Henrique Dória...
O BOSQUE DO AMOR

Apresentação da obra «De Amor Ardem os Bosques», de Maria Azenha, na IV Bienal de Poesia de Silves, 22-26 de Abril de 2010.

Somos um bosque. E um bosque dentro dos bosques. Bosque de folhas caducas e perenes, do castanho da terra ou do alto verde, das árvores erguidas mas também das árvores queimadas ou cortadas, derrubadas. Árvores que fazem a união entre a terra e o céu. Árvores debaixo das quais nos abrigamos ou recebemos a iluminação, ou árvores através das quais recebemos o relâmpago da morte. Árvores da crucificação.

Escreveu BERNARDO DE CLARAVAL, o grande impulsionador da Ordem dos Templários:

“ Acredita em mim, aprenderás mais lições nos bosques do que em livros. As árvores e as pedras ensinar-te-ão aquilo que não poderás aprender dos mestres.”

E revelava Lamartine, em “Imortalidade”: “Deus escondido…a natureza é o teu templo.”

Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro, é o destino a que cada homem, cada mulher aspira. E aqui estamos perante um livro, um filho, uma árvore do bosque de Maria.

Neste bosque tudo é simbólico, porque simultaneamente imaginário e real. O símbolo é um esforço do homem para conhecer, fixar e, em última análise, determinar o mundo.

Não são símbolos os instrumentos e as palavras que os magos usam para contactarem com os espíritos?

E a verdadeira poesia, como a que escreve Maria Azenha, não é mais do que uma aspiração à magia.

Por outro lado, conhecimento, fixação e domínio são os fins das ordens iniciáticas e, por isso, e porque aspiram ao conhecimento de que só os iluminados e os magos são portadores, as ordens iniciáticas são também ordens simbólicas e filosóficas. Através dos símbolos, os obreiros das ordens iniciáticas evocam e invocam o mundo. E Maria é uma obreira que evoca e invoca o mundo através do simbolismo do bosque das palavras, através do poema.

 “ de amor ardem os bosques” é o título desta obra poética de Maria. Com letras todas minúsculas, em sinal de humildade da obreira.

A palavra amor é a chave da obra. Porque o amor é a chave que nos abre o mundo, a palavra secreta que nos permite penetrar no bosque que se encontra dentro de nós mesmos e no bosque do mundo.

Como escreveu Dante na sua COMÉDIA, e já tinha escrito Boécio em A CONSOLAÇÃO DA FILOSOFIA, só o amor une o universo.

O amor está intensamente ligado ao fogo, símbolo da destruição e também da criação. O fogo é o símbolo da presença de Deus junto do homem. Foi através da sarça ardente que o Deus dos judeus se manifestou a Moisés. E Deus é o Amor, que como diziam Boécio e Dante, une o sol e as estrelas.

O fogo é ainda o símbolo da sabedoria, da iluminação. Foi através de línguas de fogo que a luz de Deus entrou nos doze apóstolos. O alquimista cria a imortalidade no fogo do seu fornilho.

O fogo que ilumina “ de amor ardem os bosques” é o fogo alquímico do amor que transforma o interior do homem, o seu bosque.

Esta obra de Maria inicia-se com uma citação do nominalista Guilherme de Occam: “ O homem só muito lentamente aprende o seu nome.”

A citação é também simbólica. Guilherme de Occam, o grande, talvez o maior nominalista, foi o filósofo que libertou as palavras das coisas a que Platão e o cristianismo platónico as tinham aprisionado. O monge franciscano de Occam teve a humildade e a pobreza como princípios de vida e a liberdade como ideal sagrado e único caminho que leva o homem a conhecer-se a si mesmo como estava escrito no frontão de Delfos, a conhecer o seu próprio nome. A viagem através dos bosques é penosa, assustadora. Mas só através dela poderemos conhecer o nosso próprio nome.

Maria divide a sua obra em cinco partes, que denomina folhas, porque as folhas são as partes do bosque que simultaneamente são um ente em si, símbolo do reino vegetal, mas também a parte de onde o ramo, a árvore e o bosque retiram o seu sentido e prosperidade, pois que é das folhas que à árvore vem a vida, através do ar, esse elemento essencial ao fogo.
















Maria Azenha
De Amor Ardem os Bosques
2010

São cinco essas folhas, porque cinco é o número daqueles que iluminam o templo. Cinco é também o número do amor, o número nupcial, como ensinava Pitágoras, o número da união do princípio masculino, celeste, o três, com o princípio feminino, terrestre, o dois. O símbolo do homem, como o conhecemos do desenho de Mestre Leonardo e do ensinamento de Hildegarda de Bingen. Cinco é também o conjunto dos sentidos que nos ligam ao mundo e através dos quais o mundo se nos revela.

A primeira folha, intitula-a Maria “ da inteligência dos bosques”

E, no primeiro poema, diz-nos que estamos aqui como num templo iniciático, onde o que se passa “ À luz da lâmpada do anfitrião da casa”  não pode ser revelado, e é objecto de um voto de silêncio. È também em silêncio, como em todos os templos, que devemos entrar com o coração cheio do vinho do amor. Em silêncio se contacta com a inteligência dos bosques, com tudo o que nos bosques há que, como dizia Bernardo de Claraval, nos pode ensinar muito: as aves, o vento, a água que nos hão-de ensinar a “ciência da respiração”..

Maria trabalha “ na lavoura do alfabeto”. A “centenária árvore” ensina-lhe a subtil “fonética dos insectos.”

A acácia é a árvore que está no coração deste bosque, a acácia árvore de folha perene de que era feita a arca da aliança que se encontrava no Santo dos Santos, do Templo. A acácia árvore que no dealbar do solstício de Inverno nos anuncia a luz de inúmeros sóis, a acácia com que se cobriu o corpo morto de Mestre Hiram que a ciência dos bosques fará renascer nos nove mestres seus sucessores.

Por isso o segunda folha se intitula “ da ciência dos bosques”, porque bosque e amor são inteligência e ciência,  lugar onde aprendemos, o que aprendemos, e como aprendemos no ritual sagrado.

Mas o bosque é também o lugar de sombras, porque tudo no homem é simultaneamente luz e sombra, branco e negro, e a variedade infinita de cores entre o branco e o negro. Por isso a terceira folha se haveria de intitular “das sombras dos bosques”.

Esse é o espaço da solidão, da tristeza, da noite.

“ Vem pela noite um bandido

com uma mão cheia de cinzas

para nos cegar”

escreve Maria no terceiro poema dessa folha. E interroga-se Maria pensando nesses mendigos que aguardam apenas “a tigela de sopa” esmagados pelo cinismo:

«quem é que reponde por isto?»”

Ao lado do negro está o branco, ao lado das trevas está a luz, ao lado das sombras estão as clareiras, lá onde o  céu se abre límpido para homem, lá onde o homem pode receber a luz em contacto com o céu. Lá se encontram “ as roseirais do tempo”. Lá se poderá dialogar simultaneamente com o azul do céu e o verde das árvores.

“ E a árvore disse: «criei em ti o verde.

     Porque me amaste

   Teci em ti a ilusão da sede.

            Depois,

   Para que me conhecesses

     Entreguei-te

Às luminárias do solo.»

É o diálogo com a divindade, como o praticou Alain Bosquet, simultaneamente tormentoso e sereno, porque, como bem sabemos, o próprio Deus deseja a sua finitude e intimidade, Ele próprio deseja as coisas simples do homem: o calor do sol, a chávena de chá, o caderno, os lírios. E assim termina essa quarta folha, “das clareiras dos bosques”:

                 Escreve:

             No alto da manhã

     prepara-se o sol

para uma chávena de chá quente.

caderno e lírios surgem mais tarde

                                                  entra,

 fecha a porta.

               agora precisamos de paz.

Finalmente, “do coração dos bosques” é a última folha.

Na sua viagem através dos bosques, Maria perdeu o medo, porque toda a viagem é uma luta contra o medo, um modo de ir ao encontro da sabedoria, da força e da beleza.

Os bosques existem porque no seu centro está o coração. Chegados a Dezembro, ao frio, o que dos bosques resta é o coração.

Meu coração fugiu das coisas vãs

                           venceu as pedras o ar o espaço

                                     para cantar disse manhã

                                                                   criança

                                                                           de

                                                                       água

                                                            ave branca

Maria chegou à essência das coisas, à irmã criança, à irmã ave, os seres que dão sentido ao mundo. Dá-se nela o renascer das coisas. Depois de Dezembro surge a Primavera, o “ sopro livre”, “o domínio das cores.”

Perto do fim, ela, a criança, olha para trás, para o Outono, para a ceia de Natal, e descobre:

 “O amor é o que nos resta de mais sagrado”

Da memória da viagem, o amor é, sim, Maria, o que nos resta de mais sagrado no coração dos bosques.

HENRIQUE DÓRIA

Henrique Dória apresenta a obra de Maria Azenha

Henrique Dória. Colaborei no Diário de Lisboa Juvenil. Colaborei na revista Vértice. Sou advogado. Colaboro na revista cultural da Ordem dos Advogados, FORO DAS LETRAS. Tenho três livros de poesia editados e dois de prosa. Sou director do jornal O PROGRESSO DE GONDOMAR, e da Editora XERAZADE, EDIÇÕES.
Henrique Dória
 

 

 




 



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