GERARD CALANDRE

VESTÍGIOS

Trad. Nicolau Saião

VESTÍGIOS - INDEX
NAVEGAÇÃO

1. Quantas vezes

comecei por ali

pela janela entreaberta

cruzada por uma leve penumbra

- Deneb ou outra estrela

da Cassiopeia, ou um planeta

errante

Quantas vezes

sem saber que dizer, sem poder

respirar a valer

inventei ruídos ao longe

pus gente a viajar à beira de caminhos

que nem sei se existem Quantas vezes

escarneci fiquei sério

e digo isto sem troçar

deixei a mão direita sozinha

acenando entre particípios e conjuntivos

Quantas vezes quantas vezes

perdi de vista a morte a vida

Quantas vezes

cheio de sono farto de verbos

peguei em sonhos numa vassoura

fugi assustado, andei de barco

e ao acordar enchi-me duma imperiosa

ternura num suspiro

e fui pelas ruas bocejando

trocando os pés moderadamente

como se estivesse ligeiramente louco

ou os poemas fossem apenas simulacros.

 

2. Agora vou pensar um bocado no “Anjo Guardião

Aparecendo a Maria” da basílica de San Genaro

de Piero de la Francesca, como que por acaso

Uma pintura sem arabescos, aparentemente

sem semelhanças com outra que vi – e no entanto

tão igual! – num museu de Évora durante a minha

primeira viagem a Portugal. Almoçara

num famoso restaurante de Lisboa

Como a cidade estava bela cheia de vento

e a minha bendita gravata de riscas que a

Jeannette me oferecera devia

fazer um vistão

e eu rapava o prato miraculosamente

e então a Jeannette disse-me: repara! E eu

olhei

Um senhor alto, de óculos reluzentes

olhei entre o assado e o doce

Era, esclareceram-me, um famoso escritor

uma pessoa de qualidade, romancista também

com putices finas pelo meio, um homem

de confiança de Sua Excelência enfim

antes da fruta, antes do brandy. A Jeannette

dissera-me: repara! E eu olhei, eu

olhei. Vírgula, dois pontos, aspas

traço e sublinhado.

 

A gravata está pendurada

no trinco de uma porta. Entretanto

como passaram vários meses

já digeri o assado, a sopa, o doce

o charuto que o Pierrot me deu. Doravante

- lembro-me que pensei –

vou passar a comer em modestas tascas

não fumar

mijar sei lá se calhar à socapa atrás

 

dum arbusto.

Gérard Calandre nasceu em 1952, na Bretanha, França. Viveu na Itália, leccionando na cidade de Messina. De formação científica, tem-se mantido afastado do mundo das Letras. Autor do livro Vestígios, traduzido por Nicolau Saião e de textos esparsos sobre o seu ramo profissional. Visitou Portugal em 1992 e 1997. Após o falecimento de sua mulher foi viver para o Canadá francófono.

Tem colaboração nas revistas “Diversos” – dir. José Carlos Marques, “Bicicleta” – orientada por Manuel Almeida e Sousa, “Agulha”(Brasil) – dir. Cláudio Willer & Floriano Martins, etc..

NS

 
 

 

 

 




 



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