eu não
acredito na bondade dos anjos
todos parecem bebês de rosemary
o colorido dos vitrais não ameniza
a melancolia assustadora estampada em seus semblantes
no centro da casa
sagrada
o homem abre o livro
sagrado
e recita para si palavras pesadas
como o som de mil crucifixos arremessados ao chão e eu penso
nos pecados mais bizarros que rondam o
confessionário de vozes alteradas depois
aliviadas,
por depositarem nos ombros do representante do pai a culpa dos
seus atos impensados ou dolorosamente calculados
penso nos
joelhos esfolados
por baixo das calças poídas dos fiéis fervorosos
que não sentem o gosto de ferro na boca
nem o gosto do sangue no cálice
e os sinos badalam doze vezes pausadas
ensurdecendo meus sonhos sacros
fazendo-me abrir todas as noites os olhos
quando deveriam estar fechados.
Camila Vardarac nasceu no Rio de
Janeiro, em 1987. Observadora por natureza, escritora por impulsão –
pela necessidade (recorrente) de expressar-se em prosa e poesia. Voyeur
da realidade e de suas representações, encontrou no cinema um meio de
materializar suas idéias no continuum do espaço-tempo, desconstruindo-se
em impressões.