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MISS PIMB
Coitadinho do Erinaceus europaeus!
Eu já tive em tempos um Erinaceus europaeus e até era muito educado e sabia um monte de coisas da Julia Kristeva e do Peirce e tal porque para ele não ficar sozinho ao fim-de-semana lá no laboratório onde vivia, sem água nem comida nem nada, eu levava-o comigo mas como não ia directa para casa e tinha aulas pelo caminho então ele ia comigo e ficava muito sossegado sem ninguém perceber nada dentro de um saco enquanto o professor, que já morreu, dava a aula de Semiótica, chamava-se Osório Mateus e eu tenho muitas saudades dele.
O que aconteceu hoje deu-me muita pena, muita pena, e até pensei, raios!, agora os bichos interessantes são todos esborrachados pelos carros!, porque já aqui há tempos o mesmo aconteceu e eu contei, é o texto sobre os Chalcides striatus, aquele artigo com título "Sim, sim, eu vi: lagartos sem patas!"(1)
Escrevi esse texto depois de ter visto um Chalcides todo espalmado na estrada por um carro que lhe passou por cima e agora foi o pobre Erinaceus europaeus, ouriço-cacheiro de seu nome vulgar, voltei a casa a buscar a máquina fotográfica, o bicho como se vê na foto parecia um cometa de espinhos com uma cauda de gordura das partes moles esmagadas e do resto só restavam uns pêlos do focinho mas via-se perfeitamente que era o Erinaceus europaeus e até pensei naqueles cientistas que nunca chegam a ver vivos e inteiros os animais que estudam, ou porque andam de noite e não se deixam perceber, ou porque são pequenos, ou porque porque porque, certo é que muitos naturalistas não vêem nada o lince da Malcata, por exemplo, só os cocós e as pègadas do lince da Malcata e outros só sabem que micromamíferos existem na fauna de certa região por estudarem as regurgitações das águias, quer dizer, as águias comem ratos e ratinhos com que dificilmente topamos no campo, e então as águias, depois de comidos esses micromamíferos, e elas não usam faca e garfo, engolem todo o animal, e depois vomitam umas bolas de pêlos e ossos, e a essas plumadas, que é preciso procurar no bosque onde há águias, é que se chama regurgitações, e então os naturalistas coleccionam essas bolas vomitadas e no laboratório põem tudo em pratos limpos, identificando ossinho por ossinho os ossos regurgitados e é assim que depois nos catálogos vêm os nomes científicos das diferentes espécies de ratinhos e tal e eu também só assim de uma maneira indirecta e desviada do vivo consigo observar a natureza, vou fazer um projecto de estudo da fauna de Britiande a partir dos vestígios deixados na estrada pelos animais esborrachados para apresentar à minha amiga Ana Luísa Janeira, pode ser que ela goste e se entusiasme e arranje equipa no Brasil para fazer a mesma coisa lá e trocarmos impressões em importantes congressos internacionais ora pois.

Restos mortais de um espécime de Erinaceus europaeus, esmagado por um
automóvel na estrada de Britiande, junto à Quinta de Santa Cruz.

Foto anterior: Erinaceus europaeus. Um espécime vivo, fotografado em finais de Setembro em Britiande, numa quelha, perto de um local onde estavam caídos muitos figos

(1) http://www.triplov.com/pimb/2007/Scincidae-Anguidae/index.htm
 

 

 

 


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