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Carlos Garcia de Castro


DEDICATÓRIA

Quando à noitinha vou ao nosso quarto,
de algumas vezes sou quem abre a cama.
Um dia mais passou, serenos restos
deixados no carácter dado às roupas.
É uma pausa adiantada ao mundo
que ali se fica reduzido em dois,
à nossa espera em vida o ser de sempre.
Aos pés da cama deixo o meu pijama,
tua camisa de dormir ao lado,
e é tudo tão banal, tão repetido,
tão preenchidos já os mesmos cheiros,
que não percebo as erecções surgidas
(há mais de quarenta anos condizentes),
de cada vez que vou abrir a cama,
igual bailado sedutor das aves.
Tua camisa de dormir ao lado
por lá se fica junto ao meu pijama,
há mais de quarenta anos – monogâmicos
(como a ciência diz de certos bichos).
Bem sei que prezas estes rituais,
e eu próprio à diligência tos conduzo,
com perspectivas no armar das roupas
– voltar à pausa adiantada ao mundo.
Para ser sincero, eu nunca mais entendo
que a Natureza venha assim concreta
e há mais de quarenta anos permaneça
sabedoria de animal com espírito
– quando à noitinha calha abrir a cama.
Tua camisa de dormir ao lado
por lá se fica junto ao meu pijama.
Lençol de cama é leve sem pijama,
tua camisa de dormir soltou-se
– o abrir da cama é cuidado eréctil
com habilidade no armar das roupas.

Zoologia exacta. É boa a sorte
que em casa aqui passou, serenos restos
das roupas corporais, quando à noitinha
se alastra e se decide uma saudade.

Porquê, mulher, abrir a nossa cama?
– se é maldizer por dois com precaução
a competência que às viúvas fica.

 

 



 



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