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Miss Pimb
Errorata
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Estou a ler um livro que traz dentro uma folhinha solta com título "Errata", a dizer que no livro há muitas "gralhas" tipográficas (sic), é preciso pôr sic nas citações quando a mostarda delas nos chega ao nariz, ensinou a sotôra Malvácea, minha professora de Português, tantas "gralhas" tipográficas (sic) a mim cheiram a errorata. Porque era um chorrilho delas, o autor só corrigia uma, que se repetia com insistência: em vez de Hemileia vastratix devia ler-se Hemileia vastatrix. O livro é muito grande e eu vou mais ou menos na página 100, por isso só quando acabar vou dizer que livro é, e até onde vou ainda só vi uma gralha, uma gralha inocente, daquelas asneiras que sem querer esparramamos nos exames e assim, e nem é uma gralha muito grande, é só diferença de 5 anos numa data, o autor diz que Moller em 1890 não encontrou essa tal Hemileia vastatrix em São Tomé, mas Moller esteve em São Tomé em 1885. Da primeira vez que o autor deste livro tão grande fala da Hemileia, está realmente escrito vastratix, mas depois é um ror de páginas em que só aparece mais uma vez a Hemileia, e está certo, vastatrix, de maneira que fiquei a pensar em coisas muito esquisitas e fui pesquisar, a sotôra Malvácea não ensina a gente, quando não sabemos manda logo pesquisar, por isso nem perguntei nada e fui pesquisar, descobri que essa tal Hemileia vastatrix são fungos, uma doença devastadora que ataca as plantas do café, chamam-lhe ferrugem alaranjada, fiquei a pensar que as gralhas também são assim uma ferrugem devastadora dos textos, a páginas tantas uma criatura já não dá atenção nenhuma à Coffea arabica, só anda a ver onde vai parar a Hemileia vastatrix, nunca se sabe. E porque é que o autor põe as "gralhas" tipográficas entre aspas, como se não fossem nem gralhas nem tipográficas? Olha só, uma errata serve para emendar as gralhas e acrescentar "tipográficas" já é redundância, não é preciso pôr aspas nenhumas, imagina eu agora a ler o último "canto" dos Lusíadas, ou a sentar-me ao "canto" da sala, agarrada ao "pé" da mesa, nunca mais acabavam as aspas. Eu sempre ouvi dizer que as palavras têm muitos significados, não vamos agora escolher quando lhes pomos aspas ou não, ainda os livros de poesia e assim ficavam mais devastados pela Hemileia asperix do que as plantas do café. Os pensamentos que me correm pela cabeça não os posso confessar à sotôra Malvácea, porque são muito malvados, e eu até tenho medo de os escrever, não vá as pessoas pensarem que pensamentos malvados são próprios de pessoas malvadas, o que não é o meu caso, porto-me bem e tudo! O autor quer saber quais as razões do declínio da cultura do café, que começa em 1889, para em 1890 começar o ciclo do cacau, e acha que a Hemileia não tem nada a ver com a decadência, em 1890 ainda não tinha sido introduzida em São Tomé porque Moller não fala dela. E depois? O não falar prova alguma coisa? Eu sempre ouvi falar de guerras biológicas, então fiquei a pensar que elas podiam ser muito, muito antigas. Em São Tomé as roças eram campos de concentração nesse tempo, e antes ainda piores do que isso. Então havia muitos espiões que mandavam as notícias da escravatura para os jornais estrangeiros e montes de sociedades filantrópicas que combatiam o esclavagismo, e pelo meio disso os que queriam acabar com a monarquia, São Tomé era a pérola de Portugal, dava muito dinheiro ao governo com o café e depois o cacau ainda deu mais. Eu sempre ouvi dizer que gente de muito cacau era gente de muita massa e não ponho aspas nem nada, era o que mais faltava! Então supondo que eu fosse um desses agentes secretos disfarçados de naturalista, como havia tantos em África, e quisesse mandar o regime para o galheiro, ia atacar o sítio do cacau, para não haver massa para gastar nem investir nem para pagar os ordenados, então o governo tinha de pedir dinheiro emprestado ao senhor Rhodes, e depois o senhor Rhodes queria Moçambique porque não havia cacau para pagar a dívida, e como se podia atacar o sítio do cacau, mesmo antes de o cacau ter substituído o café? É isso, são pensamentos tão malvados que não os posso pôr nos trabalhos de casa, a sotôra Malvácea nem pode sonhar que eu imagino cenas tão devastadoras, mas a Hemileia vastatrix fazia grandes estragos em Java, e quem andava por Java, Timor, e outros sítios da Insulíndia? O Chico, por exemplo, o Newton, o Reesetanzinho, que podia ter introduzido a Hemileia vastatrix em São Tomé para dar cabo do café, e para dar cabo do cacau qualquer outro parasita servia ou esse mesmo, e quem diz Reesetán diz Fea, e quem diz Fea diz Moller, e quem diz Moller diz Chevalier e um ror de outros, o Fea não esteve em São Tomé depois da exploração da Birmânia? Ou até o Boyd Alexander, eles andavam por todo o lado e atrás uns dos outros para apanharem o que os antecessores tinham plantado. Depois morriam assassinados e a culpa caía sempre em cima dos negros selvagens, e mesmo que não morressem, como o Chico, que diz ter escapado a uma tentativa de envenenamento pelos angolares, a culpa caía sempre em cima dos negros selvagens, como aconteceu com Boyd Alexander, que esticou mesmo o pernil, assassinado pelos "negros selvagens".
 

Frutos, flores e folhas de cafeeiro atacadas pela Hemileia vastatrix
 

 

 

 


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