

JOSÉ LUÍS HOPFFER C. ALMADA, jurista, poeta, ensaísta, analista e comentador radiofónico. Nasceu no sítio de Pombal, Concelho de Santa Catarina, ilha de Santiago, Cabo Verde (1960). Reside actualmente em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade Karl Marx, de Leipzig, e pós-graduado em Ciências Jurídicas e em Ciências Políticas e Internacionais pela Faculdade de Direito de Lisboa.

Desempenhou as funções de técnico superior em vários departamentos governamentais e de Director do Gabinete de Assuntos Jurídicos e Legislação da Secretaria-Geral do Governo.
Associado a diversas iniciativas culturais em Cabo Verde, como o Movimento Pró-Cultura (1986), o suplemento cultural Voz di Letra do jornal Voz di Povo (1986-1987) e a revista Pré-Textos; director da revista Fragmentos (1987-1998); co-fundador da Spleen-Edições (1993) e dirigente da Associação de Escritores Cabo-Verdianos (1989-1992/1998). Participação regular em colóquios, em diversos países, como Senegal, Cuba, Bélgica, Brasil, Angola, Portugal, Holanda, Suíça, Moçambique; colaboração assídua em jornais e revistas literárias e jurídicas, com destaque para Fragmentos, Pré-Textos, Direito e Cidadania, Lusografias, A Semana, Liberal-Caboverde. Representado em diferentes antologias poéticas estrangeiras.

Organizou Mirabilis – de Veias ao Sol (Antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos (1998) e O Ano Mágico de 2006 – Olhares Retrospectivos sobre a História e a Cultura Cabo-Verdianas (2008).

Publicou: À Sombra do Sol, I e II, (1990); Assomada Nocturna (1993), Assomada Nocturna – Poema de NZé di Sant’ y Águ (2005); Orfandade e Funcionalização Político-Ideológica nos Discursos Identitários Cabo-Verdianos (2007), e Praianas (Revisitações do Tempo e da Cidade) (2009).

Utiliza os nomes literários Nzé di Santý Águ, Zé di Sant´y Águ, Alma Dofer Catarino, Erasmo Cabral de Almada (poesia), Tuna Furtado (artigos e ensaios) e Dionísio de Deus y Fonteana (crónica literária e prosa de ficção).

 

 

 

 




 



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