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Carlos Garcia de Castro


OS MELROS

A tarde já está branca, e então os melros
voam de novo com os seus estalidos.
Gosto de vê-los, quase nunca falto,
a qualquer hora quando penso em mim.
Mas não me salta nunca cá de dentro
um ser de forma alada, tracejante,
ao gosto dos poetas competentes
e das mais gentes tidas nesse gosto.
Esta a surpresa repetida e calma
da liberdade no voar dos melros.
Que os melros são reais e são concretos
na sua zoologia – sem poetas.
Ainda que banal, não imagino
que se reparta o coração num pássaro
a saltitar disperso nas ramagens.
É meu dizer de mim que sempre tive
– mais homem que poeta, ambos vulgares,
vida e saber sem mais comparações.
Porque um poeta como eu, ingénuo,
não tem ideias nem pesquisas únicas,
é incapaz de conceber os pássaros,
limita-se a dizer que existem pássaros
quando o que vê são na verdade os pássaros.
Assim banal, disfarço a velha imagem
dos outros imitando um coração,
fingida a fantasia que há nos pássaros.

Agora com os melros, isso não!

Com estes melros não, porque são meus,
voam de novo à tarde com estalidos,
levam no bico um cibo do quintal,
e este quintal é meu – e destes melros.
Gosto de vê-los, quase nunca falto,
 a qualquer hora quando penso em mim.

Mais homem que poeta, ambos vulgares,
o meu dizer dos melros já deixou
de ser um sentimento, é crueldade.
Passava bem sem eles no quintal,
mas tenho medo de os deixar de ver.

Quando será que um pássaro se alastra
para existir à tarde – com surpresa?

Agora tenho de pensar em mim.
Aos melros tanto faz, quando eu faltar.

 

 
 

 



 



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