JOSÉ LUÍS HOPFFER C. ALMADA

Crónica dos tempos do júbilo e do luto
(prosopoema de Nzé di Sant´ y Águ)

 À memória de Amílcar Cabral

Saudoso, ficas recriando as paisagens altas e enevoadas da serra malagueta, enamoradas das chãs de achada falcão, das detalhadas fracturas da infância do filho de nho juvenal cabral, da sua precária, conquanto sã e nobre genealogia, da sua casa-grande, do seu amplo quintal de debulha do milho, do feijão e de outros cereais das colheitas de novembro e dezembro, da sua terra vermelha circundante do remanso e da alegria das águas de fonteana, das suas árvores de fruto sinalizando os infalíveis cronogramas da vida e da morte, dos seus passeios guarnecidos de acácias rubras, de floridos cardeais e buganvílias, das suas criaturas colectoras das purgas das plantas e do destino, das suas oleaginosas acossadas pelos machins dos moços de sedeguma, pelas facas dos homens de tomba-touro, pelas pedras das crianças do birianda, pelos machados das mulheres de ribeirão manuel, dos seus arbustos assediados pelos órfãos esfaimados das colinas de cruz grande.

Indefectível, ficas emoldurando o percurso islenho do menino de sua mãe, do seu corpo pudico emaranhando-se castanho-escuro às lembranças do verde imprescritível da sua bafatá natal, da densa vegetação da sua outra terra amada, da foz do geba, dos seus músculos atletas movendo-se nas ruelas insalubres de ponta-belém, das suas pernas ganhadoras campeando nos poeirentos campos de futebol dos subúrbios da cidade da praia, das suas mãos amorosa da máquina de costura e dos dedos fatigados, crepusculares de nha iva, dos seus olhos cultivados nas lentes tímidas, renegados pelos enfatuados companheiros das lides literárias embrenhados na dissecação dos cadáveres de odes e sonetos, na explanação dos males da terra abandonada pela rima e pela grandiloquência dos velhos vates das ilhas, erodida pela incúria, pela ignorância e pela desflorestação, da sua pupila marítima alongando-se prolífera pela baía vazia de barcos e de carvão do porto grande de san vicente, pelas distâncias do vasto mundo defronte, pelas rotas conducentes aos templos do saber da capital do império, ao clandestino tirocínio da lisboa insubmissa, às cicatrizes abertas das terras do alentejo, à dor calada, implosiva, dos trabalhadores das plantações de angola, às fainas agrícolas, às memórias guerreiras dos camponeses da guiné, às indagações universais do lato mundo alado em mudança

Solícito, ficas moldando o rosto recto de amílcar debruçado sobre as límpidas nascentes de txororó, depois acabrunhando-se enlutado sobre as memórias destroçadas das muitas vítimas das as-secas, das inúmeras fomes e mortandades, depois definhando-se enluarado sobre as valas comuns da década de quarenta, depois erguendo-se palavra plena repleta do cerimonioso silêncio dos campesinos de txuba txobe, da solenidade metafórica dos anciãos das aldeias de achada-além e águas belas, da sombra ínvia dos lavradores do colonato de chão bom e das vozes metropolitanas contestatárias aprisionadas na colónia penal vizinha, na reclusão do campo de concentração do tarrafal, da dúbia desmesura dos seus murros e desalentos caiados do branco da sua reputação de campo de morte lenta repercutindo nos tempos abafados em receio, nos tempos recheados de silêncio. 

Eufórico, ficas revivendo os dilatados tempos da circunvalação da ilha maior, da circum-navegação das suas íngremes estações, das suas estradas imprevisíveis construídas sobre a visibilidade da afronta e do desaire, do desastre iminente, e os verdes desfiladeiros de figueira das naus e figueira muita, dos tempos serpenteando com as gentes do planalto da assomada, do fundo dos engenhos, das angras da calheta de san miguel, das hortas de santa cruz até às portas abertas, escancaradas do presídio do tarrafal e à aparição das suas efígies heróicas, das suas silhuetas atónitas, libertas para o regaço das multidões entusiastas, das suas vestes talhadas para a urgência dos tempos de acolhimento do sangue e do coração de amílcar, dos seus tempos da nova largada das ilhas, dos seus tempos do definitivo enterro dos mitos passados, persistentes, coloniais, dos seus tempos da reafricanização dos espíritos, da profusão da súmbia, do bubú feminino, da sulada, da babalaika, dos panos da terra, das camisas djila, dos penteados afros, das barbas densas e irreverentes e de outros inconfundíveis sinais do reencontro com o rosto escuro, aberto, descoberto das origens desde há muito sonegadas, dos tempos grunhos ritmados pelo batuco e pela incandescência dos cabelos crespos, arredondados para a dimensão da dor do mundo e da controvérsia, tais negros algodoais crepitando rebeldes sobre as ruínas dos tempos outros, latifundiários, das palavras finas, mofinas, das expressões mercantis, do verbo timorato, da pátria antiga agónica, renegada, da longínqua pátria peninsular, remordendo-se no despertar da nova nação lusitana, convulsiva e sonhadora, em abril pluviosa, em maio solidária, em setembro esperançosa, em novembro sorridente.  

Entusiasmado, ficas rememorando os celebrados tempos juninos da irruptiva eclosão da história, dos seus profetas e mártires, dos seus filhos dilectos, pródigos de razão e valentia, dos seus míticos heróis regressados, abraçados ao ritmo esfusiante das ruas fervilhantes de slogans e protestos, da explosão da alegria no reencontro com as pombas da tabanca, com o saracoteio dos seus olhos gratos, com o frenesim dançante, lascivo e não mais pecaminoso das ancas no colá sanjon, com os pilões ecoando as chuvosas gargalhadas do milho e do tambor nos soçobrados alicerces do sobrado e do morgadio, nas fissuradas faces da branca ganância deglutindo a lava e o café, com o desmedido orgulho da ostentação das faces crioulas, nossas, diversas, dos cabelos muitos, sumptuosos, das gentes das ilhas, com a devassa dos labirintos da amnésia e da ocultação do nosso tetravô africano, escravo insulado entre o mar e a terra, desterrado entre a nau das américas e a cana-de-açúcar das ilhas, expatriado e deslocado entre a nau catrineta e a infinita pescaria do amargor da humilhação, da sua tristiose curtindo-se à beira dos funcos e dos casebres de pedra e palha, dos seus irmãos de raça e desgraça, das suas angústias, dos seus inaudíveis lamentos, das suas saudades da casa paterna, longínqua, devastada na terra firme africana, para nunca mais perdida, dos seus levantes, da sua inicial e renitente comunhão com a terra insular árida e exaurida, da sua exumação na sua nova mátria madrasta, dele e dos sus rebentos negros e mulatos, dele e da sua amada, arredada do seu aconchego na esteira de palha para o desvario da luxúria do clã dos seus senhores, dele e dos filhos negros e mulatos do ventre das suas companheiras da dor e da intemperança. 

Comovido aprendiz, ficas cultivando os castanhos nutrientes do sol e da substância do mundo, do nosso cabo verde de esperança, da terra retornada às fontes da desidratação do ser, intentando afastar-se da distância e do mar gentio da terra-longe, esparramando-se pelo júbilo e pelo canto chão dos trovadores, dos poetas populares, dos vates de intervenção social, pelo redondo metaforismo dos desvendadores dos herméticos códigos da subsistência e da floração do verde sobre a cabeça calva de deus, da árvore e do tambor, do pão e do fonema eclodindo no cântico do habitante, embevecido com caboverde, amadamente em construção, com o seu povo de notcha, com os seus sentidos letrados no crioulo, com as suas gestas, com as suas crenças, com os seus pastores, pescadores e catraeiros, com as suas panelas de milho vermelho, púbere, raríssimo, com os seus alguidares de milho branco, importado, molhado de véspera para o cuscus e o prazer da vizinhança, com as suas crianças castanhas, negras, brancas, crespas, frisadas, loiras, pétalas da mesma flor arquipelágica, com as suas frágeis auréolas de cordeiros de deus, com as suas confissões afinadas nas noites livres de áfrica, com os seus sons revirando-se com as alvíssaras das folhagens de setembro e das novas conjunturas divisadas germinais nos traiçoeiros tempos de outubro, nos incertos dias de novembro, nos chuvosos dias de janeiro batendo no portão das nossas ilhas

Surpreso, ficas planando sobre os rostos de repente crispados, sobre as bocas de repente amarguradas dos antigos companheiros do militante número do nosso partido e a sua nunca acabada rememoração dos incomensuráveis sacrifícios consentidos na nossa longa e gloriosa luta armada de libertação nacional, as muitas façanhas praticadas na frente político-diplomática, na guerra de guerrilha de longa duração levada a cabo conjuntamente com a força física principal da luta constituída pelos bravos combatentes da guiné-bissau, na logística da guerra e das zonas libertadas. 

Convicto, ficas dissecando todas as outras, as arroladas provas da genialidade político-estratégica do princípio da unidade guiné-cabo verde fundado nos laços históricos e de sangue entre as populações, na duradoura comunidade de interesses dos dois territórios africanos submetidos à multissecular dominação estrangeira do mesmo poder colonial bem como na sua complementaridade geo-económica tanto no período colonial como na actualidade dos dias das nossas vidas e das vidas futuras das gerações vindouras com vista ao seu desenvolvimento acelerado e auto-sustentado,  

Convencido, ficas desencobrindo todas as provas, genuínas e cabais, na prática comprovadas, do princípio da unidade guiné-caboverde solidificado na aliança fraternitária para a luta comum encetada com o povo heróico do país irmão na busca, aliás, coroada de total e inequívoco sucesso, do nosso destino africano, livremente escolhido pelo povo das ilhas, sob a esclarecida direcção do nosso glorioso partido e do nosso líder imortal, barbaramente assassinado em desespero de causa dos agentes do imperialismo e do exército agressor, ocupante de uma pequena parte do solo sagrado da nossa terra firme da guiné e das ilhas de cabo verde, a mando das forças mais retrógradas e obscurantistas do colonial-fascismo português, conforme rezavam os obituários, os elogios e orações fúnebres, os cartazes dos activistas ocidentais, os comunicados de guerra lidos na rádio libertação. 

Consternado, ficas pesando as faúlhas das pelejas, a sua estranheza entranhada na insondada história das nossas ilhas crioulas afro-atlânticas, consciencioso ficas sopesando as cores ouro-verde-rubras do eventual vitupério, da desesperança na balança das mitologias e dos seus sumo-pontífices, das suas dissensões, das suas desnorteadas geografias, das suas trocas de palavras inflamadas, demolidoras, das suas antigas raivas desenterradas desembocando difamatórias nas silhuetas dos rios atiçados de ódio e de ressentimento navegando nas praças plenas de regozijo e alegria, atingindo caluniosas os rostos pardos das ribeiras envoltas em pranto e remorso, revolvidas em alívio, em gratidão e orgulho, devastando as efígies dos guardiães dos cemitérios, dos coveiros das contemporâneas ossadas dos comandos africanos, e de outros vilipendiados mercenários da pátria lusa, e de outros sofisticados guerreiros aliciados pelo fúnebre odor do sangue e da impunidade, e de outros supostos colaboracionistas do mais velho e obsoleto dos impérios coloniais, amaldiçoados pela veemência da derrota, sua e dos tempos dos gritos desventrados das mulheres grávidas de pano preto, sumariamente executados em praça pública, no sigilo dos matagais, na inconfidência dos cárceres nauseabundos, e de outros pronunciados fautores da discórdia e do morticínio fuzilados, sem o devido processo penal, sem julgamento prévio, por deliberação unânime do conselho executivo da luta do partido, sufragada pelo conselho superior da luta, aplaudida pelos militantes do partido dos vencedores da guerra na nossa terra da guiné, ainda em estado de prevenção, e de outros estropiados congeminadores do dissídio e do litígio, e de outros conspiradores implicados no bárbaro assassinato do nosso líder imortal, e outros actores de reiteradas tentativas de invasão e de derrube do nosso regime progressista a soldo do imperialismo internacional, e de outros beneficiários de comutação da pena de morte em prisão perpétua em razão da clemência e da política da recuperação do homem propugnada pelo nosso partido, e de outros perpetradores da desunião das fileiras cerradas do nosso povo em luta, uníssono na implementação dos altos e generosos ideais do nosso partido elaborados pelo nosso saudoso líder para a concretização da justa aspiração do nosso povo à construção da paz, do progresso e da felicidade para todos os seus filhos nas nossas terras africanas da guiné e de cabo verde, nos termos dos noticiários radiofónicos captados no país irmão e reproduzidos ipsis verbis nos jornais nô pintcha e voz de povo. 

Calado e respeitoso, ficas perscrutando as faces enrugadas dos comandantes islenhos retornando às agruras dos tempos impacientes da luta político-militar conduzida em terra alheia, irmã, alongando-se ditirâmbicos sobre os tempos da pacatez e da legendária morabeza das ilhas, 

Compreensivo, ficas contemplando as vestes escuras preventivas dos antigos combatentes e comissários políticos, exilados em terras estrangeiras, hospitaleiras, treinados e fortalecidos entre povos amigos, aliados, acolhidos e ajuramentados ante a continência da mão generalíssima de amílcar cabral para a aventura do aguardado desembarque armado nas nossas ilhas do meio do mar, para a disseminação de focos guerrilheiros entre os camponeses da serra malagueta, do topo da coroa, do monte gordo, da chã das caldeiras, depois traídos pela denúncia desertora de um antigo companheiro recrutado pela polícia política colonial-fascista, depois mobilizados para a inexorável fraternidade de armas, sangues e idiomas com os heróicos combatentes da guiné ex-portuguesa,  

Compassivo, ficas intentando pôr-te no seu lugar heróico, todavia trágico e solitário, e injectar-te

das suas máscaras abandonadas aos auspícios da defecação do secreto fel das sonegadas estórias da história, da desinibida exposição da vileza e do pus dos tempos, das incicatrizadas feridas das tardes de ziguinchor,

dos seus nervos desiludidos vindos de conacry, das suas gestas e gentes solidárias, das suas díspares intentonas, das suas inúmeras inventonas, das suas noites torcionárias, dos seus dias fúnebres, das suas pressas carcerárias, dos seus torturados silêncios, dos seus persistentes rumores deambulando pelas esquinas das ruas, explodindo na sua eterna noite de pranto, ainda carpindo, voraz e retrospectiva sobre as sombrias instigações ao genesíaco fratricídio, à deicida vilania, ao horror homicida, de amílcar tombando, de abel djassi dando-se em sacrifício na noite de conacry, de amílcar três vezes baleado, de amílcar por três vezes se redimindo da alheia falta na nocturna mesa das macabras celebrações, na tardia indigestão dos comensais do azedo pão da ignomínia, de amílcar cabral transfigurando-se em moisés negro da vara sagrada dos mandamentos da dignidade, do inesgotável manancial da liberdade, da terra prometida gizada, não mais repisada pelos pés lavradores dele abel djassi, não mais gozada pelas mãos generosas dele amílcar, pelo corpo verdejante dele abel, da terra prometida antevista, dele amílcar abel por três vezes instituindo-se chama fraterna, inextinguível, da veracidade dos tempos premonitórios dele, isaías revelando-se nas palavras proféticas dele cumprindo-se nos estalidos letais das cápsulas da morte dele, de abel djassi dando-se em holocausto ante o sacrilégio do kaifás kani pilatos da expurgação do emanuel nosso, do messianismo dele amílcar, cristo dos rebelados entre as mãos irresolutas do caim da ocasião propícia, repelente, irrepetível, repetida entre os lábios do judas cani do momento comprado, com o perdão e o beneplácito dele, amílcar das cordas insolentes do desencapuçado captor, da delinquente proficiência da espancada delação frutificada com o fascínio do amo e senhor carcereiro entre as sombras muradas do tarrafal de santiago, do fatigado monóculo rejeitados, dos tortuosos caminhos que navegam amarrados de conacry a bissau rejeitados, da forca simbólica, do impávido gume do infinito vilipêndio aguardando nas calçadas amordaçadas da capital do império agónico rejeitados, das multidões ignaras ululando sobre as pedras frias do rossio de lisboa rejeitadas, da rejeitada evidência da nova nobreza e da plebe de sempre, da canalha toda rindo-se do corpo enforcado do rei da ilha de santiago, do orgulho capturado, dos olhos atónitos do rei vátua exilado numa ilha das imediações das batalhas libertadoras do marechal negro tricolor encarcerado na bastilha escravocrata, das cadeias tenebrosas, do cárcere cerimonioso, da coroa de espinhos traiçoeiros rejeitados prefigurando a paixão dele, amílcar, vertical na honra e na ternura, radical na observância dos princípios, aceso na recusa do rebaixamento dele, amílcar oferecendo-se cristo negro à polvorosa cruz, ofertando-se à lança asfixiante de inocêncio kani, momo touré, aristides barbosa, abdulay ndjay e outros vivos mortos, e outros futuros mortos morridos, irrecuperáveis para o panteão da pátria, inermes para a história, todavia salvos para o limbo, para os ignóbeis resquícios, para a pequenez dos sinistros rodapés do paradoxo conspurcando o memorial das criaturas valorosas, todavia irreparáveis para a inocência, dele, amílcar traído e interpelado pela raivosa impotência de antigos companheiros de armas aliciados pela parva moeda da ambição, desmesurada, de uma pátria vil e pequena, mercenária, adulterando a paixão dele, amílcar entregando-se à eternidade das cores ouro-rubro-verdes da bandeira da unidade e luta, da estrela negra tremeluzindo, futura e opulenta, nos céus soberanos da guiné e do cabo verde dele, abel djassi, cristo negro agonizando em conacry, para a redenção dele, amílcar cabral, flor defumada em lume de ouro, riso perfumado na prata e no incenso do odor das estrelas da liberdade no seu canto cativo da glória, na perenidade da palavra justa, imorredoura dele, amílcar cabral estatuindo-se morto imortal, possuído pela paixão de uma pátria à medida inalienável da dignidade da pessoa humana, à imagem e semelhança dos homens, africanos livres do sonho libertário dele, abel amílcar djassi cabral, da casa e da semente fecunda de juvenal cabral, da genealogia das gentes dos reis borges de achada falcão de santa catarina, do parentesco dos costa lopes dos engenhos, da raça negra heróica do nome denunciando em londres os desmazelos da vil condição de colónia, ressuscitando com o corpo indómito do primeiro combatente caído em tite, para sempre comandante rui djasssi, da gerada luminosidade da família cabral, gerando-se nome único, criando-se nome singular, dele da generosidade do umbigo enterrado com o verde dos mangais de bafatá da primeira infância em terra firme africana, dele da segunda vida repleta cobrindo-se do verde mar das ilhas, dele maravilhando-se com os cajueiros da plena maturidade no mundo dele, da fecundação do abraço materno da terra natal dele, engenheiro da lavra e dos sonhos das gentes dele, da universalidade nos augúrios fraternos dos povos combatentes deste vasto mundo, dele dos tempos todos do simples africano que quis saldar a sua dívida para com o seu povo e viver a sua época dele, da ampla e nominada descendência de africanos combatentes ilustres, tais aníbal barka, amílcar barka, samory touré, abdel kader, al mahdi, meneliki, shaka zulu, dele da fertilizada camaradagem de sábios e locutores de todos os recantos da palavra incisiva e libertadora dele, da inexpugnável irmandade com a humilde e anónima humanidade, toda e inteira, dele do aquoso carinho materno de iva pinhel évora e do seu umbigo semeado em godim da ilha de santiago do sotavento caboverdiano, de apelidos tracejados nos areais da ilha pastoril da boavista do barlavento caboverdiano, de suor derramado nos trabalhos e nos dias de bolama, praia, san vicente e bissau, dela a um tempo eva e maria, mater dolorosa da pátria e da pietá, do seu folhoso regaço, doravante vazio, das suas vestes lenhosas, ainda lacrimejando na noite de conacry, dos seus fantasmas emboscados, ainda redivivos, dos seus dias albinos, dos seus deuses despigmentados, alvos nas túnicas brancas do luto e do estádio lotado, nas exéquias fúnebres do menino da sua mãe iva, na purificação do menino da sua mãe-terra, guinécaboverde, do menino chorado pelos meninos do chão natal das suas duas mátrias, do menino velado pelos meninos da sua mãe de criação, a terra toda e inteira de todas as criaturas humanas, das cabras e das panteras, de todos os seres vivos, das pedras e das pombas, de todos os seres inertes e rumorejantes, do menino em conacry caído, na sua noite atordoada, nos seus tumores ainda corroendo-se nas intrigas políticas, nos golpes palacianos, nas diurnas e nocturnas execuções sumárias, nas soturnas eliminações físicas, na sempre tempestiva excomunhão de adversários políticos e inimigos ideológicos, na abrupta destituição de altos cargos dirigentes no partido e no estado, na consentida expatriação de afectos e desafectos da família e da vizinhança, por via da força das armas e de golpes de estado, ainda e sempre fulminantes.  

Silencioso, ficas escrutinando o teor dos pêsames, apreensivo ficas exaurindo a cor das condolências apresentando-se de cara levantada aos heróis nacionais do sahel insular, pela segunda vez vestidos do negro retinto, pela segunda vez envoltos do silêncio distinto do pesado luto,  

Pesaroso, ficas mensurando os seus rostos lívidos, doravante entregues à inumação do espírito profanado, da alma penada de amílcar,

as suas sobrancelhas conturbadas, todavia tenazes, doravante entregues à exumação da memória sagrada dos inesquecíveis mártires das ilhas e do país irmão, dos filhos anónimos do povo guineense perecidos, inumeráveis, na luta armada de libertação bi-nacional,

os seus olhos esbugalhados, doravante entregues à autópsia dos mitos e à dissecação da alma sangrada, todavia imorredoira, do herói do povo, da sua fronte alta e nua, da sua súmbia carismática, dos seus lábios grossos banhados na fraternidade dos povos, exercitados na arma da teoria, dos seus ouvidos cingidos pela sensatez e pela sabedoria, dos seus óculos escuros marcados pelo fecundo brilho das florestas africanas impenetráveis, das suas lunetas metálicas reflectindo a luz fluorescente dos areópagos internacionais, a luz ondulante das bolanhas das duas guinés, a luz ofuscante das savanas do mali e do senegal, a luz faíscante dos desertos da argélia, do marrocos e da mauritânia, a luz ampla das cidades do sahel, a luz azul das urbes do mediterrâneo, a luz calorosa de havana e de santiago de cuba, a luz toda de adis abeba, a luz gelada de moscovo e berlim, a luz branca de praga e budapeste, a luz oblíqua de pequim, a luz baça de londres, a luz ambígua de paris e nova york, a luz fosca e carinhosa das cidades da escandinávia, fraternas da sua biblioteca deslocando-se entre as narrativas dos griots e os provérbios das finaderas, dos seus dois torrões amados, das suas duas almejadas soberanias populares irrompendo súbitas no concerto universal das nações livres e independentes, dos seus estados proclamados pelos povos solenes e soberanos na antecâmara limpa de escombros e passados ressentimentos, nos umbrais referendados da sua pátria africana futura, pensada una e solidária,

os seus deliberados esquecimentos, as suas calculadas amnésias, doravante entregues à flagelação do pesadelo, às labaredas do impossível olvido, à causticação dos maus agoiros e das brumas da morte, às intermináveis querelas dos outrora festejados companheiros de luta, às insolúveis controvérsias dos antigos camaradas de armas e de ideários, às inultrapassáveis contendas dos irmãos desavindos postados sobre a turbulência e o atrito dos corpos separados, dos corações desfalecidos, dos estados de espírito litigiosos, das amargas disposições das almas, doravante secessionistas da pátria dantes germinando das nossas nações africanas, das suas sombras lacónicas, dos seus esporádicos abraços, outrora sublimando-se irmãs, outrora sonhadas gémeas entretecidas em laços duradouros e indissolúveis, outrora erigidas inexpugnáveis sobre os ecos da lonjura, das orografias relevando-se complementares, das águas desencontradas das nossas terras africanas da guiné e de cabo verde, doravante definitivamente libertas uma da outra. 

Aliviado, ficas dissecando os tempos da gratificação, insípido ficas desculpando os inóspitos bastidores da tristeza, das lágrimas e das mágoas passadas, frio ficas desvelando o teatro das aparências, das difundidíssimas parábolas da bíblia reiterando a inelutável transitoriedade dos tempos de todas coisas sob o sol, das instrutivíssimas lições da história asseverando, versadas, a inevitável reversibilidade dos sentidos inoculados pelos deuses, os mais eternos, os mais omniscientes, e pelos homens, os mais atentos, os mais teimosos, os mais astuciosos, os mais fecundos, os mais sábios, os mais adivinhos, assim também da fraternidade forjada na luta e na comunidade de aspirações e dos projectados interesses dos povos, dos mistérios, das maldições, das mistificações da dita unidade entre o cavalo e o cavaleiro, do lento estertor da chantagem política por mor dos muitos corpos heróicos finados para a história e para a glória dos povos da Guiné e de cabo verde, da África, do terceiro mundo e da humanidade, da verberação da vassalagem ante a militarista megalomania dos militantes armados do nosso partido, dos valentes comandantes das zonas libertadas e das regiões militares então em disputa na nação africana forjada na luta, dos celebrizados chefes da guerra de guerrilha, dos grandes militares agraciados pela indomável bravura em combate, dos comissários do povo perspicazes, doravante alcandorados, generais e almirantes, ministros e conselheiros da revolução, ao poder supremo do partido e do estado do extraís irmão, para o ajustamento dos medos e dos pressentimentos, para o reajustamento dos ressentimentos, dos desastres e dos bolores de há muito inoculados, para a mitigação dos sonhos e das utopias de outrora, dos seus fantasmas elementares, para a subtil decapitação dos seus heróis preliminares, do merecimento da sua vida e obra, das suas palavras exemplares, sempre precursoras, sempre lavradoras do futuro, ainda e sempre acompanhando os passos e as afrontas de apitei, ainda e sempre convivendo com a gentileza e a audácia do povo, das suas intermitentes irrupções de cólera.

 

Lisboa, Dezembro de 2010/Janeiro de 2011

José Luís Hopffer C. Almada

Nota do autor: constitui-se o presente texto de excertos do prosopoema inédito “Cidadeverdades -Crónica dos tempos de antanho, do júbilo e do ressentimento”

JOSÉ LUÍS HOPFFER C. ALMADA, jurista, poeta, ensaísta, analista e comentador radiofónico. Nasceu no sítio de Pombal, Concelho de Santa Catarina, ilha de Santiago, Cabo Verde (1960). Reside actualmente em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade Karl Marx, de Leipzig, e pós-graduado em Ciências Jurídicas e em Ciências Políticas e Internacionais pela Faculdade de Direito de Lisboa.

Desempenhou as funções de técnico superior em vários departamentos governamentais e de Director do Gabinete de Assuntos Jurídicos e Legislação da Secretaria-Geral do Governo.
Associado a diversas iniciativas culturais em Cabo Verde, como o Movimento Pró-Cultura (1986), o suplemento cultural Voz di Letra do jornal Voz di Povo (1986-1987) e a revista Pré-Textos; director da revista Fragmentos (1987-1998); co-fundador da Spleen-Edições (1993) e dirigente da Associação de Escritores Cabo-Verdianos (1989-1992/1998). Participação regular em colóquios, em diversos países, como Senegal, Cuba, Bélgica, Brasil, Angola, Portugal, Holanda, Suíça, Moçambique; colaboração assídua em jornais e revistas literárias e jurídicas, com destaque para Fragmentos, Pré-Textos, Direito e Cidadania, Lusografias, A Semana, Liberal-Caboverde. Representado em diferentes antologias poéticas estrangeiras.

Organizou Mirabilis – de Veias ao Sol (Antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos (1998) e O Ano Mágico de 2006 – Olhares Retrospectivos sobre a História e a Cultura Cabo-Verdianas (2008).

Publicou: À Sombra do Sol, I e II, (1990); Assomada Nocturna (1993), Assomada Nocturna – Poema de NZé di Sant’ y Águ (2005); Orfandade e Funcionalização Político-Ideológica nos Discursos Identitários Cabo-Verdianos (2007), e Praianas (Revisitações do Tempo e da Cidade) (2009).

Utiliza os nomes literários Nzé di Santý Águ, Zé di Sant´y Águ, Alma Dofer Catarino, Erasmo Cabral de Almada (poesia), Tuna Furtado (artigos e ensaios) e Dionísio de Deus y Fonteana (crónica literária e prosa de ficção).

 

 

 

 




 



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