DORA GAGO.....

Julien Green visto por Otília Martins

L’oeuvre de Julien Green une poétique du mal - dualité et déchirure dans le univers greenien: Otília Pires Martins - Edições Colibri, 2009, 356 p.

«Le mal existe, mais non pas sans le bien, comme l’ombre existe, mais non sans la lumière»
 (Alfred de Musset, Lorenzaccio)

 Num ensaio intitulado L’oeuvre de Julien Green une poétique du mal, Otília Pires Martins, Professora Associada com Agregação do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, proporciona-nos uma profunda análise ao universo literário da vasta obra de Julien Green, onde a escrita se assume como o caminho para a unidade de um ser dramaticamente dividido e atravessado pelas mais diversas dicotomias, a começar, como evidencia a autora, pela duplicidade linguística, pelas duas «pátrias», duas religiões, para além da luta constante entre o instinto e a religião, a sexualidade e a fé, o bem e o mal, as trevas e a luz.

É, precisamente, a dilaceração entre todas estas forças antagónicas que se procura e analisa neste aturado trabalho de investigação, pois, como é referido:  

“C’est dans la déchirure provoquée par cette dualité qu’il nous faut chercher la genèse de la puissance dramatique de l’oeuvre greenienne, de sa violence et de sa folie.” (p.27).  

Green é apresentado, desde o início, como um “pintor da condição humana”, um visionário, cuja obra se assume, simultaneamente, como testemunho e apelo metafísico, oscilando entre o real e o fantástico, o visível e o invisível.

Assim, na primeira parte, intitulada “Le mal moral ou l’angoisse d’exister”, são analisados os vícios e paixões caracterizadores das personagens que habitam o “inferno greeniano”(a avareza, a curiosidade, a indolência). É ainda focada a poética do espaço no imaginário deste autor, partindo de lugares reais, onde vemos inscrever-se sub-repticiamente, o elemento fantástico, assumindo, por exemplo, a casa uma configuração maléfica, para se enveredar por um maravilhoso eivado de elementos integradores altamente simbólicos: a noite, a lua e a água.

Na segunda parte, intitulada “Le mal charnel ou l’obsession de l’impur”, são desenvolvidos diversos aspectos como a obsessão e a sacralização da beleza, a homossexualidade, a sensualidade, a violência, o horror ao pecado, a obsessão do impuro, a imagem da feminilidade maléfica. Deste modo se evidencia o combate entre o bem e o mal, o corpo e o espírito, a sensualidade e a fé.

Na terceira e última parte (“Le mal metaphysique ou la présence du demon”), percorremos os meandros configuradores da constante presença satânica que, através da oposição com Deus desagua numa ambivalência antitética.

O leitor tem assim o privilégio de percorrer e descobrir o “dantesco” reino de silêncio e solidão de Julien Green interpenetrado pela violência, pelo ódio e o sadismo, mas também por “gritos” (de revolta, de recusa ou de simples pedido de ajuda). Nesse universo ficcional, a escrita, subterfúgio a que recorrem inúmeras personagens, (sob forma de uma real mise en abyme) desempenha uma função libertadora, catártica, assumindo-se como um modo de evasão, fuga e purificação, através da qual, o mal, representado pelos mais diversos monstros, poderá ser exorcizado.

Após uma análise rigorosa, profunda e concisa, tecida através de um notável estilo ensaístico, é sob a égide do humanismo que L’oeuvre de Julien Green une poétique du mal termina, visto que, neste universo aparentemente aterrador é possível divisar a luz, as marcas do Bem, da grandeza, como salienta a autora:  

“L’oeuvre greenienne met en évidence les problèmes que pose l’existence du Mal mais, de même que l’ombre prouve l’existence de la lumière, l’angoisse devant la décheance laisse deviner une nostalgie de la grandeur.“   (p.329).

 Assim, é divisando o que se encontra para além da aparência, o tal sentido oculto onde reside a própria essência (“o essencial é invisível aos olhos” como afirma Saint Exupéry no seu Principezinho”) que a obra greeniana “nous montre l’aventure extraordinaire, humaine et spirituelle, d’un homme en quête de Dieu” (p.330).

Em suma, após termos sido guiados pelos mais recônditos e labirínticos meandros da obra de Julien Green, somos impelidos a penetrar, através da sua leitura (ou releitura), num universo fortemente marcado por forças ambivalentes e antitéticas, remetendo-nos, assim, para Nietzsche que afirma que “o homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.”

TriploV, 11.12.09

Dora Maria Nunes Gago nasceu em S. Brás de Alportel a 20 de Junho de 1972.

É licenciada em Ensino de Português e Francês pela Universidade de Évora, mestre em Estudos Literários Comparados e doutorada em Línguas e Literaturas Românicas pela Universidade Nova de Lisboa.

Foi Leitora do Instituto Camões em Montevideu (Uruguai) no ano lectivo 2001/2002 e é professora na Escola EB 2,3/S Dr. Isidoro de Sousa em Viana do Alentejo.

Publicou Planície de Memória (1997), Sete Histórias de Gatos (em co-autoria com Arlinda Mártires – 1ª ed. 2004, 2ª ed. 2005); A Sul da escrita (Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, 2007); Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga (dissertação de doutoramento) -FCT / Fundação Calouste Gulbenkian, 2008 - e tem artigos, ensaios, poemas e contos dispersos por antologias, livros, revistas e jornais portugueses.

Além disso, tem apresentado diversas comunicações em Colóquios Internacionais, encontrando-se a desenvolver, actualmente, mediante uma bolsa da FCT, o projecto de investigação pós-doutoramento «Uma cartografia do olhar: visões e ecos de Espanha e do Brasil na Literatura Portuguesa do século XX (1927-1999), orientado pela Prof. Doutora Otília Pires Martins do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro.

 

 

 

 




 



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